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Sânzio de Azevedo
José Albano é homenageado
Especial para o Vida & Arte,
de O Povo, 27.05.2000
O
Rodas de Poesia traz hoje a obra do poeta José Albano. As
apresentações acontecem, a partir das 18 horas, no Centro Dragão do
Mar de Arte e Cultura (palco da passarela). O professor
Universitário Sânzio Azevedo comenta os trabalhos de Albano.
Ouvi muitas vezes meu pai, o poeta
Otacílio de Azevedo, dizer que, ainda muito jovem, tivera a honra de
conviver com o autor da Ode à Língua Portuguesa, aí por volta de
1914, no Café Riche, ponto de encontro de intelectuais na Praça do
Ferreira de então. E, após falar na majestade do porte daquele homem
elegante, de barbas negras e monóculo, confessava ter medo, naquele
tempo, de falar diante de poeta tão grande e tão culto, profundo
conhecedor da língua portuguesa e outras mais.
José Albano (sabem-no os que conhecem
sua obra) versejava à maneira quinhentista em pleno ano de 1912,
quando fez publicar, pelas Oficinas de Fidel Giró, Barcelona, três
opúsculos, sob a designação geral de Rimas de José Albano, a saber:
Redondilhas, Alegoria e Cançam a Camoens e Ode à Língua Portuguesa.
Com relação à grafia deste último título, tem-se dito, até com
alguma razão, que o poeta buscava reforçar o caráter arcaico de sua
dicção. Mas, como aventamos em nossos Aspectos da Literatura
Cearense (1982) e, depois, numa resenha na revista Colóquio/Letras
de Lisboa, em 1994, o fato de o poeta haver atualizado esses mesmos
vocábulos na sua Antologia Poética, editada em Fortaleza por Assis
Bezerra, parece indicar haver sido aquele procedimento um recurso
para contornar um problema tipográfico: talvez as oficinas de
Barcelona, Espanha, não dispusessem de til sobre o ``a'' (daí cançam),
e sobre o ``o'' (daí Camoens, que é aliás a grafia espanhola do nome
do maior poeta de nosso idioma).
No mesmo ano, pela Tipografia
Moderna, de Fortaleza, saíam a Comédia Angélica e os Four Sonnets by
José Albano with portuguese prose-translation, cujos versos formavam
blocos, mas dentro do esquema de rimas do soneto italiano, com o que
o poeta cearense seguia o exemplo de poetas ingleses, como
Wordsworth e outros.
José de Abreu Albano que, nascido em
Fortaleza em 1882, viria a falecer na França, em 1923, foi educado
na Europa (Inglaterra, Áustria e França), tendo depois voltado a
Londres e a Paris, entremeando esses períodos com estadas no Ceará e
no Rio de Janeiro. Numa dessas estadas em sua terra natal, de 1898 a
1902, fez parte do Centro Literário, datando de 1901 os versos seus
mais antigos que fomos encontrar na imprensa cearense, mais
precisamente no jornal A República, ora assinando-se José d'Abreu
Albano, ora José de Abreu Albano, ou simplesmente J.D'A.A. A maioria
dos versos trai formação romântica (``Vi-te, ó virgem - nos lábios
teus havia / Sorriso singular''), mas em março desse ano de 1901 já
vislumbramos notas precursoras de seu camonismo no quarteto: Aqueles
fios d'oiro me têm preso/ O coração em laços poderosos/ Aqueles
olhos claros, luminosos/ O peito me têm posto em fogo aceso.
Seus vilancetes, suas cantigas e
coplas chegam a rivalizar com o que de mais puro se fez no gênero no
Classicismo português. Há no meu peito uma porta/ A bater
continuamente /Dentro a esperança jaz morta/ E o coração jaz doente/
Em toda parte onde eu ando/ Ouço este ruído infindo:/São as
tristezas entrando/ E as alegrias saindo. Essa tristeza do poeta não
nos parece livresca: completamente solitário em sua terra e em seu
tempo, razão por que muito viajou, buscando ambiente para sua índole
original, era natural que fosse um triste. Ele o confessou no mais
famoso de seus sonetos: Poeta fui e do áspero destino/ Senti bem
cedo a mão pesada e dura/ Conheci mais tristeza que ventura/ E
sempre andei errante e peregrino.
Para Manuel Bandeira (que em 1948
reuniu e prefaciou as Rimas do poeta) este soneto ``nos soa em
verdade como um soneto póstumo de Camões''. Era camoniano o poeta,
mas preferimos ficar com Braga Montenegro, que afirma que ``assim
como Camões imitando Petrarca redigira o soneto camoniano, José
Albano, imitando Camões, comporia o soneto à própria maneira''.
Mereceu José Albano palavras consagradoras de Antônio Sales, de da
Costa e Silva, Américo Facó, Agripino Grieco, Tristão da Cunha,
Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima), João Ribeiro, Sílvio Júlio,
Manuel Bandeira, Luís Aníbal Falcão, Théo Filho, Braga Montenegro e
outros escritores que se debruçaram sobre sua obra poética.
Quando da eclosão do Modernismo,
disse alguém ser preferível um mau poema modernista a um bom poema
passadista. Hoje é interessante confrontar essa afirmação com esta
outra, de Manuel Bandeira, a quem ninguém poderá negar o título de
vanguardista: ``José de Abreu Albano foi um altíssimo poeta''. Razão
por que consideramos oportuna a apresentação, hoje, a partir das
18h, de uma antologia oral de José Albano nas Rodas de Poesia,
coordenadas pelo escritor Carlos Emílio Corrêa Lima, no Dragão do
Mar, com o apoio da Secretaria da Cultura do Ceará, que tem à sua
frente o jornalista Nilton Almeida.
Página de José Albano
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