Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

 

 

 

 

 

 

 

The Gates of Dawn, Herbert Draper, UK, 1863-1920

Álvaro Alves de Faria

Escreva para o autor

 


Poesia:


Prefácio, ensaio, crítica, resenha & comentário:


Conto:


Fortuna crítica:


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

Albrecht Dürer, Head of an apostle looking upward

 

Rosa Alice Branco

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

Livro novo de

Álvaro Alves de Faria


 

Global Editora e FNAC convidam para o lançamento da obra

 

MELHORES POEMAS

ÁLVARO ALVES DE FARIA

 

com apresentação e prefácio de Carlos Felipe Moisés

 

4 de novembro de 2008, terça-feira

a partir da 18h30 na Fnac Paulista

Av. Paulista, 901 ou Al. santos, 960

Tel.: (11) 2123-2000

 

 

 

Veja notícia sobre o NOITE NULA, de Carlos Felipe Moisés

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

Álvaro Alves de Faria


 

Verso e reverso
 

Estão comprometidos com o sangue
o verso e o reverso desta medalha:
desfaz-se em palavras
o tempo de esperar tempo melhor
faz-se com nosso fôlego e nossa força
não importa morrer
veneno que brilhou no espaço
importa abrir a raiz
a dor de uma bala atravessando o cérebro
sem mais nenhuma palavra a dizer.

(do livro Em Legítima Defesa)
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana, detail

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Riviere Briton, 1840-1920, UK, Una e o leão

Adelto Gonçalves

 

Canção para Sophia

 

LIVRO DE SOPHIA, de Álvaro Alves de Faria, com textos de apresentação de Graça Capinha, professora de Poesia e Poética Contemporâneas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e de Miguel Sanches Neto, poeta e escritor brasileiro.

Editora Palimage, Coimbra, Portugal.

 


I

O mais português dos poetas brasileiros. É assim que o poeta Affonso Romano de Sant´Anna (1937) define Álvaro Alves de Faria (1942), poeta lírico brasileiro que acaba de lançar Livro de Sophia, poema longo dirigido a Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), escrito a 2 de julho de 2004, dia em que ouviu o anúncio do seu falecimento, por coincidência num período em que estava em Portugal e se sentiu na obrigação de fazer esta homenagem a uma das maiores poetas da língua portuguesa, distinguida em 1999 com o Prêmio Camões, em 2001 com o Prêmio Max Jacob de Poesia e, em 2003, com o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana.

Naquele dia, tomado de grande emoção, passou a escrever, por horas seguidas e em vários recantos lisboetas, o grande poema que a Sophia dedicou. “Na verdade, apenas conversei com ela, a andar por Lisboa, a falar com ela sobre o poema e a poesia, até que de mim se despediu, já madrugada, desaparecendo assim como surgiu”, escreve na abertura do novo livro.

Filho de portugueses, Faria, em sua maturidade, tem feito uma poesia que se tem caracterizado por uma busca de suas raízes pessoais, talvez decepcionado com os rumos que o seu país vem trilhando nos últimos anos, depois que a redemocratização mostrou a verdadeira face daqueles que, misturados aos que de coração lutavam contra a ignomínia que representava o regime militar (1964-1985), o que mais queriam eram uma oportunidade para se locupletar com as benesses do Estado. Talvez por isso, nos últimos anos, Faria vem fazendo na poesia o que o também poeta Miguel Sanches Neto (1965) definiu como “uma longa viagem de volta”. E que pode ser constatada neste trecho da elegia a Sophia de Mello Breyner: (...) Estou na tua terra, Sophia, em busca desse poema que me falta, no teu país em que me percorro na minha intimidade como se assim pudesse ainda salvar minha alma de poeta que fui. (...)

O desencanto do poeta com a poesia que se pratica no Brasil vem de longe, desde a década de 1960, quando o seu fazer poético foi questionado e, de certo modo, colocado de lado pela então vanguarda do movimento concretista. Ao lado de Mário Chamie (1933) e dos poetas influenciados pela geração beat norte-americana, Faria ficou imprensado entre o regime ditatorial que ceifava a liberdade de pensamento e a ortodoxia dos corifeus do movimento concretista -- Haroldo de Campos (1929-2003), Augusto de Campos (1931) e Décio Pignatari (1927) --, que atacavam a produção poética da época, dominada pela geração de 1945, a quem acusavam de verbalismo, subjetivismo, falta de apuro e incapacidade de expressar a nova realidade gerada pela revolução industrial.

Defendendo o experimentalismo na linguagem a qualquer preço, a abolição do verso tradicional e o uso de uma linguagem sintática, além da utilização de neologismos e estrangeirismos, os concretistas, praticamente, ocuparam todos os espaços na imprensa cultural e nos meios universitários de São Paulo. Até porque não incomodavam o poder. Radicais sem causa, acabaram, praticamente, por erradicar o lirismo da poesia brasileira, como se percebe na acusação implícita que o poeta parece lhes dirigir nestes versos:


(...) No Brasil, Sophia, a poesia não existe mais,
morta que foi a golpes brutos
que dela fizeram uma sombra que não se distingue,
de tal sorte
que o poema desfeito mais se desfez no próprio nada,
retrato que não se nota,
imóvel no seu féretro,
imagem inútil dos poetas à margem da poesia. (...)

 

Em tom coloquial, entre a epístola e a prece, como bem observa Graça Capinha na apresentação, o poeta faz recordar Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa (1888-1935), ao escrever um “poema que não é poema”, “que se nega como poema”.


(...) Não sei se percebes, Sophia,
já que neste poema que não é poema,
faço a fotografia possível do que me invade
com a notícia de que deixas o mundo.
O que se salva é a poesia feminina,
esse olhar que diferencia o poema. (...)


 

II

 

A extensa obra da homenageada não se resume aos domínios da poesia, abrangendo também a ficção, o conto para crianças, o ensaio, o teatro e a tradução, como provam magníficas versões que fez de textos de Eurípides (c.485 a.C-406 a.C), William Shakespeare (1564-1616), Paul Claudel (1868-1955) e Dante Alighieri (1265-1321). Mas foi sempre na poesia que se destacou, desde que publicou o livro Poesia (1944), que contém versos que definem uma questão central em sua obra, como aponta Clara Rocha em texto que consta do site do Instituto Camões, de Lisboa: a relação entre poesia e magia. Esses versos são os seguintes:


Palavras que eu despi da sua literatura,
para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
de fórmulas de magia.
“Pode dizer-se que constituem a primeira arte poética de Sophia e a mais importante deixa para os livros subseqüentes”, acrescenta Clara Rocha.

 

Nascida no Porto, no seio de uma família aristocrática, Sophia, principalmente depois de casar em 1946 com o jornalista, advogado e político Francisco Sousa Tavares tornou-se atenta às questões sociais do seu tempo, assumindo uma atuação cívica, tanto antes como depois do movimento de 25 de abril de 1974, que devolveu a democracia a Portugal: esteve sempre na oposição ao regime ditatorial de António Salazar (1889-1970) e na defesa das liberdades, foi co-fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, presidente da Assembléia Geral da Associação Portuguesa de Escritores e, após o movimento de 1974, deputada na Assembléia Constituinte.
De origem dinamarquesa por parte do pai, a sua educação decorreu num ambiente católico e culturalmente privilegiado que influenciou a sua personalidade.

Freqüentou o curso de Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, talvez em função de seu fascínio pelo mundo grego, o que a levou igualmente a viajar pela Grécia e por toda a região mediterrânica. Não chegou, porém, a concluir o curso.

Um de seus filhos, Miguel Sousa Tavares (1952), é hoje jornalista consagrado em Portugal e autor de romances de êxito também no Brasil, como Equador (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2004) e Rio das Flores (são Paulo, Companhia das Letras, 2008).

Sabendo-se agora um pouco da história da homenageada, pode-se ler melhor o poema de Faria, profundo conhecedor de sua obra, que, quase ao final de sua canção, diz:


(...) Tua nau, Sophia, que atravessa o mar que te cobre,
o vento que sopra partidas nas horas próximas,
a sombra que te abrange em tuas distâncias,
o cigano Cristo que te dá as mãos,
as águas que amaste com olhos de sal,
tua cidade do Porto já antiga na tua memória,
quase desaparecida palavra de um poema esquecido,
teus deuses gregos a correr ausências pelas florestas,
teu grito no grito grave do grito para dentro,
como quem fala observando os temporais. (...).

 

III

Para se ter uma idéia do retorno de Faria às suas raízes lusitanas, basta ver que, nos dez últimos anos, publicou sete livros de poesia, seis deles em Portugal. Pela ordem: Vinte poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra (1999), Poemas Portugueses (2002), Sete anos de pastor (2005), A memória do pai (2006), Inês (2007) e agora este Livro de Sophia.

Nascido na cidade de São Paul, Faria é jornalista e escritor, com mais de 50 livros publicados, entre poesia, romances, crônicas, contos, ensaios, livros de entrevistas literárias e peças de teatro, uma delas sobre Augusto dos Anjos (1884-1914), que considera o único poeta brasileiro universal.

No Brasil, publicou neste ano Os melhores poemas, numa das coleções mais importantes da literatura brasileira, com seleção e ensaio de Carlos Felipe Moisés, e ainda uma nova edição de O Sermão do Viaduto, com o ensaio “Álvaro Alves de Faria e seu Sermão do Viaduto para o mundo”, de Aline Bernar, doutoranda na Universidade de Coimbra sob a orientação da professora doutora Graça Capinha.
O Sermão do Viaduto é constituído por poemas que foram lidos em recitais publicados realizados no Viaduto do Chá, no centro histórico de São Paulo, no início da ditadura militar (1964-1985). O poeta realizou no local nove recitais, com microfone e alto-falantes, e, acusado de subversão, foi detido pela polícia cinco vezes.

Em 2007, foi homenageado no X Encontro de Poetas Ibero-americanos, realizado em Salamanca, na Espanha, nesse ano dedicado ao Brasil. Teve, então, uma antologia de seus poemas publicada no evento, Habitación de olvidos, com seleção, ensaio e tradução do poeta peruano-espanhol Alfredo Perez Alencart. Seu livro Babel – 50 poemas inspirados numa escultura do artista plástico Valdir Rocha –, publicado em 2007, recebeu o Prêmio da Academia Paulista de Letras como o melhor livro de poesia do ano.
Crítico literário e jornalista cultural, Faria escreve para várias publicações questionando a poesia que se faz hoje no Brasil, que considera “mergulhada numa densa escuridão, descontadas algumas exceções”. Mantém ainda uma participação constante num programa noturno da Rádio Jovem Pan, de São Paulo, em que igualmente faz comentários sobre lançamentos de livros de poesia.




(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

 

 

William Blake, Death on a Pale Horse

 

 

 

 

     
 
Ana Cristina Souto

Início desta página

Herodias by Paul Delaroche (French, 1797 - 1856)
 

 

 

 

 
 
Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

 

 

 

Um esboço de Leonardo da Vinci, página do editor

 

 

Ronaldo Cagiano

 

A poética do desassossego e da insubmissão

                                                                      

            Desde sua estréia, com Noturno maior (1963), até os mais recentes A memória do pai (2006) e Babel (2007),  há mais de quatro décadas, a voz de Álvaro Alves de Faria vem construindo uma obra catártica, movida pela paixão literária e por um profundo sentimento se responsabilidade estética.

 Não só por meio de sua poesia densa, pungente e cirúrgica, mas também por uma prosa sutil e reflexiva, tanto na crônica, quanto na ficção e no texto teatral, Álvaro vem arregimentando sua pulsão criativa para estabelecer um sério diálogo com a nossa própria condição existencial, ao mesmo tempo em que estende uma ponte  dialética entre os gritos e o silêncio de uma sociedade que viv seus antagonismos e experimenta um veloz e avassalador escalonamento de valores, costumes e referenciais.

 Ao reunir, sob a seleção, organização e estudo crítico de Carlos Felipe Moisés, os melhores momentos de sua produção poética, a Global Editora oferece ao leitor um panorama distinto, e ao mesmo tempo revelador, de uma arte comprometida com a compreensão da vida, no que ela comporta de lírica, épica ou dramática. Essa reunião de seus melhores poemas, possibilita um contato com a visão crítica e reflexiva desse escritor antenado e multifacético, que não se constrange em sofrer (e até morrer) pela arte literária, porque não concebe viver sem o pulmão e o farol das palavras.

 Diante da grandeza de sua bibliografia, é impossível esgotar qualquer análise crítica em torno de sua obra.  No entanto, o primoroso ensaio do organizador,  que abre a “Coleção Melhores Poemas”, faz um mergulho nos temas recorrentes na obra alvariana, refletindo sobre cada livro e ressaltando todas as nuances de seu processo de construção, que é também tributário de uma energia vital, que brota de sua íntima oficina de inquietações.

 Em Álvaro Alves de Faria a escrita vigorosa e contundente não doura a pílula, embora seja capaz de harmonizar a severa denúncia da realidade sem cair nas tentações panfletárias ou ideológicas; como também de decantar o lirismo que há nos amores e nas paixões, sem desviar-se para a pieguice ou o sentimentalismo. Há um trânsito filosófico e onírico ao passar em revista às razões do coração, aos silêncios que muitas vezes dizem mais que as experiências visíveis e flagram o que há de metafísico e mítico na própria vida.

 A escritura de Álvaro corrobora aquela perspectiva de que nos falava o saudoso poeta catarinense Lindolf Bell sobre a função provocadora da poesia: “O lugar do poema/é onde possa inquietar”. Na década de 60, após a decretação dos anos de chumbo pela ditadura militar, Faria saiu às ruas para romper amarras e desatar algemas com a única mas feroz arma de que dispunham os semeadores de utopia: a poesia. Para os espoliadores do estado democrático e de direito, a força da palavra acicatava mais que as bombas, porque seu poder fulminante, que reside na conscientização, incomodava e era preciso deter os que propugnavam pela liberdade de todas as formas de expressão e pensamento. Por isso, foi admoestado, proibido, enquadrado e detido, ao realizar solitariamente, munido de microfones e alto-falantes, nove recitais do “Sermão do Viaduto”, tendo sido preso cinco vezes pelo Dops. Sua guerrilha poética chamou a atenção não apenas pela ousadia estética, mas pela oportunidade de se utilizar a arte para combater o horror da censura e o tédio do moralismo estupidificante de uma parte da sociedade que assimilou cacoetes morais e repressivos do reacionarismo político, e, mais tarde, foi objeto de um estudo crítico publicado por Nelly Noaves Coelho, da USP.

Foi um momento epifânico na sua carreira, diria mesmo um divisor de águas. A partir desse episódio, lança-se a um combate sem tréguas, que não tinha apenas motivação política, mas uma atitude permanente de valorização do que é vivo e essencial na arte, sem fazer concessões ao mau gosto, aos modismos, às conveniências de qualquer natureza. Álvaro é um poeta que jamais perdeu sua coerência e vem pavimentando sua trajetória com esse mesmo espírito aguerrido que levava multidões ao viaduto do Chá. Jamais perdeu sua capacidade de espanto e indignação diante das injustiças, sejam as políticas, sejam as perpetradas pelos guetos intelectuais e suas rotulações ruidosas e  fetichizantes, que muitas vezes embalam a consciência de certos artistas e os tornam incapazes de discernir o joio do trigo, em detrimento de uma literatura comprometida com a realidade sócio-cultural, com a linguagem, com o pensamento crítico, com os rumos da própria poesia e que responda às demandas e emergências que a própria arte contemporânea reclama.

 Álvaro compreende, como Giorgio Agamben, a necessidade de se “reencontrar a unidade de sua palavra fraturada”, por isso sua poesia é um permanente exercício de resgate de uma arte tão mutilada pelas invencionices e contorcionismos, é uma tentativa exaustiva, porém fundamental, de recolher seus cacos, após décadas de diluição, falsas rupturas e vanguardices catequizantes, recolocando a palavra poética na ordem do dia, apesar do vazio, da superficialidade, da crise de criação ou quase indigência de que padece atualmente.

Não é sem tempo afirmar que sua poesia se perfila à dos grandes nomes de sua geração, além de manter uma fecunda interface com poetas universais de todos os continentes, com um viés ético-estético que o aproxima de Bandeira, Drummond, Baudelaire, Maiakovski, Lorca, Augusto dos Anjos, João Cabral, Pessoa, Sá-Carneiro, Rimbaud, Verlaine, Jorge de Lima, dentre outros e que a cada novo livro ganha mais força e atualidade. E essa vitalidade resulta da sua insubmissão aos cânones e de sua fidelidade aos princípios que sempre nortearam sua criação. Vem do sopro humanista, da dimensão social, da contundência de um olhar ao mesmo tempo cáustico mas esperançoso, do rigor técnico, do acento lírico. E também por exprimir os sentimentos conflagrados em nossos territórios íntimos, por denunciar o vazio, pela aguda identidade com a tragédia do existir, com uma fina sintonia entre o tradição e a modernidade, sem perder a lúcida perspectiva da poesia que, apesar de ser um movimento suscetível de metamorfoses, não deve negar seus vínculos com o passado.

Nos últimos anos, Álvaro Alves de Faria vem publicando seus livros de poesia somente em Portugal.  Essa mudança de rumos reflete não apenas uma atitude pessoal de volta às raízes familiares ou à compreensão da carga simbólica de sua ancestralidade lusitana, um influxo altamente proustiano de retomar o tempo perdido; mas também para fugir à insularidade ou à indiferença solene - e por que não dizer injusta e criminosa - com que o mercado editorial brasileiro vem tratando os nossos poetas, principalmente os poetas de sua linhagem, cuja contribuição ao panorama da poesia contemporânea brasileira é indiscutível.

 A poesia de Álvaro Alves de Faria, agora panoramizada na Coleção Melhores Poemas, sintetiza o pensamento de um autor que tem uma visão multidimensional da grandeza e das misérias humanas, o que a particulariza dentro do cenário da bibliografia brasileira.

 

 

 

 

   
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

 

 

 

 

 

Graça Capinha


 

 

“Neste poema que não é poema”, Álvaro Alves de Faria continua “a colher as últimas palavras” na poesia dos poetas portugueses – essa que escolhe como a sua tradição última, em que o nome de Sophia de Mello Breyner também se inscreve, – para, mais uma vez e a exemplo de todos os seus livros já publicados em Portugal, procurar a forma do poema que é, nas suas próprias palavras, “um risco de silêncio”. Autor de Palavra de Mulher (S.Paulo: SENAC, 2003), uma marcante colectânea de vinte entrevistas em homenagem a outras tantas escritoras brasileiras, este texto, dirigido a uma das mais reputadas escritoras portuguesas, reafirma a continuada admiração deste poeta e jornalista brasileiro pela escrita e/ou a diferença de um território, a partir do qual, reconhece, jamais poderá articular. Num tom coloquial, entre a epístola e a prece, Faria fala para Sophia, no dia em que ouve o anúncio do falecimento desta poeta portuguesa.

Percorrendo mais um caminho metapoético no espaço excessivo da infinita possibilidade de articulação por dizer, nesse espaço sempre em aberto, Faria busca uma possibilidade de reterritorialização: através do espaço das palavras, com e no espaço das palavras, para “uma poesia que não é e que não sabe”. Filho de portugueses, esta busca apresenta-se, inevitável e simultaneamente, como uma reinvenção identitária e poética (“para renascer em mim o ser que um dia me habitou”) – lembrando Sophia, a lembrar Caeiro, num “poema que não é poema”, “que se nega como poema”.

No estilo eminentemente paradoxal a que Faria já nos habituou, emerge, perante a morte e o silêncio (o lugar da infinita possibilidade), uma poesia de luz, “um baque”, um evento, a testemunhar o carácter nómada e sempre incompleto de uma escrita que nada “acrescenta em sua forma” ao poema, mas que, por isso mesmo – nesse “nada que salva” a escrita e/ou o poeta – afirma o devir da poesia da língua portuguesa, “como se lhe fosse possível existir”, para morrer ainda e, de novo, renascer. “Procuro-me em Portugal/e vejo-te morta” – daqui, deste primeiro verso do Livro de Sophia, se faz o trabalho para um (re)nascimento da escrita e do poeta. 

 


                                               

Graça Capinha: Professora de Poesia e Poética Copntemporâneas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Allan R. Banks (USA) - Hanna

 

 

 

 

 

 

Miguel Sanches Neto

 

 


O poeta, na madureza, sente a poesia ressecar em torno de si, devido ao papel irrelevante da palavra poética na cultura brasileira e à estratégia de afirmação dos não-poetas entre nós. Quando nada mais pode entusiasmá-lo no seu país, depois de décadas de uma produção conjugada na cidade dos homens, Álvaro Alves de Faria começa a fazer uma longa viagem de volta. Ele vai afirmar, ao homenagear a poeta Sophia de Mello Breyner Andersen, o sentido maior deste deslocamento:

Estou na tua terra, Sophia, em busca desse poema que me falta,

No teu país em que me percorro em minha intimidade

Como se assim pudesse ainda salvar minha alma de poeta que fui.

Esta travessia tem, portanto, um sentido salvífico. Ao fazê-la, Álvaro Alves de Faria, que vem se declarando um ex-poeta por não pactuar com o que se entende por poesia no Brasil contemporâneo, tenta retomar uma identidade perdida. Para que o poeta que ele foi possa ainda existir é preciso um ambiente cultural que o reconheça neste papel. Assim, este voltar-se para Portugal é antes de mais nada uma imposição interior. O ex-poeta quer encontrar uma tradição poética na qual ele caiba para que possa novamente ousar ver-se como bardo. Portugal é assim a pátria de um verbo lírico inexistente entre nós; e a travessia, um movimento vital.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

11/11/2005