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IGUARIAS DO INVISÍVEL
As ruas
se repetem como se temessem perder
a identidade. Canais de ilusão são abertos
em cada esquina como um estojo de vícios.
Os lugares em teu corpo onde pousei o afago,
janelas entreabertas com luz ainda em seu bojo,
tudo insiste em ser igual a um mito aprisionado
no espelho, fábula imprecisa ou rio sem leito.
Todo êxtase nos impulsiona a uma nova fricção.
Hoje percorro as ruas de teu corpo e avulta-me
como as cidades em que estivemos são a mesma.
Não devias estar aí novamente, nos subúrbios
do gozo ou na esfera gasta de cheiros e engodos.
Não devias te repetir em parte alguma de meu ser.
Eu não te amo mais até que te ame novamente. |

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A ILUSÃO REFEITA
Os olhos com que te
vejo já começam
a exigir de mim outra morada. Sinto
que suspeitam das coordenadas atuais.
Tocam-me como se uma pele de cinzas
revestisse o espírito de tudo o que vivemos.
Em silêncio embaralham nossas visões,
os recortes sensíveis de uma vida em comum.
Desalojam velhos segredos, despedem-se
de imagens descoradas, riem da memória
quando esta se desfaz de gastos vislumbres.
Os olhos com que te vejo, no entanto sequer
confabulam seus truques em minha retina.
Será como sempre (dizem): abrir-se ao incerto,
até que novas formas se fixem e multipliquem. |
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UM TOURO
NA UNHA, A PALMA A ROSNAR
Um broto
de safadezas mudando de formas,
as sombras de umas metidas em outros dons.
O teu beijo me açoita um bocadinho
nesta tarde com voz tão delicada em mim.
Um ciscado se agitando por toda a vitrine
do corpo atropelado por ostras famélicas.
Os cios não se confundem com hortaliças.
São miúdos os saltos de um lar a outro
entre os moluscos que oram dentro de nós.
Um pé de cabra assustado com as asas
que lhe devoram a sombra em várias fugas.
Um deus que passa por aqui e nada percebe.
Onde acomodo essa febre que não cessa
em tantos nomes que já ninguém lhe atende?
Deito-me, para que me
descubras quem sou. |

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A QUEM
SOUBESSE O NOME DELA
Ocupa-me de teus seios e sua álgebra frenética,
com a brevidade do abismo que cultivas no olhar.
Do quarto piso do aterro das almas cansadas,
uma janela deságua a inquietude de nosso pacto.
Não me digas o teu nome, cidade, papiro ou mar.
Jamais saberia como reaver-te em meio a tudo
que perco no transporte de enigmas luminosos.
Redijo um atropelo de caos, quando me reanimas:
as
cidades não caem fora de si. Erram no que são
e se repetem, até que o erro desista delas e se vá.
Cobiçarias no outro o que se oculta em teu ser?
Caçôo de mim enquanto as imagens se estreitam.
Teus mamilos desamparam meu desejo, uma sobra
de gozos antes que tudo se repita e seja nada. |
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O CÉU
POR ONDE PASSA
As
cidades se fecham em mapas descartáveis,
jazigos turísticos, onde sempre negas meu beijo.
Tudo em vão, se a dor desconhece seu nome.
Agendas do acaso, retóricas de um futuro gasto.
Uma noite deixamos o abismo dormir conosco,
estranho vulto cuja vida o cotidiano rejeita,
embora não deixe de saltar de um ponto a outro
de nossos trapos alegóricos, sua renda alquímica.
As cidades, no entanto, recusam a idéia do beijo
como uma túnica refeita de mitos que não retornam.
Beijo-te e as ruas não vão a parte alguma.
Soletram percursos recordados em teu íntimo.
Amigam-se da memória ardilosa e suas proezas,
como deusas decorando um mantra sacrificial. |

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PEQUENA DEFORMIDADE DA FALA
As línguas viajam pelo céu da boca,
sempre aladas, como anjos caídos.
Ao dizer-te que meu nome era Ilusão,
meu sermão não levaste em conta.
E passaste a me chamar como antes,
como sempre me soube tua imaginação.
As línguas nos levam de uma parte a outra,
sempre em trânsito, guiadas pela gravidade.
Jamais te vi tão nua quanto no dia
em que me puseste sal na língua a entoar
um
não
te vás
silencioso e veraz como a lua.
A língua nova era tua e sonhei com ela
toda uma vida, sem saber onde pousar.
Agora que o sei, o céu muda de lugar. |
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LEONOR
Eu te
persigo como uma lua envelhecida
refazendo as nódoas do vento em sua memória,
ou ruas abandonadas que se recusam a aceitar
não serem mais a rota do fogo ou da seda.
Eu te persigo em busca da ruína de meu corpo,
que foi lavrada na argila manhosa de teu vulto.
Não me virás uma vez mais com teus moinhos
de beijos, efeitos alquímicos, sopros de vida,
orgasmos escritos ao contrário, flor de enigmas.
Eu te persigo como uma tonelada de peixes
mortos denuncia a falta de mar em mim.
Não penso em deixar de morrer. Fecho os olhos
e persigo, alheia às linhas de minha mão,
o teu fim como se fosse meu último orgasmo. |
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