|
Alvaro Costa e Silva
Um poeta com faro

09.04.2005
Biografia romanceada de Augusto
Frederico Schmidt revela suas facetas de editor, político,
empresário e botafoguense
Órfão de pais, o adolescente gordinho
que sofria com os beliscões em suas nádegas - irritante brincadeira
dos colegas de trabalho num armarinho no Centro do Rio - sonhava com
o Beco das Carmelitas, quando passava de bonde diante daquele
''centro de amores venais''. Está na página 47 da biografia do poeta
e empresário Augusto Frederico Schmidt, Quem contará as pequenas
histórias?, de Letícia Mey e Euda Alvim, que acaba de sair pela
editora Globo: ''Deixou correr pela mente a idéia do pecado e
castigo, por alguns momentos. Na rua de pequenas casas coloridas,
com almofadas nas janelas, moravam mulheres que 'faziam a vida'. A
qualquer hora, do dia ou da noite, que se passasse por lá, havia
meretrizes debruçadas sobre almofadas de cetim, esperando os
clientes na janela. O encontro da noite anterior havia aguçado a
imaginação do caixeiro adolescente. Sonhava com o amor; ter uma
namorada parecia apenas uma quimera!''.
Principalmente na primeira parte do
livro é assim: Schmidt pensa e, mais que isso, sonha muito. Essa
liberdade é uma característica das biografias ditas romanceadas,
maneira escolhida pelas autoras para contar a vida de seu
personagem. Não deixa de ser um ato de ousadia - um tanto datada no
tempo, mas ousadia -, pois as biografias feitas no Brasil, depois
que Fernando Morais, Ruy Castro e alguns outros estabeleceram um
paradigma para o gênero, passaram a adotar o estilo americano, que é
calcado no jornalismo: exaustiva pesquisa, incontáveis entrevistas,
apuração minuciosa dos fatos. Nada de sonho.
Fazer o biografado pensar não é
proibido. Quando começou a publicar seus perfis nos anos 60, mais
tarde identificados com o new journalism (o que quer que seja isso,
já era praticado no Brasil desde a década de 40 por Joel Silveira),
Gay Talese explicou a razão de saber exatamente o que estava
pensando seu personagem naquele determinado momento: ''Eu perguntei
a ele''. Acontece que Augusto Frederico Schmidt morreu há mais de 40
anos (no dia 8 de fevereiro de 1965). E nasceu há quase 100 (no
próximo dia 18, completaria 99). Daí as dificuldades, que tornam o
trabalho mais consistente à medida que Schmidt entra na idade
adulta, e as pistas sobre sua vida e obra ficam mais fáceis de
achar. Nessa busca, o famoso e esgotadíssimo livro de memórias do
próprio Schmidt, Galo branco - inspirado na profética imagem bíblica
-, foi fundamental.
Em parte pelo estilo de narrar de
Letícia Mey e Euda Alvim - agradável e fluente -, e sobretudo pela
trajetória do poeta - quem poderia imaginar que o garoto tímido e
assaz beliscado tornar-se-ia o ghost-writer preferido de Juscelino
Kubitschek? -, o livro vale. Tantas são as facetas de Schmidt, que o
leitor pode escolher aquela que melhor lhe aprouver.
A de poeta está esquecida. Sua vasta
produção, iniciada em 1928 com Canto do Brasileiro Augusto Frederico
Schmidt e que teve seu ponto alto com Estrela solitária, de 1940,
recebeu elogios de Manuel Bandeira: ''O poeta pagou pontualmente e
com enormes juros a nossa letra de crédito quando publicou Canto do
brasileiro..., Navio Perdido e Pássaro Cego. A respeito deste último
livro escrevi algumas linhas em que procurei definir o que havia de
novo, de pessoal e definitivo em seu estro: saudei-o como a voz
necessária que vinha quebrar os clichês gastos do modernismo da
primeira hora; que, aproveitando-lhe as lições, sabia superá-lo.
Defendia-o contra os que lamentavam a recorrência dos grandes temas
de sua poesia - os presságios, as ausências, a morte''.
A Schmidt Editora, fundada em 1930, é
um marco. Um dos primeiros livros a sair do prelo, Maquiavel e o
Brasil, é a estréia de Octávio de Faria, ainda estudante de Direito
na Faculdade do Largo de São Francisco, no Rio, a quem o editor
conhecera no Centro Dom Vital, de orientação católica. Jorge Amado
também lá publicou seu primeiro romance, O país do carnaval. Outro
exemplo do faro literário de Schmidt é um lenda no mercado
editorial: de como ele, ao ler um relatório do desconhecido prefeito
de Palmeiras dos Índios (AL), tal de Graciliano Ramos, desconfiou
que ali tinha romancista. Dito e feito: pediu e recebeu os originais
de Caetés, indo, no mesmo dia, para uma noitada na Lapa. Tempos
depois, enlouquecido, não conseguia achar o texto em lugar nenhum.
Um ano se passou, e admiradores de Graciliano, como Jorge Amado e
José Américo de Almeida, cobravam a edição do livro. E imagine, lá
nos confins, a aflição do novato. Até que um dia encontrou os
originais esquecidos no bolso de uma capa de chuva. O livro saiu,
mas a fama de editor bagunceiro e desorganizado ficou.
Mesmo assim, a Schmidt Editora ainda
lançou, nada mais nada menos, que Casa Grande & senzala, de Gilberto
Freyre; alguns best selles da época, como A mulher que fugiu de
Gomorra, de José Geraldo Vieira, e João Miguel, de Rachel de
Queiroz; e mais estréias: Oscarina, de Marques Rebelo, e Maleita, de
Lúcio Cardoso. Na Coleção Azul (que deveria se chamar Coleção
Verde), montou toda uma estante de autores ligados ao integralismo:
Psicologia da revolução e Doutrina do sigma, ambos de Plínio
Salgado; Raízes do integralismo, de Olbiano de Melo; Brasil
integral, de Osvald Gouveia; Do liberalismo ao integralismo, de
Olímpio Mourão, entre outros títulos e nomes hoje no total
ostracismo, ao contrário da fama de fascista e reacionário que dali
em diante iria acompanhar Schmidt - foi ele o primeiro ''gordinho
sinistro'', muito antes de Delfim Netto.
Para dar mais munição a seus
detratores, Augusto Frederico Schmidt ficou rico - crime que, como
se sabe, é imperdoável no Brasil, mesmo que se tenha ganhado
dinheiro com trabalho e inteligência. Sua primeira empresa de
sucesso foi a Metrópole Seguros. Influenciado pelo estilo de vida
americano, inicia outras empresas em ramos distintos, com os sócios
mais variados. É assim que funda a Panair, pioneira em vôos
internacionais no país, e a primeira rede de supermercados, Disco,
que abriu suas portas no bairro de Copacabana em 1952. À época, as
pessoas ainda adquiriam gêneros alimentícios em armazéns, quitandas
e feiras livres. Em pouco tempo, Schmidt juntou uma fortuna
razoável, que lhe permitiu, ao casar, adquirir um terreno na rua
Paula Freitas, esquina com a praia de Copacabana. No lugar, ergueu
um prédio em cuja cobertura viveu com sua amada Yêda.
Como assessor de Juscelino Kubitschek
- que o indicou para assumir o comando da Operação Pan-Americana -,
o poeta escreveu o discurso em que cunhou a famosa frase ''Deus me
poupou do sentimento do medo''. Mas, cá para este departamento, a
maior contribuição do carioca Schmidt, fora das lides literárias,
foi ter vestido a gloriosa camisa do Botafogo. Foi ele o grande
articulador da fusão entre o clube de regatas e o de futebol, em 8
de dezembro de 1942, tendo ocupado durante três anos a
vice-presidência. O galo branco não seria, na verdade, preto e
branco?
Quem contará as
pequenas histórias?
Letícia Mey e Euda Alvim
Globo
320 páginas
R$ 42 |
Link par Augusto
Frederico Schmidt
|