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Revista de Cultura # 12 - fortaleza, são paulo - maio de 2001
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Iluminação e obscuridade na poesia de Sérgio Campos

Luiz Carlos Monteiro

ag12campos1.JPG (19874 bytes)Para dar continuidade à publicação de seus livros, antes editados por gráficas e editoras diversas, o poeta carioca Sérgio Campos (1941-1994) criou, no início da década de 1990, o projeto editorial Mundo Manual Edições. O fato é que, de posse desse canal de edição, sem mais perda de tempo, Sérgio Campos desenvolveu um projeto poético simultâneo de sua lavra a que intitulou Trilogia de lumiar.

Na abertura de Nativa idade (1990), o primeiro volume da Trilogia de lumiar, ele advertia: "Este livro foi projetado e escrito como experiência intertextual, uma introdução ao poético, através de uma lógica original associada ao mágico". E mais adiante, arrematava: "Não sendo um livro dito infantil, pressupõe uma certa cumplicidade entre quem escreve e quem lê, é um livro de poeta para (jovens) poetas".

Contendo vinte poemas, Nativa idade decompõe-se igualmente em dois blocos, "Lição de bicho" e "Corpos saborosos", nos quais constata-se uma espécie de gradação metafórica, que vai evoluindo desde os jogos lúdicos e o poder encantatório do primeiro, até a linguagem complexa e sofisticada dos frutos que perfazem o segundo.

Apesar do feitio descontraído e leve, em "Lição de bicho" o objeto visado é atingido de modo certeiro, com elegância e precisão. A clareza e a inteligibilidade dos poemas são perturbadas apenas quando introduz-se, em certos instantes, súbita e inesperadamente, alguma tirada dialética de mais rara agudeza. Nos versos do poema "Pássaro", por exemplo, a simples presença do vocábulo "fácil" muda totalmente a seqüência de compreensão do poema, em oposição ao senso comum de "ser leve", corroborando aquela "introdução ao poético" requerida por Sérgio Campos: "Para voar/ não é preciso/ ser leve// mas/ fácil".

ag12campos2.JPG (65975 bytes)Essa elaboração dialética aparece também nos "Corpos saborosos". Ela enseja demonstrar a relação intrínseca existente entre reinos à aparência destituídos de linguagem própria e rumores na sua relativa imobilidade e silêncio, e o malfadado reino do humano, onde a todo momento afirmação e certeza podem transformar-se em dúvida cruel ou negação incisiva, realizações humanas em especulação e malogro.

Assim, cada poema de Nativa idade constrói-se como uma descoberta altamente tensionada de lances cotidianos porém inusitados, entrevistos de modo exclusivo e algo privilegiado pelo poeta. No seu cerne e por fora, diluídos à apreensão direta de um olhar diferenciado, tais corpos e frutos encontram-se como que prontos para o toque e a degustação, além de receber, em transposição definitiva, voz e forma organizadas nos ritos da comoção e da personificação. 

O poema "Amora", de "Corpos saborosos", é representativo da personificação que, ao inaugurar-se em fala, desliga-se do eu lírico-subjetivo para solidificar-se na ambientação coletiva plural: "Tatuagens de infância/ fiz deste sangue:// minhas mãos nas tuas/ a aurora dos bois/ o olhar do afogado// De tudo o que sentimos/ somos cicatrizes// memórias/ viagens".

O lobo e o pastor (1990), segundo livro da Trilogia de lumiar, caracteriza-se pela constância com que a forma do soneto aparece, mas em andamento de subversão e transgressão das estruturas convencionalmente conhecidas e praticadas. Nos sonetos de Sérgio Campos são eliminados a distribuição normal de estrofes (4-4-3-3) e o dimensionamento antecipado de versos com metros e rimas até certo ponto imutáveis e previsíveis. Verifica-se uma disposição peculiar em dessacralizar e recriar essa forma secular e polêmica, como sugerido nos versos finais de "O amor partiu em busca de espelhos", não sem uma ponta de ironia sutil: "Um dia quis dar forma a seus mistérios/ elaborou poemas musicais/ e dividiu-se em quatro cantos sérios". De um modo mais persuasivo, há em "O espaço e o método" uma confrontação que aproxima-se a uma profissão de fé e empenho do poeta: "Os metros são difíceis mas perfeitos/ e não me sinto escravo do que falo/ porque ninguém é escravo da verdade/ Por isso estamos ambos satisfeitos:/ quando a palavra quer silêncio calo/ e quando as digo é porque tem vontade".

São celebradas ainda a sua visão pictórica ("Aula de pintura", "Soneto para Leonardo" e "Raspado das telas") e a sua concepção musical ("O tigre e o cristal" e "O pássaro profeta"), como extensões da poesia a outras artes, ao mesmo tempo que afloram-se poemas de nítida e sofrida consecução noturna. "Noturno em lumiar" tanto firma um pacto com a solidão como define os tons de uma íntima experiência poética: "Tentei reconhecer mitos antigos/ mas vi apenas ira em fogos sacros/ Por isso dissolvi-me entre postigos/ para fazer da sombra confidente". Contudo, é em "Face da treva" - que, além de quinze versos, tem como estrambote apenas uma palavra, o verbo "doem" e empresta os dois últimos versos "as noites não caem/ doem" ao início do próximo poema, "Iniciação", de configuração espacial -, que Sérgio Campos atinge uma contundência ímpar, com uma fala demasiadamente angustiada e irada: "As depressões noturnas são panteras/ no frêmito das garras ansiosas/ e como a insônia é órfã destas feras/ tornam-se mais as noites perigosas".

ag12campos3.JPG (55382 bytes)A Trilogia de lumiar tem seu ciclo fechado com As iras do dia (1990),livro onde são utilizadas motivações épicas, além de recursos metalinguísticos diversos. O primeiro bloco, "A roca dos amantes", apesar dos nove poemas que o compõem, funciona como um poema épico único, com visíveis incursões pelo lírico. Em "Tecido de abismos", Odisseu e Penélope dialogam em vozes separadas ou em conjunto, numa rápida referência ao dramático: "Somos as palavras de um livro/ Somos um livro no princípio// Vésperas somos, esperamos dias/ e nos dias chamamos esperanças// Temos a morte atrás de nós/ e a infância à nossa frente". A fidelidade, a solidão e a espera altiva de Penélope, com a ausência prolongada de Odisseu presentificam-se nestes versos de "Espera": "Serei o vulto que vereis contra o ancoradouro// Penélope me chamo/ sou o paciente amor". 

Em "Pontos de ruptura nº 2" pode-se conferir o testemunho pungente da condição do poeta, o articulador das palavras mais raras ou estimulantes, na compreensão urgente da vida com o desfecho inesquivável da morte, ou, de outra forma, no estabelecimento de uma aliança com a morte cotidiana em favor do prolongamento da vida: "Tudo o que escrevemos é contingente// (olhos/ provisórios que/ se apagam)// Antes que o futuro/ seja mais que um nome/ tornamo-nos arquivo// (numa sala/ de gesso/ sem escoras)// Selamos aliança com um morto/ que por ofício nos devora".

Os onze poemas do bloco "As iras do dia" oscilam entre a tendência epicizante de "Górgona", "Casás" e "Perse" e as homenagens a poetas e prosadores contemporâneos, inclusive com a utilização expressa de versos e temas destes - Carlos Drummond de Andrade, Lúcio Cardoso, Joaquim Cardozo, Roland Barthes, Samuel Beckett, entre outros. Homenagem e referência que não se fazem sem ruptura ou questionamento, como em "Dialética da pedra": "Não/ a rosa não é do povo/ nada se planta em sete côvados/ de asfalto e medo/ A sagração da flor é o advento da pedra". Com relação a Joaquim Cardozo, há o aproveitamento temático em "Escultura de uma árvore", do poema cardoziano "A escultura folheada", cujo assunto é a metamorfose processada da matéria prima árvore em livro.

Essa fase da poesia de Sérgio Campos - tomando como base o marco definidor do breve percurso editorial encetado, que incluiu também obras de outros autores - culmina, em 1994, com Mar anterior: poesia selecionada e revista. É desse período também A cúpula e o rumor (1992), que destaca-se como um livro maduro, incisivo e de extrema depuração, notadamente pelo ceticismo e prenúncio das temáticas e conteúdos revelados. O percurso formal que o qualifica segue passos anteriores, com o poema espacial tenso, contudo aberto em sua visualidade a perspectivas de mais de uma leitura. A recriação do soneto, nos moldes já assinalados, comparece também como uma obsessão formal do poeta, fragmentado desde sempre entre uma linhagem que abarca certas nuances épicas e clássicas e o esforço de construir poemas alinhados à mais nítida contemporaneidade.

O universo semântico-vocabular de Sérgio Campos, como a sua prática formal, absorve todo um complexo lingüistico da tradição da grande poesia ocidental, em associação com a sua própria experiência vital de poeta, iniciada na década de 1960, entretanto somente sistematizada e dada a conhecer a partir da dúzia de livros que publicou entre 1984 e 1994.

Na poesia de Sérgio Campos detectam-se ainda os efeitos operacionais de uma grande coerência poética interna aliada a uma notável economia verbal que passam a estender-se a toda a obra. A constante reflexão sobre o que trazer a público encontra-se especialmente presente no cuidado minucioso em selecionar os poemas, nomeá-los e arrumá-los em blocos autônomos e precisos. E isto para que a eficácia retórica e expressiva de poemas e livros, de algum modo previsível pelo poeta enquanto vivo, lograsse atingir em cheio os possíveis leitores dessa fatia da melhor, mais conseqüente e radical poesia contemporânea.

Luiz Carlos Monteiro. Poeta e crítico literário, vive atualmente em Recife (PE). Autor de Na solidão do néon (1983), Vigílias (1990) e Poemas (1999). Publica, regularmente, artigos e ensaios de crítica literária em jornais e suplementos literários pernambucanos e de outros estados. Página ilustrada com obras do artista Hélio Rola (Brasil). Contato com o autor: lcarlos@ctg.ufpe.br.
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