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Revista de Cultura # 12 - fortaleza, são paulo - maio de 2001
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A sarcástica gargalhada do poeta alemão Durs Grünbein

Viviane de Santana Paulo

ag12grunbein1.JPG (17144 bytes)Quanto mais intensa a visão do cadáver de um cão arruinado nos trilhos, mais seus pelos desaparecem, assim como o cadáver transforma-se em pó, frágil e disperso, como esta vida que é inteiramente passageira. Mas o que exatamente torna a vida passageira? A fragilidade do corpo? Ou a própria essência da vida? Ou o cotidiano injuntivo e automatizado da vida moderna? A lírica do alemão Durs Grünbein invoca a falta de sentido no cotidiano urbano, denuncia o aleatório e dirimível dentro da chamada civilização - o indivíduo sucumbido ao conforto das reações inconscientes, entregue ao efeito anestésico do conformismo. Este é o início de sua recente coletânea Depois das Sátiras (Nach den Satiren, 1999), cinco poemas devotados à morte casual, seja a de um cão ou a de um sapo esmagado no asfalto pelas rodas de um automóvel, a temática é a dolorosa busca de uma resposta para aquilo que permanece um mistério: o que estamos fazendo aqui? Por que somos como somos e para onde vamos? 

Durs Grünbein, poeta inédito no Brasil, nasceu em 1962 na cidade de Dresden, na antiga Alemanha Oriental. Estudou dramaturgia e atualmente vive em Berlim. É hoje considerado um dos grandes poetas de língua alemã. Seus poemas incorporam a monotonia do indivíduo, apático, dentro da civilização moderna, daquilo que o distancia de si próprio e o conduz à velocidade das transformações que não deixam nenhum rastro. Depois das Sátiras elucida, de forma sarcástica e cínica, a trivialidade do urbanismo, a facínora e a imundície das grandes cidades. A coletânea é o território de um eu-lírico nômade, que nos conduz de Roma a Hollywood, da Normandia à Tróia... Esta é uma de suas características mais conhecidas, a capacidade de conduzir o leitor a lugares completamente diferentes um do outro, do passado dos protagonistas clássicos da literatura romana e mitológica à realidade presente. No entanto, a antigüidade de Grünbein diverge da Renascença, não tem o sentido exato de representar um quadro daquela época e sim fulgura como um cenário, onde os personagens continuam fiéis aos seus nomes e suas histórias, mas a realidade é poetizada sob um linguajar moderno. Desprovido da contemplação onírica, o poeta faz uso de expressões coloquiais utilizadas nas ruas, pelos marginais, para interpretar os costumes dos tempos modernos sobrepostos à moral decadente dos tempos remotos. Elemento constante nas obras do autor é a bem sucedida imbricação dos costumes da civilização atual aos da antigüidade. Mas qual a diferença entre a decadência de hoje e a de antigamente? A decadência mudou de nome e vestuário, no entanto, não é a vida nas grandes metrópoles, algumas vezes, análoga à vida na Idade Média? 

Seu horizonte de pensamento ainda vai mais longe, explorando as limitações do corpo, dissipando-o, transformando-o em matéria orgânica putrificável, onde no término da história desta época, o homem será apenas o achado de uma arqueologia futura, apenas restos de ossos enterrados na terra: "Também este queixo, que você às vezes vê no espelho,/ Será encontrado algum dia, a arcada dentária junto,/ Entre outros ossos. Hoje ainda sem fazer a barba./ Será já amanhã algo abstrato. ("Auch dieses Kinn, das du manchmal im Spiegel siehst,/ Wird man irgendwann finden, den Kiefer dazu./ Unter anderen Knochen. Heute noch unrasiert./ Wird es schon morgen abstrakt sein.). Além disso, centro de sua reflexão é também o interesse pela destruição e a atrocidade: A morte do tirano/ é nosso mérito. Antes da multidão distribuí-lo/ em pedaços por todos os becos, estávamos há muito tempo/ aliviados em pé ante o cadáver./ E eu, Pitacos, foi quem mais mijou.(Der Tod des Tyrannen/ Ist unser Verdienst. Bevor die Menge ihn stückweis/Verteilte in allen Gassen, standen wir lange/ Erleichtet über dem Leichnam./ Und ich, Pittakus, pißte am längsten.).

O livro Lição sobre a Base do Crânio (Schädelbasislektion, 1991) comprova, acentuadamente, o quanto o autor se interessa pelo funcionamento do corpo humano. Foi escrito em parceria com o famoso artista plástico Via Lewandowsky (Dresden, 1963) e constata uma relação especial e temerosa entre arte e ciência, enfatizando o fenômeno da memória. O estudo da função no cérebro responsável pela memória e pensamento é realizado através da expressão popular e metafórica, onde, principalmente, a perda da memória é tematizada.

Contudo, apesar das bem logradas figuras de linguagem e pensamento, abordando o lado asqueroso da vida em Depois das Sátiras, seu oitavo livro, Grünbein peca nas construções muito longas, carregadas de um intelectualismo pesado, vergando para a plasticidade do artificial e o prolixo. São poemas em prosa, mas pouco sobra da prosa e é a forma narrativa que domina.

São os poemas mais curtos, criadas talvez num surto espontâneo durante um passeio ou dentro de um trem ou avião ou na mesa de algum bar, que tornam a coletânea mais acessível ao leitor mediano. Segundo uma entrevista, Grünbein está sempre com caneta e papel às mãos e procura fazer diversas anotações, não dispensando nem mesmo fragmentos de conversas alheias. Alguns poemas são, simplesmente, trechos de diálogos.

Em Depois das Sátiras, quando tudo já foi dito e ruminado, a gargalhada fica entalada na garganta e o ricto na face transforma-se em uma expressão de escárnio diante da insignificante condição humana e o inevitável desfalecimento do corpo, a insuportável dor de ser apenas esta nódoa completamente extingüível.

Província I

(Normandia) 

Arruinado nos trilhos
O cadáver de um cão atravessado nos dentes das 
Dormentes numeradas de giz branco, estarrecido.
Quanto mais você olha, mais
Seus pelos são sugados pelo pó, pelo cascalho
Sob pequenos montes de grama fresca.
A vida também é então uma nódoa
Completamente dirimível. 
 

In der Provinz I

(Normandie)

Eingefallen am Bahndamm
Liegt ein Hundekadaver quer im Gebiß
Kreideweiß numerierter Schwellen, erstarrt.
Je länger du hinsiehst, je mehr
Zieht sein Fell in den Staub ein, den Schotter
Zwischen den Inseln aus frischem Gras.
Dann ist auch dieses Leben, ein Fleck,
Gründlich getilgt.

ag12grunbein2.JPG (43396 bytes)O livro não foge da síntese poética de sua primeira coletânea, Zona Cinzenta de Manhã. Poemas. (Grauenzone Morgens, Gedichte, 1988). Embora, neste pequeno livro, a elucidação da paralisia do indivíduo na rotina maquinal seja mais aguda. Além da iconografia das pessoas nas ruas, a caminho do trabalho, nas primeiras horas da manhã, Zona Cinzenta de Manhã é a figura metafórica da linha cinza que surge no horizonte - mescla do negro da noite que ainda não desapareceu por completo com a claridade menos nítida da manhã, e na face dos transeuntes a desconsolada expressão de apatia. O niilismo de Grünbein, no entanto, difere sensivelmente do existencialismo de Sartre, onde a virulenta dor provém da consciência de uma realidade funesta, sinistra, enquanto que em Grünbein a tragédia humana é amenizada pelo narcótico que é a alienação urbana. 

Instinto Equivocado. Uma Hora da Madrugada

Assim o dia seguinte, cintilando colorido,
Dissipou o cinza do passado, teu ontem.
Em breve não serão mais encontrados, cão, 
Os ossos, exumados na zona cinzenta,
Que foi teu território, uma juventude inteira.
Não se pode ter mais nada sem esta imundície
Que adere nas coisas, desde que elas se tornaram inúteis
Como se tivessem caído ralo abaixo. Um outro tempo
Tritura-las-á entre culpa e inocência,
Ambas as faces. História mundial
É aquilo que tu fostes ontem e a palavra íntima -
Nenhum amanhã a retém. Somente teu ouvido. 
 
 

Falscher Instinkt. Ein Uhr nachts

So hat der nächste Tag, vielfarbig schillernd,
Das Grau Vergangenheit verscheucht, dein Gestern.
Bald sind sie unauffindbar, Hund,
Die Knochen, ausgegraben in der grauen Zone,
Die dein Revier war, eine Jugend lang.
Nichts ist mehr ohne diesen Dreck zu haben,
Der an den Dingen klebt, seitdem sie nutzlos sind
Wie durch den Rost gefallen. Eine andre Zeit
Wird sie zermahlen zwischen Schuld und Unschuld,
Den beiden Backen. Weltgeschichte
Ist was du gestern warst, und das intime Wort -
Kein Morgen, der es auffängt. Nur dein Ohr.

Com trinta e três anos, em 1995, foi o mais jovem ganhador do prêmio de maior importância para o gênero lírico, o Prêmio Büchner da Academia Alemã de Língua e Literatura. Durs Grünbein tem como fonte de inspiração, além do Goethe, o próprio Büchner (1813-1837), famoso pela sua peça teatral, A Morte de Danton e a tragédia em prosa Woyzeck. No entanto, confessou ler muito a literatura inglesa, William Butter Yats, T. S. Eliot… e os russos. Vale a pena ressaltar este aspecto na vida do poeta, Grünbein viveu na antiga Alemanha Oriental e foi educado sob os princípios socialistas. Durante esta época a Rússia exercia enorme influência na extinta República Democrática Alemã, involuntariamente, sua fonte de inspiração encontra-se também nos grandes nomes da literatura russa, Puschkin, Majakowskij, Achmatowa, Mandelstam, Pasternak... Além disso, Grünbein testemunhou a queda do Muro, em 1989, isto é, viveu de perto a Reunificação da Alemanha, fato que é refletido em sua concepção lírica, onde o consumo exagerado e inútil lhe é também uma fonte de inspiração. E para completar, o livro Lição sobre a Base do Crânio é considerado um balanço da queda da República Democrática Alemã. 

ag12grunbein3.JPG (44136 bytes)Contudo, não fazem parte do seu temário o enfoque às poesias de teor político. Grünbein é fascinado pela arte visual e no seu sistema imagístico a iconografia tem um grande valor. A originalidade das metáforas transmite a imagem que nos envolve em seu mundo fictício e percebemos que não é o universo do poeta que está sendo revelado, mas o nosso próprio, isto é, de qualquer pessoa, em qualquer país, perdida nos tempos modernos. 

O que nos comove na lírica de Grünbein é a sua visão perspicaz revelando o dia-a-dia e o que nos choca é a forma como seus versos desfiguram a humanidade sem nenhuma compaixão do ser humano, a poesia deixa de ser o bálsamo que cura a ferida e passa a ser o odor de um mal hálito ou simplesmente o sarcasmo de uma gargalhada demoníaca - os antigos demônios que regressaram para nos escarnecer. 

Suspenso da Terra

Cansado do menor desamparo, cansado do maior -
Ao olhar os pés nus na beirada da cama, da poeira,
Você rói as unhas das mãos (cresceram de novo). Na boca
Um odor que lhe faz se sentir só ao dar uma gargalhada.
De manhã, no quarto frio, ninguém dá gargalhadas. No cérebro
Arde uma ânsia, quase incontida, de sair lá fora.
Que o corpo não enfraqueça ao menor pensamento
Nesta mucosidade que ele era, no resto de cinza
Que ele se acumula em superfície nenhuma.
Tudo é cilada - nos olhos, nos ouvidos. Alarmado
Você desperta, suspenso da terra, cruel em toda a inocência,
Um jovem vampiro que sonhou com o pescoço de sua namorada
Entre os dentes a carne de ontem.
 
 

Erdenleicht

Müde der kleinen Ohnmacht, müde der großen -
Beim Anblick der nackten Füßen am Bettrand, des Staubes
Leckst du die Fingernägel (schon wieder gewachsen). Im Mund
Steht ein Geruch, der einsam macht, wenn man lauthals lacht.
Morgens im kalten Zimmer lacht niemand. Im Hirn entfacht
Wird ein Verlangen nach Draußen, das sich kaum stillen läßt.
Daß der Körper nicht schwach wird beim bloßen
Gedanken an diesen Schleim, der er war, an den Aschenrest,
In dem er sich sammelt auf keinem Grund.
Alles ist Hinterhalt - in den Augen, den Ohren, Gewarnt
Wachst du auf, erdenleicht, grausam in aller Unschuld,
Ein junger Vampir, der vom Hals seines Mädchens geträumt hat,
Zwischen den Zähnen das Fleisch von Gestern..

A ensaísta e tradutora Viviane de Santana Paulo (São Paulo, 1966) reside na Alemanha, ali trabalhando na Embaixada do Brasil. Poeta inédita em livro, em 1998 fundou a União dos Escritores Brasileiros residentes na Alemanha (UEBRA). Página ilustrada por obras do artista Hélio Rola (Brasil). Contatos com a autora: vsantana@brasemberlim.de.
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