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Viviane de Santana Paulo
Durs Grünbein, poeta inédito no Brasil, nasceu em 1962 na cidade de Dresden, na antiga Alemanha Oriental. Estudou dramaturgia e atualmente vive em Berlim. É hoje considerado um dos grandes poetas de língua alemã. Seus poemas incorporam a monotonia do indivíduo, apático, dentro da civilização moderna, daquilo que o distancia de si próprio e o conduz à velocidade das transformações que não deixam nenhum rastro. Depois das Sátiras elucida, de forma sarcástica e cínica, a trivialidade do urbanismo, a facínora e a imundície das grandes cidades. A coletânea é o território de um eu-lírico nômade, que nos conduz de Roma a Hollywood, da Normandia à Tróia... Esta é uma de suas características mais conhecidas, a capacidade de conduzir o leitor a lugares completamente diferentes um do outro, do passado dos protagonistas clássicos da literatura romana e mitológica à realidade presente. No entanto, a antigüidade de Grünbein diverge da Renascença, não tem o sentido exato de representar um quadro daquela época e sim fulgura como um cenário, onde os personagens continuam fiéis aos seus nomes e suas histórias, mas a realidade é poetizada sob um linguajar moderno. Desprovido da contemplação onírica, o poeta faz uso de expressões coloquiais utilizadas nas ruas, pelos marginais, para interpretar os costumes dos tempos modernos sobrepostos à moral decadente dos tempos remotos. Elemento constante nas obras do autor é a bem sucedida imbricação dos costumes da civilização atual aos da antigüidade. Mas qual a diferença entre a decadência de hoje e a de antigamente? A decadência mudou de nome e vestuário, no entanto, não é a vida nas grandes metrópoles, algumas vezes, análoga à vida na Idade Média? Seu horizonte de pensamento ainda vai mais longe, explorando as limitações do corpo, dissipando-o, transformando-o em matéria orgânica putrificável, onde no término da história desta época, o homem será apenas o achado de uma arqueologia futura, apenas restos de ossos enterrados na terra: "Também este queixo, que você às vezes vê no espelho,/ Será encontrado algum dia, a arcada dentária junto,/ Entre outros ossos. Hoje ainda sem fazer a barba./ Será já amanhã algo abstrato. ("Auch dieses Kinn, das du manchmal im Spiegel siehst,/ Wird man irgendwann finden, den Kiefer dazu./ Unter anderen Knochen. Heute noch unrasiert./ Wird es schon morgen abstrakt sein.). Além disso, centro de sua reflexão é também o interesse pela destruição e a atrocidade: A morte do tirano/ é nosso mérito. Antes da multidão distribuí-lo/ em pedaços por todos os becos, estávamos há muito tempo/ aliviados em pé ante o cadáver./ E eu, Pitacos, foi quem mais mijou.(Der Tod des Tyrannen/ Ist unser Verdienst. Bevor die Menge ihn stückweis/Verteilte in allen Gassen, standen wir lange/ Erleichtet über dem Leichnam./ Und ich, Pittakus, pißte am längsten.). O livro Lição sobre a Base do Crânio (Schädelbasislektion, 1991) comprova, acentuadamente, o quanto o autor se interessa pelo funcionamento do corpo humano. Foi escrito em parceria com o famoso artista plástico Via Lewandowsky (Dresden, 1963) e constata uma relação especial e temerosa entre arte e ciência, enfatizando o fenômeno da memória. O estudo da função no cérebro responsável pela memória e pensamento é realizado através da expressão popular e metafórica, onde, principalmente, a perda da memória é tematizada. Contudo, apesar das bem logradas figuras de linguagem e pensamento, abordando o lado asqueroso da vida em Depois das Sátiras, seu oitavo livro, Grünbein peca nas construções muito longas, carregadas de um intelectualismo pesado, vergando para a plasticidade do artificial e o prolixo. São poemas em prosa, mas pouco sobra da prosa e é a forma narrativa que domina. São os poemas mais curtos, criadas talvez num surto espontâneo durante um passeio ou dentro de um trem ou avião ou na mesa de algum bar, que tornam a coletânea mais acessível ao leitor mediano. Segundo uma entrevista, Grünbein está sempre com caneta e papel às mãos e procura fazer diversas anotações, não dispensando nem mesmo fragmentos de conversas alheias. Alguns poemas são, simplesmente, trechos de diálogos. Em Depois das Sátiras, quando tudo já foi dito e ruminado, a gargalhada fica entalada na garganta e o ricto na face transforma-se em uma expressão de escárnio diante da insignificante condição humana e o inevitável desfalecimento do corpo, a insuportável dor de ser apenas esta nódoa completamente extingüível. Província I (Normandia) Arruinado nos trilhos
In der Provinz I (Normandie) Eingefallen am Bahndamm
Instinto Equivocado. Uma Hora da Madrugada Assim o dia seguinte, cintilando
colorido,
Falscher Instinkt. Ein Uhr nachts So hat der nächste Tag, vielfarbig
schillernd,
Com trinta e três anos, em 1995, foi o mais jovem ganhador do prêmio de maior importância para o gênero lírico, o Prêmio Büchner da Academia Alemã de Língua e Literatura. Durs Grünbein tem como fonte de inspiração, além do Goethe, o próprio Büchner (1813-1837), famoso pela sua peça teatral, A Morte de Danton e a tragédia em prosa Woyzeck. No entanto, confessou ler muito a literatura inglesa, William Butter Yats, T. S. Eliot… e os russos. Vale a pena ressaltar este aspecto na vida do poeta, Grünbein viveu na antiga Alemanha Oriental e foi educado sob os princípios socialistas. Durante esta época a Rússia exercia enorme influência na extinta República Democrática Alemã, involuntariamente, sua fonte de inspiração encontra-se também nos grandes nomes da literatura russa, Puschkin, Majakowskij, Achmatowa, Mandelstam, Pasternak... Além disso, Grünbein testemunhou a queda do Muro, em 1989, isto é, viveu de perto a Reunificação da Alemanha, fato que é refletido em sua concepção lírica, onde o consumo exagerado e inútil lhe é também uma fonte de inspiração. E para completar, o livro Lição sobre a Base do Crânio é considerado um balanço da queda da República Democrática Alemã.
O que nos comove na lírica de Grünbein é a sua visão perspicaz revelando o dia-a-dia e o que nos choca é a forma como seus versos desfiguram a humanidade sem nenhuma compaixão do ser humano, a poesia deixa de ser o bálsamo que cura a ferida e passa a ser o odor de um mal hálito ou simplesmente o sarcasmo de uma gargalhada demoníaca - os antigos demônios que regressaram para nos escarnecer. Suspenso da Terra Cansado do menor desamparo, cansado
do maior -
Erdenleicht Müde der kleinen Ohnmacht,
müde der großen -
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