![]() |
|
|
![]()
|
María Antonieta Flores
A profunda transformação interior e psíquica o fez contemplar que o que ressurge uma e outra vez é um ato constituinte do cosmos. Toda a vida acontece e se desenvolve, cumprindo um ciclo. Múltiplos e de diferentes tipos, no ser humano se manifestam incontáveis vezes. Reconhecê-lo é aceitar harmonia e pertinência em relação à natureza e ao universo. Este conhecimento pode ser apreendido e compreendido a partir de diversos pontos de vista e campos do saber. Quando o cíclico se compreende e explica a partir da perspectiva da transcendência, entra-se no terreno da revelação. Vivência do transcendente e do poético. A morte adquire outra luz e outra razão, e então a vida se emprenha de outro sentido. Uma aproximação de seus poemários publicados de 1995 até 2000 confirmam isto. Em 1995, a Diretoria de Publicações do Conselho Nacional da Cultura (CONAC), como homenagem aos oitenta anos de Juan Liscano, editou Resurgencias. Já na Antologia Poética deste poeta venezuelano, que publicou Monte Avila (1993), aparecem textos pertencentes a este livro. Dividido em três partes, seu discurso prescinde quase totalmente da imagem e da metáfora para abrir passagem a uma fala poética que privilegia o dizer direto, um dizer simbolizante que se forja a partir da vivência pessoal e da intenção didática. A poesia didática ou didascálica possui uma ampla tradição clássica e renascentista. Mas, se evitamos esse gesto artificial da classificação e do gênero, não é aventurado assinalar que toda a poesia é um acontecer que proporciona tanto aos poetas como ao leitor uma experiência múltipla e envolvente onde indiscutivelmente se obtém uma aprendizagem - sem ser esta sua função ou finalidade. Diante do poema, no seu início e no seu final - se é que o tem -, poeta e leitor sofrem uma transformação e isso, precisamente, é o que o ato de ensinar e aprender produz: diante do poema já não se pode ser o mesmo. E, então, desde esta possível leitura, Liscano comunica sua vivência e experiência com o transcendente e ao fazê-lo poetiza e entrega um ensinamento, um saber. Este gosto, estas rajadas de dentro,
Por se saber íntimo e degustado, Resurgencias vai do eu, de seu pequeno mundo, ao universal e expressa a consciência individual e universal que pode alcançar o homem: Me conheço, sou do quarto reino,
Infância, memória: o tempo individual transcorre e se mobiliza a um espaço maior. Por isto, no poemário, o ressurgimento ocorre em planos distintos. Não é única, mas sim uma e múltipla. Vida, chuva, samambaia, casa, memória. Tudo ressurge. Tudo está animado pela possibilidade de voltar a ser ou de nunca deixar de ser. O ressurgir por ação da memória faz presente o ausente, o retroage, o vivifica. A desaparecida casa ressurge, inteira,
Porém, não é só o ressurgir na memória. Há outro. No universo, nos elementos, na natureza. É o cumprimento do ciclo da vida, morte e ressurreição e, diante disso, escreve o poeta: Olho com inveja sua copa,
É sua voz, voz que se enfrenta no momento crucial, no umbral, e o faz com a nudez da palavra e na espera, atitude de expectativa que não desdenha a vivência cotidiana porque no entorno diário e rotineiro tem lugar a revelação, revelação que exige uma contemplação mas não uma imobilidade. Porque o poeta aprendeu que é porta-voz e emissário, pode então dizer: "aprende a esperar, sem interrogar", para logo asseverar: Em algum momento sairá de ti
o outro,
E na chuva, elemento propiciador de vida, elemento fecundador, primordial e transformador, Liscano concentra a plenitude do ressurgimento, porque "somos / todo necessidade de água".
Única e múltipla, se
basta,
É a chuva que cai sobre a terra, mas é também a interna que derramamos com constância assombrosa sobre terrenos muitas vezes apenas suspeitos e não totalmente revelados. Assim, a partir da chuva, se retrocede o tempo e se renasce. Quando se contempla a caída do aguaceiro ou garoa, é isto talvez o pressentido: Me ponho a chover. Rego o cotidiano,
É o poder transformador do constante e múltiplo renascer em diferentes planos. E essa possibilidade como saber deve responder a uma iniciação e a uma revelação entregue, doada. O poema "Eisotheo" cristaliza esse suceder. Poema de sete partes com sete versos cada uma, parece responder inclusive em sua forma a um caráter mágico, sagrado ou mítico. Sua primeira estrofe é um chamado à interiorização como via única de conhecimento: Traz até teu adentro secreto
A união, a consciência de pertinência a um todo, gera um despertar que se produz na descensão,na terra - mãe Geo - "sob abóbadas de húmus, em covas de raízes", e a partir da raiz se encontra a árvore, ou seja, a via ascensional. Voar é estar dentro e fora
Adentrar-se para encontrar a flor, símbolo inefável e universal, diante do qual não é possível deixar de convocar o que a respeito registram Chevalier e Gheerbrant em seu Dicionário de Símbolos (1993): San Juan de la Cruz vê na flor a imagem das virtudes da alma, e no ramalhete que as une a perfeição espiritual… O simbolismo tântrico-taoísta de A Flor de Ouro corresponde também à espera de um estado espiritual: a floração é o resultado de uma alquimia interior, união da essência (ching) e do alento (chi), da água e do fogo. A flor é idêntica ao elixir da vida; a floração é o retorno ao centro, à unidade, ao estado primordial. Alquimia interior, transformação: isto só é possível a partir do mundo cotidiano e na carne. Por esta razão, finaliza este poema com o deslocamento do corpóreo ao incorpóreo, movimento cíclico que encerra o ressurgir e que só a partir do olhar e da palavra acontece. Porque, só a palavra e o olhar se aproximam dos mistérios da vida e da morte. Olha a flor carnal, di-la e olha-a
uma vez mais.
Assim, os poemas de Juan Liscano vão doando seu saber e sua vivência, vão transcorrendo a partir da vivência individual para alcançar a transcendência, o âmbito do universal, transcorrendo para cumprir seu ciclo porque, como bem escreve em "Eisotheo": "Muitas são as chuvas férteis". E assim o demonstra através
da concreção de sua palavra poética. A este Resurgencia,
editado em 1995, seguiu En Aries (1996) e Recuerdo del Adán
Caído (1997), apesar de ter sido escrito na década de
40). Idade obscura, poemário de 1969, foi reeditado por La Liebre
Libre em 1999 e neste mesmo ano a Colección Vitrales de Alejandría
edita Vaivén, largo poema escrito neste mesmo ano de 1999.
En Aries (Pequeña Venecia, 1996) surge como um espaço escritural onde o poeta expressa a tensão existente entre a intimidade, o aspecto biográfico e o transcendente. É a interpretação e vivência do mítico no cotidiano. "Via mais além com a penetração / súbita de quem não sabe olhar o rejeitado". Então, sujeito e objeto, são isso e mais. Inseridos no cósmico, tornam-se símbolos, presenças do oculto, manifestações do segredo inascível. A voz do poeta roça o próximo e o impalpável, e segue perguntando-se, depois de seu largo transitar, sobre o porque da vida nesse hierático poema marcado pelo ato de recolher "a esferográfica caída ao chão" e que intitula-se "Linaje". Percebe guerras, lutas nos diferentes territórios e níveis da existência, de tal forma que o universo, em todas as suas expressões, é encontro de oposições. E, como o poeta leva em sua linhagem a marca do guerreiro e da luta, sua cosmovisão enche seu discurso de imagens de contendas. Mas não há vitórias nem derrotas, "quase todas as causas estão perdidas/nesta guerra do cotidiano", diz. É o ritmo do cosmos, a maneira do universo e da vida, o que se impõe e o leva a reconhecer-se e nele, a nós: Agora, em qualquer caso, combatentes,
O desgastado e maltratado zodíaco é, e isto já se repetiu como um dos poderes do poético, reoriginalizado. Além de seu simbolismo tradicional, revela os poderes, lutas, encontros que marcam o futuro do cosmos. O impulso inicial de Áries, signo da "potência animal do fogo que surge refulgente, explosivo, no primeiro momento da manifestação" (Chevalier e Greebrant), evoca o circular e cíclico do tempo cósmico. "Proteja o templo da renovação!", é o clamor do poeta ao ver Áries como divindade dos inícios. Sob este signo de fogo e ressurgimento, se combinam o relativo e o absoluto, o atemporal e o temporal. Áries se faz, assim, presença e imagem tutelar a partir de um fato íntimo marcado por uma sincronia de inversões entre signos astrais e ascendentes. O poema testemunha uma união que se dilata a outros territórios e domínios. O par carnal, identificado no tempo e espaço, se transforma em par cósmico, dança erótica de criação e destruição. Entre Áries, ascensão do sol, equinócio, e Câncer, seu descenso, solstício, se estabelece uma relação de oposições e lutas. O solar e o lunar enfrentados e conciliados; por isso, "carneiros e caranguejos se destroçam" e também logram a paz ("Pactos"). O carneiro e o caranguejo, em posições distintas, se encontram e se constituem em possibilidade, ali, no terreno das correspondências e da harmonia secreta do cosmos. Mas o tom do poemário será o do canto e exaltação a Áries: O equinócio de primavera
E, é exaltação amorosa e do feminino como força transformadora: "As mulheres sustentam o mundo / quando cumprem com os ofícios seculares". Essa mulher dançante, triunfadora, poderosa e sossegada como uma parca que tece, é destino inevitável porque é o outro que completa: "Nada se basta sem mutilar-se". Em Áries é sobretudo canto do amor erótico, canto dinâmico que do temporal chega ao atemporal, que da ternura contemplativa de "Durmiente", passa pelos dolentes "Breves", para alcançar uma surpreendente e misteriosa capacidade lírica em "Jacob le habla a Raquel" e no último poema "Carta de quiromancia". Encontrar o transcendente no sucesso mínimo, marcado pela sincronia dos astros e seus ascendentes e levá-lo ao terreno do atemporal, onde tal fato se revela com mais força, é "até mesmo no acaso", a evidente intenção estética e criadora do poeta Juan Liscano. Isto é confirmado pela estruturação do livro em três partes: Temporais I, Breves II. Atemporais III. A vivência poética do transcendente a partir dos aspectos opostos do tempo faz com que a palavra vá se liberando de sua relação com o cotidiano para alcançar outros estratos, outros níveis de consciência ao penetrar e abrir o território do sagrado.
O título alude ao ir e vir dos elementos do cosmos e à dinâmica vital marcada por muitas mortes e ressurreições interiores. "Ninguém é dono do Tempo e do Espaço / Tudo está por saber-se. A continuidade / só disfarça-se para acabar ou para começar". Além do mais, responde ao movimento evocativo que captura o poema. Convivência e atrito de diferentes tempos, somado ao tom reflexivo, estabelecem um ritmo não uniforme, fragmentado, talvez estranho mas oferente de riqueza para a leitura, pois "Os universos / e existencial de Liscano. Uma voz omnisciente anuncia: "Há anos, há feridas, há memória / começou a ordenar seu vaivém da alma, a proteger-se do virtual, feitio / dos poderes materiais". Mas, o tema do transcendente está cruzado por presenças significativas para o caminho ascensional. Miguel Machado, homem que marcou de alguma maneira as vivências infantis do poeta e o introduziu nos terrenos do abominável e do mistério, é um dos personagens fundamentais deste poema, também confissão e testemunho existencial. Dois pintores completam a trilogia dos personagens: Gauguin se juntou com Reverón, símbolo do solar. A identificação com estes dois pintores outsiders e arraigados nas orlas mutantes das praias, é uma faceta interessante e quase inédita para fazer uma leitura da poesia liscaniana. Errância e desejo de abandonar tudo, de romper com o estabelecido. Atitude agora manifesta em uma posição humanista radical que anatematiza a tecnologia e o progresso, pois se mantém ancorada em uma visão de preeminência do espírito sobre o material, resposta tradicional que atualmente adquire outro sentido: o do profeta que clama no vazio, pois já nem sequer se pode falar de deserto. Por esta razão, Vaivén oferece uma visão do cosmos destruído com os elementos ar, terra e água, enfermos, e apenas o fogo, sobrevivente e permanente, porque a voz que fala neste poema está marcada pelo solar e pelo afã titânico de Prometeu. A organização do poema se produz a partir do aparente caos que produz a coexistência de diferentes tempos e reflexões. Esta vertente da poesia de Juan Liscano, que se baseia no verso-sentença e no poema como veículo de uma sabedoria também alquímica ou revelada, condiciona a imagem ao pensamento, porém sem anulá-la. A urgência deste poema está mais em dizer do que em sugerir, a voz apela ao discurso direto, o qual se vê quebrado e penetrado pela recordação e pelas presentes ausências dos dois pintores que entre a riqueza de suas obras oferecem um olhar da mulher, do feminino que estabelece outro ponto de contato com a poesia de Liscano, um dos fundadores do discurso erótico na poesia venezuelana, e para quem a mulher é o outro inacessível por seu caráter oposto. Muito mais oferece este poema, mas por falta de espaço é preciso concluir: Vaivén é o testemunho de um homem que transitou por diversos territórios e pode dizer: "O arcaico volta a submergir / na alma, por sua vez, insondável". Estes poemários editados na segunda metade da década de 90 constituem a culminação de um olhar poético e existencial que vivenciou plenamente os conflitos e dilaceramentos inevitáveis da consciência de estar atravessado por dois mundos e de pertencer a ambos: o acontecer com seu tempo linear e seu materialismo demarcante e a atemporalidade da transcendência capaz de romper todos os limites e oferecer uma concepção da vida e do homem alheio a esse cotidiano que aproxima o homem dos limites da produtividade e o obriga à perda ou banalização dos sentimentos e ideais. São estes poemas culminantes de um lirismo vital e comprometido, que nunca omitiu sua condição humana, seus conflitos, debilidades e fragilidades para assim poder construir uma obra poética sólida e coerente. |
|
|
|
|
![]() |
![]() |
![]() |
|
|