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Revista de Cultura # 12 - fortaleza, são paulo - maio de 2001
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Imaginário da salvação na ilha dos amores camoniana

José Santiago Naud

ag12naud1.JPG (17630 bytes)No vasto espaço da cultura de língua portuguesa, as imagens que representam um dos elos entre divino e humano têm referência exemplar em versos que ostenta Os Lusíadas, paradigma do idioma. Nos dois últimos cantos, delicia-nos a ilha encantada onde se dá o encontro de navegantes e ninfas. Desfile nupcial. Visível e invisível celebrados como ciência ou erotismo, em simpósios de amor e saber fulgindo a redondez do mundo. O episódio figura-nos a dimensão escatológica. Contrários complementares, festejam o princípio da salvação. Ao fim da Idade Média, nos embates entre nominalismo e realismo, o ato português aliou sabedoria e conciliação. Depois, bem ou mal, ao longo de toda a sua história singular, modulada entre o descobrimento e a expansão, buscou sempre a melhor correspondência entre imanência e transcendência.

Num pequeno grande livro, António Telmo contempla o tema em instigante ensaio, intitulado Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões (Guimarães & Cia. Editores, Lisboa, 1982). Tudo ali estaria oculto, amorosamente. Afirma que tal ensino, "sem prejuízo da tese político-religiosa de Sampaio Bruno, só é possível mostrá-lo escondendo-o". Recorda o exercício esotérico dos "Cavaleiros do Amor" e interpreta uma das ilustrações da obra, pintura de manuscrito persa feito em fins do séc. XIV. Reproduzida no livro Sufi, de Laleh Baktiar, corresponde-se de modo impressionante com a descrição camoniana: três formosos outeiros; o "gramíneo esmalte"; o manar da fonte e as árvores; sobretudo, o "agudo cipariso" subindo ao "etéreo Paraíso"; e o "níveo cisne" que canta, respondendo-lhe "no ramo filomela". Breve e denso, o ensaio leva-nos a compreender na inteligência penetrante do autor o sutil, e desperta outras relações para entendimento de coisas maiores, entre elas a correspondência de Adamastor com a cifra hebraica do "Adão Astral". Decide-se então pela existência de uma "gnose portuguesa".

Entendo que vale aproximá-la da "Gnose de Princeton". Ambas têm tudo a ver com o mundo moderno.

A primeira - deu início ao desdobramento do processo civilizatório ocidental no final do Medievo; o mercantilismo viria a promover a burguesia, firmando os fundamentos da atual globalização. A segunda - assinala o momento crucial da razão deificada no Setecentos; a crise dos nossos dias patenteia sua fadiga, na insuficiência dessa requintada tecnologia, capaz de multiplicar riquezas a níveis incríveis e, socialmente, pródiga na miséria. É o impasse da virtualidade corporal ante o infinito da alma que, em termos cósmicos, sequer vislumbra respostas adequadas ao desafio urgente do espaço moral ou estelar. No entanto, voltadas à conquista da Terra, põem questão idêntica em torno das íntimas relações entre matéria e energia. 

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Assim, Camões não reduziu sua "Ilha namorada" a mera retórica, nem seus patrícios passados ou futuros deixaram de estar atentos às figurações da ilha que somos todos no espaço imaginário, representativo do espaço real. Antes nos incita a consciência ampliada na qual, figuração das relações, o maravilhoso espacial passa a ser cada pessoa. Jorge de Lima, no contraponto épico que é Invenção de Orfeu, canta:

"a ilha ninguém achou
porque todos a sabíamos...
mesmo nesse fim de mar..
mesmo sem mar e sem fim,
mesmo sem terra e sem mim".
Ou seja, superação da individualidade.

Pois! Outro poeta, de língua inglesa e idêntica herança céltica, já afirmara no surto metafísico do séc. XVII que "nenhum homem é uma ilha, mas pedaço do Continente", porquanto "a morte de qualquer homem nos diminui". Tal amplitude insere os avessos da ilha que José Saramago viu desgarrar-se dos Pirineus, como jangada à deriva em direção ao sudoeste. Feito que aos luso-ibéricos impõe candentes questões. Se, por um lado, a imagem pressupõe que o afloramento superficial não anula a massa continental, de que fazemos parte e é submersa realidade invisível, por outro nos conduz na solidão oceânica ao compromisso da solidariedade, como dever de um devir melhor.

Mas a Gnose Portuguesa não pára. 

Na pré-história estão as moles silenciosas perguntando. Lá atrás conexões com a Provença, força da lírica occitânica ou pensamento cátaro. Ao sul, o mistério árabe. Pela Galiza, chegamos até ao Prisciliano e, no enlace crístico-pagão, valha a visão agostiniana da "Cidade de Deus" reflexa na filosofia da história de Paulo Orósio ou na predestinação entrevista em Fernão Lopes. Ordenação mágica da realidade, demanda do Real, transes do Céu baixando à terra. Ao Camões precede aquele Painel atribuído a Nuno Gonçalves. Com tantos enigmas e insuperável valor estético, sua plástica é a correspondência nacional d’Os Lusíadas. Atira-nos para a pista dos altos arquétipos e grandes arcanos que desafiam o racional: Excalibur, Graal, Quinto Império. Todos, munus do poder, pedra angular, princípio de salvação. Pois um padre, Antônio Vieira, nos concederá no Seiscentos a chave de toda essa virtualidade de corpo e alma. Pari passu, seu trânsito e transes unirão indissoluvelmente Portugal e o Brasil:

"O céu estrela o azul e tem grandeza,
Este que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também."

ag12naud3.JPG (53358 bytes)O sebastianismo e o V Império de Vieira arregimentam-nos em torno do Evangelho joanino, que a personagem central dos Painéis ostenta ante o rei ajoelhado. Isso nos impõe a razão da missão terrestre: preparar a Parusia, no exercício fraterno. Não admira pois que no Brasil, à altura de 1650, o pregador usasse o pleonasmo na exaltação de Santo Antônio, a ponto de proclamá-lo obra consumada da Santíssima Trindade. Identificava não "o martelo dos hereges", mas o "Paráclito universal". Portanto, entende-se porque o magnífico orador, somado ao generoso homem de ação, tanto assustou o tribunal do Santo Ofício. Ao rés-do-chão coevo devera resultar insuportável o vôo alcandorado do exímio interlocutor do Profeta Daniel, irmão eficiente de índios e negros. Com certeza ele sabia, dois séculos antes de Joaquim Nabuco - o lúcido monarquista que serviu com brio e patriotismo uma novel república já feita aos pedaços: sem a mão do negro não se teria dado a construção do Brasil e, assim, o excluído só podia merecer como ninguém os direitos da sua legítima cidadania. 

Contudo, não esteve isolado o nosso apóstolo. Na passagem do século assoma-se outra ilha. Foi o lisboeta Pedro de Rates Henequim quem, no entusiasmo pelo Brasil, chega a ver nele o sítio edênico, inscrito em seus quatro rios. Bem antes, nossas crônicas históricas viam no indígena a fonte da alegria. Caminha exalta a beleza deles e Magalhães de Gândavo, atento ao ouro e à prata como todo colonizador, ainda que os chame de "cegas e bárbaras gentes", reconhece: "A vida que buscam é muito mais descansada do que a nossa... não possuem nenhuma fazenda, nem procuram adquiri-la como os outros homens... todos andam nus e descalços... e assim vivem livres de toda cobiça e desejo desordenado de riquezas". Nosso país ficou na moda. Monsieur de Montaigne, pai da ensaística e nada infenso ao bom português, insurge-se contra os qualificativos de "bárbaros" e "selvagens". Argumentou em sua lucidez esplendorosa: "cada um chama de barbárie aquilo que não é de seu costume". Aceite a verdade de que o mito é o nada que é tudo, igualmente o "bon sauvage" veio a influir no ânimo enciclopedista que, em dinâmica européia, acabaria por mover certo triângulo aspirante da liberdade, igualdade e humanidade, hipocritamente perseguidas e de exercício sempre tão remoto.

Entretanto, paire o Espírito Santo sobre nós!

Ainda que em forma de pomba, que venha. E sem dogmas, segundo adivinha heterodoxo o célebre Políptico de Afonso V. O grande desafio que a vida nos propõe, e justamente avulta neste início do terceiro milênio cristão, é mesmo o da fraternidade. Seus obstáculos caracterizam a espécie degradada. Mas foi precisamente o imaginário lusitano que prevaleceu, à simplicidade manifesta em Porto Seguro, na baía de Pedrálvares, naquela manhã de abril de 1500, quando a diversidade dançou unida ao som de uma gaita de foles. 

ag12naud4.JPG (50749 bytes)No Modernismo de 22, compassado entre a erudição e o folclore, as facécias intencionais de Mário de Andrade e seus pares são água lustral para entender o Macunaíma, engendro ou decantação - "herói sem nenhum caráter". Grave caricatura da vida nacional, é o retrato do Brasil. Tinha esse maroto a graça ingênua de emaranhar malícia e raça, manejando pro domo sua as magias de uma gema chamada "Muiraquitã". Sequer estava aí para o pecado capital, quando ante o problema repetia cheio de gozo "Ai, que preguiça". Virtual idoneidade da ilha, a Muiraquitã simula um Graal de índios, capaz de sortilégios.

Hoje essa rapsódia (segundo o autor), genuína obra-prima da nossa ficção, comprova atos e fatos. Multiplica-se, no bem e no mal. Atenho-me ao primeiro. No primeiro dia de janeiro, deste primeiro século do terceiro milênio, completou cento e três anos João Rufino. Ervateiro, mora a 180 km de Brasília, no interior de Goiás. Foi sempre muito procurado, não apenas por fazendeiros da região, mas também pelintras e ricaços urbanos. Ele sara as perebas mais brabas; limpa o campo das serpentes, apenas falando com elas; sabe de segredos invioláveis e diz como achar o perdido. Proclama não ser ele a força operadora, que mora em Santo Antônio ou no Espírito Santo. Na área rural onde vive persiste o culto do Divino. Embora muito alterado, preserva o essencial daquele instaurado em Portugal pelos reis D. Dinis e Santa Isabel. Curiosamente, é gente nova que busca resgatá-lo. Um grupo jovem volta-se em âmbito acadêmico para El-Rei Dom Sebastião. Chama-se "Tribu", aglutinando quem sabe à palavra tributo a semântica de tribo. Tal companhia teatral iniciou-se com duas moças estudantes. Bolsistas da UnB, a universidade fundada em Brasília com intuito renovador, elas realizaram pesquisas sobre a mitologia dos índios Kayapó-Xikrin. Para tanto, viajaram até o rio Araguaia para participar com a tribo das danças sagradas e pinturas rituais. Do convívio resultou um livro de grande beleza, publicado pela editora universitária e em vias de reedição. Koikowa, um buraco no céu relata-nos o transe das meninas, nesse trânsito entre o alto e o baixo que ilustra a escada de Jacob. De tal experiência, verdadeiramente iniciática, a Larissa Malty avançou pesquisa ainda em processo em torno de D. Sebastião, sincretizado nos "terreiros de mina" - culto afro-negro do litoral maranhense. A Dança do Encoberto foi seu primeiro resultado, levado à cena com profundo sentido social e religioso. Nela transparece gravemente a lição aprendida dos autos medievais, viva na expressão da cultura popular nordestina e espraiada nos conceitos da dramaturgia moderna com Bertolt Brecht ou Antonin Artaud. Patrocinado pela Espanha e várias entidades brasileiras, o espetáculo foi exibido em Brasília, no Teatro Nacional, depois de outras duas apresentações, feitas no Teatro Municipal de São Luís, Maranhão, ou na cidade de Bezerril de la Sierra, próxima a Madri.

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Sob o signo rosacruz, tudo isso há de encontrar-se oculto e até certo ponto bem explícito na Mensagem do Fernando Pessoa. Ele, que escreveu seu livro "à beira mágoa", sabia porque centrou na Dinastia de Avis esse poema extraordinário de epopéia e lirismo. E, lá onde estiver, de certo jamais contestaria o entusiasmo com que o leio, sempre a sorvê-lo como Quinto Evangelho. Pois é assim que nele deverá inspirar-se a CPLP, bom motivo de entender-se as dimensões de continente e ilha na promoção universal da comunidade de língua portuguesa. Principalmente agora, que aguarda a integração asiática da oitava parcela e tem na orientação do seu destino ou execução do seu programa a receptividade generosa do ato feminino, com a autoridade e trajetória de Dulce Maria Pereira.

Assim pensando, não quero concluir senão com Agostinho da Silva. A ação fecunda desse luso-brasileiro de gênio povoou o século inteiro, como Vieira no Seiscentos ou, na arquitetura atual, Lúcio Costa - "inventor de Brasília". Ousemos a sua lição, pois neste exercício ele foi inteiro a pedagogia criadora, a inseminação espiritual. 

Só em metanóia e amor, alimentados na raiz da caridade e do carisma, poderemos alcançar a liberdade palmilhando veredas de salvação. Quando jovem, no louvor consumado à luz de São Francisco, já afirmava que "só as fontes vivas da alma são dignas da grande sede humana". Nos aforismos da velhice, que ante a História refletem a objetiva contundência de Toynbee e, em Filosofia, a plenitude fragmentada pré-socrática, adverte-nos à Platão: "Filosofar é aprender a morrer". Declara-se cristão e outras coisas, "por exemplo, budista, o que é, para tantos, ser ateísta; ou, por exemplo, pagão". Em verdade, em verdade, "tudo isto dá português, na sua plena forma brasileira". Ele, que de mais nada se orgulhava, senão de ser humilde, bem traduziu de maneira paradoxal o sentido críptico da Ilha dos Amores. Em tal perspectiva, a única revolução verdadeiramente efetiva será aquela que nos leve a despojar-nos de qualquer propriedade, sejam coisas, pessoas ou nós próprios. Recusar o egoísmo, o prestígio e o poder. Identificada nesse modo, a política só pode ter validade enquanto construção do futuro. No seu pensamento antecipador, este futuro estará caracterizado pelo "desaparecimento do Estado, da economia, da educação, da sociedade". O profeta nos ambienta no mundo inteligível da Ilha camoniana. Tétis, mensageira de Vênus e senhora da Ilha, não é nem autocrática nem burocrática, muito menos tirana. Mestra da revelação, des/vela, e nos preleciona o Amor, a Ciência, a Fé.

Constança Marcondes Cesar¸ professora da Universidade Católica de Campinas, que prefaciou Reflexões do Agostinho para a edição brasiliense da Editora Thesaurus, em conclusão atilada e concisa soube resumir o fundamental do seu verbo anunciador: "O conjunto dos povos de línguas ibéricas - herdeiros de Joaquim de Flora - construirá mundo novo. A nova idade virá com Portugal, África, Oriente, Brasil: a navegação do Espírito".

Boa forma de perceber a viagem; renovação de remontar as Índias; jeito de não gastar o colóquio mirífico na gandaia; compreender a ilha itinerante para que, enfim, ela ancore e, sabendo a relação entre o divino e o humano, faça-se continente.

A Utopia, ya lo creo, existe. Lá, aonde ainda não chegamos.

Conferência lida na Universidade Católica de Lisboa, em fevereiro de 2001. José Santiago Naud (1930) é uma das vozes mais consistentes da poesia brasileira, autor de uma obra vastíssima que inclui títulos como O centauro e a lua (1964), Verbo intranqüilo (1967), Dos nomes (1977), Pedra Azteca (1985), Vez de Eros (1987) e Os avessos do espelho (1996). Fotografia de Myriam Cunha. Página ilustrada com obras do artista Hélio Rola (Brasil).
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