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Rodchenko: uma arte sem objeto
Víctor Sosa
As
vanguardas quebram o vaso. Entram quais bárbaros cavaleiros à
festa do Ocidente e fazem cacos do aristotélico e renascentista
objeto da representação. A partir daí, deste ubíquo
momento chamado vanguarda, o objeto perde seu papel protagônico,
abandona a cena - esse "cubo cenográfico" do cânone renascentista,
segundo a definição de Francastel - e cede seu lugar a novos
atores. O roteiro também muda: já não se trata de
representar
de maneira ilusória a realidade exterior, mas sim de apresentar
uma realidade em si: aquela imanente ao processo de produção
artística. A poesia, principalmente a partir dos futuristas, põe
em evidência seus atributos fônicos e visuais, além
de suas funções expressivas e eficazes; a pintura, a partir
dos cubistas, mas sobretudo dos neoplasticistas - Mondrian, Van Doesburg,
Kandinsky - ressalta o caráter protagônico da cor e da geometria
sobre o plano do quadro, além de suas funções alegóricas
e narrativas. A arte volta assim a suas fontes materiais, a uma revalorização
de seu caráter de forma, de matéria-prima, de concretude.
A vanguarda, paradoxalmente ao que o nome indica, bebe nas ocultas águas
da arte primitiva e pré-renascentista: escultura africana, pintura
medieval e estéticas do Oriente irrompem como recursos contra o
cânone representativo da arte ocidental.
Neste contexto devemos localizar um
movimento periférico que, no entanto, levou até às
últimas conseqüências o espírito renovador das
vanguardas européias: o construtivismo russo, nascido fora dos epicentros
culturais, singularidade que terá que ser vista como uma virtude
posto que, diferente das radicais mas ao fim burguesas vanguardas européias,
a vanguarda russa participou ativamente na construção da
utópica sociedade comunista e do homem novo - paradigmas políticos
que sustentavam a experimentação artística nesses
fervilhantes anos anteriores à hecatombe estalinista.
Alexandre
Rodchenko (1891-1956) é um dos protagonistas principais do construtivismo.
Diferentemente de Malevich, que via em seus quadros suprematistas uma "janela
através da qual descobrimos a vida", Rotchenko faz sua a frase de
Shklovski - que fora o fundador da escola formalista -: "As obras de arte
não são janelas para outro mundo, mas sim objetos".
Ruptura tácita com o ilusionismo renascentista, mas também
com a mística dos sentidos, com a metafísica e a espiritualidade
na pintura própria de Malevich, de Kandinsky ou de Mondrian. A pintura-objeto
de Rotchenko, além de ser a negação do significado
e da expressão, coloca em evidência os materiais e procedimentos
pictóricos que se tornaram invisíveis com a ditadura da representação.
Em seu trabalho, a cor vem a ser conteúdo: "A falta do objeto
- nos diz Rodchenko - cultivou a cor como o que é, se ocupou
de sua elaboração, de seu estado, ao deixar todo o processo
a descoberto". Quer dizer, à dissolução do objeto
representativo segue esta re-significação da cor "como o
que é", livre de todo tipo de subjetividade emotiva e de valor expressivo.
Em 1921, o artista-engenheiro
realizou um tríptico que tinha como protagonistas as três
cores primárias: "Levei a pintura ao seu fim lógico e expus
três quadros, um vermelho, um azul e um amarelo, com a decisão
de que tudo terminou. São as cores primárias. Cada superfície
é uma superfície e não deve haver nenhuma representação.
"Morte da ave fênix chamada pintura. Grau zero da expressão
no encontro com a origem: as cores primárias - númen de todo
o espectro pictórico - por fim representando-se a si mesmas. Esta
objetivação
da pintura torna implícito o desaparecimento do artista (produtor)
por trás do produto pictórico - o qual não devia ser
mais que a auto-realização da matéria. A sociedade
sem classes requeria uma arte objetiva - livre de estilos e de interesses
individuais - encaminhando-se a uma iminente cultura supra-individual.
Diferente
de Duchamp - que abandonou a pintura em 1913 -, a atitude antipictórica
de Rotchenko e sua posterior incursão na fotografia e na escultura
só se explicam como um passo a mais para a "construção
da vida", ou em outros termos, para a participação do artista
- esse construtor - na realidade histórica e social que lhe tocou
viver. No entanto, as forças reacionárias desatadas na União
Soviética a partir dos anos 30 acabam com as buscas de uma nova
estética e com o experimentalismo construtivista. A pintura e a
escultura retomam aos modelos representativos e alegóricos invalidados
pelas vanguardas, a arquitetura se reveste de um obtuso neoclassicismo
imperial e a literatura estréia um "realismo socialista" (Gorky
dixit) que empobrece a níveis nunca vistos a grande tradição
literária russa. O sonho de uma arte sob medida para a realidade
se vê traído por uma arte na medida dos comissários.
Triste destino para uma das vanguardas mais radicais e propositivas do
mundo moderno, mas, acaso mais triste que o destino de suas homônimas
ocidentais, hoje refuncionalizadas e neutralizadas nas vitrines da Quinta
Avenida?

É preciso relocalizar, a partir
deste meio-dia pós-moderno, o lugar e a função das
vanguardas artísticas, não por um afã historicista
mas sim para saber onde estamos parados e para onde vamos. Posso ver, de
imediato, na ante-sala do terceiro milênio recém inaugurado,
um reluzente e restaurado vaso que reflete uma paisagem depois da batalha. |