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Floriano Martins
A pergunta a se fazer é se acaso haverá ainda alguma maneira de se discutir consistência e renovação no âmbito de uma canção popular no Brasil. Claro que não me refiro mais ao bordão desentoado de uma safra de efêmeras revisitações, incluindo o prato predileto de uma derrocada grosseira por que tem passado uma das mais sólidas formas de expressão da cultura brasileira: a redução a estratos que se isolam entre si (regionalismo?), iludidos de que representam uma fatia importante do mundo. Refiro-me à nossa música genial, aclamada em todos os lugares pela abrangência e vigor com que anima tudo à sua volta. A pergunta insiste: haverá ainda tal condição? E tal insistência vem uma vez mais à tona, inquietante, justamente quando ouço Kizumba-Mass, CD de estréia do cantor e compositor Graco Sílvio Braz. Um primeiro ouvido permite entender que se recupera ali algo que já se dava como perdido: trata-se de um disco de autor, onde, segundo o próprio Graco, "o trabalho do produtor não assume importância desmedida". Um primeiro olhar também o põe em condição distinta em analogia com seus pares: o despojamento de formas, texturas, imagens não se dá aleatoriamente, ou seja, percebe-se a presença substanciosa de ligamentos, o que imprime ao CD um ar de manifesto. Graco se mostra com um trabalho que sugere o restabelecimento à livre navegação, por costas e entranhas de uma cultura ("à procura de um humanismo, em uma viagem pelos sons de minha formação musical"). Não se trata de um desprendimento sem meta, uma vez que a busca consiste no que ele próprio chama de visão humanista/lírica de mundo. E uma riqueza a mais se desvela pelo fato de que tal viagem não elude o diálogo aberto com outras culturas. Evidente que seria redutor observar que essa procura se revela pelo inusitado com que o artista rejeita o regional em nome do metafísico, o jargão em nome da invenção. O mesmo se poderia dizer acerca da nítida valorização da imagem ou da diversidade rítmica e de recursos instrumentais utilizados. Igualmente caberia referência à intertextualidade, sobretudo na forte ligação com o cinema e a pintura. Tais artifícios, vistos em isolado, confundem-se com algumas inúmeras atrações anunciadas como a última novidade. Graco possui uma consciência preciosa em relação aos riscos, inevitáveis. Situa uma das canções, Uno & Verso, "como um pensar sobre a diversidade e imensa complexidade instaladas de nossas vidas", sinal de que nem CD nem Graco estão mais para o ardil superficial de uma retórica que, em nome da multiplicidade, deu apenas no vazio existencial e no enriquecimento de um delgado filão de mercado. Em conversas com ele, me disse que o CD perseguiu uma idéia básica: "passar uma visão de mundo, uma posição, uma crítica, apoiada em letras e texturas musicais, outros sons, escolhidos segundo as linguagens com as quais componho, sinto a música, me relaciono com ela".
Mas por onde terá andado Graco até aqui? De onde surgiu esse artista maduro? Em termos curriculares, nunca esteve de todo ausente, e as menções destacam aspectos como a autoria de Noturno, gravada por Raimundo Fagner e que serviu de tema de abertura de telenovela de Janete Clair, cujo nome seria dado justamente por um verso seu: Coração alado (TV Globo). Outra canção, Espelho, foi igualmente tema de abertura da mini-série Joanna (TV Manchete). Entre as canções gravadas maior consistência encontraria na parceria com Belchior, em cujos discos mais recentes esteve presente. Houve um determinado momento em que a canção vinda do Nordeste do Brasil causava um impacto, não somente pela diversidade hoje deformada mas sobretudo pela consistência de novas propostas estéticas. As estranhas vozes de Zé Ramalho e Raimundo Fagner eram claros contrapontos a um desgaste do acasalamento entre Concretismo e Tropicália. Quando menos apontavam para um Nordeste mais amplo do que o presumível. Na mesma ocasião um Belchior ironizava toda forma de regionalismo e bem se poderia ter ali, naquele momento, um saudável diálogo em torno de novas perspectivas da canção popular brasileira. Ao contrário, todos se renderam às artimanhas faceiras do mercado, aspecto que agrada ao bolso mas que põe uma cultura inteira em desalinho. Este resumo algo simplista sugiro como tópico para uma discussão mais abrangente, em outra desejável oportunidade.
Tais observações salientam uma escolha vertical da parte de Graco no que diz respeito a essa estréia em plena maturidade. Alguns aspectos aqui sugestivos no tocante a Kizumba-Mass já dão por conta de uma consistência estética. No entanto, caberia mencionar particularidades. Algo que me parece fundamental na gênese de uma obra de arte escuto de Graco quando me fala de seu trabalho: "a idéia é colocar o cara que cria, que se vê com os dilemas da criação, frente a frente com a esfinge da mídia, do caos, da super-oferta de apelos, à beira de se perder". A idéia de por o artista em confronto com seu tempo é quando menos inusitada, porque caberia supostamente ao artista ser peça determinante e não determinada. Quando não houver mais cultura alguma a ser referida como tal no Brasil, não caberá saudade. Conseguimos assimilar uma multiplicidade de aspectos culturais, o que nos permitiu estalos vigorosos, não apenas em relação à música. No entanto, nos comportamos como se desprezássemos uma história, ainda que breve mas sólida, e nos metemos a incorporar instâncias visivelmente precárias ou recorrentes, e todos ficam felizes porque assim uma verdadeira feira de vaidade celebra o extermínio de uma cultura. Tudo isso tem a ver com outra observação de Graco, a de que vivemos como "gigantes com pés de barro", ou seja, "todo o avanço da ciência sob o risco de uma queda na bolsa..." Tenho dito em várias circunstâncias que a humanidade se anula em uma simples frase que ouvimos com abusiva freqüência: "não é comigo". Nesse alheamento perene nada nos será de real valor ou serventia, uma vez perdida a noção de humanidade. Graco entende que essas questões estão muito presentes em seu trabalho ("a solidão do um, do ser vivente, da existência como condição inquestionavelmente solitária") Versos e versos dão conta do que falo, mas sobretudo é preciso entender essa relação com um universo múltiplo que a música permite, todas as instâncias sensoriais ali presentes. Graco me fala de suas relações poéticas com o cordel, o fantástico advindo da tradição cordelista e a mescla com o que ele chama de uma poesia baseada em novas expressões. Bem sei que sua predileção pela inserção de neologismos não se vincula a um vício pela novidade. O disco está além do que se possa chamar de riqueza de imagens ou desprendimento no recurso a linguagens várias. Não é a diversidade o que conta, mas antes o aspecto ontológico (essencial) de quem sabe fazer os ligamentos entre portos distintos.
Naturalmente Kizumba-Mass não se define por essas particularidades em isolado. O diálogo com Graco, quando me falava de cada canção, bem poderia ter maior valor expressivo aqui. O mergulho intenso em uma teia de influências, convivências, interferências, essa maneira da matéria artística se misturar com o mundo e ser algo, ganhar o corpo substancioso de uma força que nos leva adiante, ah isso é possível sentir na audição do CD. É também plenamente possível discuti-lo aqui, graças a uma condição irreverente de sua prova estética. Possível ainda tê-lo por aí, alcançando repercussão essencial, se conseguir vencer a patética ruralidade do curso musical de uma mídia sem mais opções do que ser nada. Quando ouvimos a música que vem daquela vertigem sincera de uma expressão humana, compreendemos que o divertimento a que fomos reduzidos – nós, clientes, consumidores, párias de qualquer requinte cultural – possui uma pegada que nos leva a pensar sobre a química de nossa identificação. Por que não discutir seriamente em torno da instalação de uma mediocridade em nossa cultura a partir da música popular? E mais: por que não tornar esse diálogo fundamental para a compreensão de cerceamentos, descasos, exercícios de corrupção e aceitabilidade, conivência de uma elite que optou pelos bolsos fartos em relação a qualquer confirmação de postulados estéticos? Claro que o CD de Graco não responde a tais abismos senão com a expressão de uma música que aprendeu a dialogar com toda uma tradição e dela saber extrair suas jóias consistentes. A consciência com que somou maracaru, baião, raggae, guarânia, funk, despreocupado com rótulos, essencialmente buscando a tessitura de um painel onde claramente se depreende que a fundamentação estética não está vinculada a modismos. Com Kizumba-Mass Graco lança um problema: diversidade é concentração e não o alheamento, a devassidão com fins lucrativos. Kizumba-Mass traz implícito um desafio: não há riqueza alguma se antes não é tocada por seu revés. |
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