Agulha - Revista de Cultura

Revista de Cultura # 13/14 - fortaleza, são paulo - junho/julho de 2001

Agulha (Collage de Floriano Martins)






 

Pequenas prosas extraídas de um breviário

Per Johns

Texto

Per Johns (Foto de Jytte Bjerregård)Que o texto, apenas pretexto, germine como seiva, ficando só a semente das palavras que se apagaram.

Desmobilie-se a casa herdada. Comece-se pelo tapete. Os quadros, depois. Finalmente, a estante e o conteúdo das gavetas.

Mas deixem-se de fora as ruínas para que possam rebrotar como ervas de ninguém levadas pelo oceano largo da vida…

"Mas isto é a morte!!"

É verdade.

Ao mesmo tempo que não convém iludir-se com palavras que não nos pertencem, é a única saída.
 
 

Predadores brancos

Entrincheirados nas escarpas de suas construções selenitas, não se cansam de repetir:

- Em nossas mãos o mistério morreu!

É de se vê-los, protegidos dos pés à cabeça por grossos impermeáveis, minuciosamente encurvados sobre a tarefa de fragmentar, dissolver e reconstruir plantas e bichos, areias e rochas, nuvens e ventos.

Ofende-os o que nasceu pronto, e melhor. Desmancham-no, para fazer de novo, e pior.

Incansáveis, blasonam:

- Nada nos é vedado. Nem o infinitamente grande. Nem o infinitamente pequeno. Não está distante o dia em que seremos todos ninados na rede acalentadora das engenharias exatas.

Caçadores letais da incômoda respiração e do sangue inquieto, almejam - assombroso cometimento - a nada menos que a soberania da vida e da morte, para torná-las limpas como uma página branca. Sentem horror à morte esgrouvinhada e à vida que se vomita a si mesma.

No exterior de seu brancor higiênico, mostram-se alheios. E por dentro vão secando, despovoando-se em poros e desvãos, possuídos desta cosa mentale que diabolicamente se corporifica e funciona, iludindo-os com ser a alma do universo, e eles, os exorcistas, Deus
 
 

Anfiteatro

Discutíamos coisas sérias, quando fomos interrompidos por Tristão para anunciar a próxima execução por engrenagem.

- É amanhã - dizia. E explicava que a primeira leva é de inadaptados e loucos. A segunda de marinheiros e guardiães das aves marinhas. A terceira de hierofantes anacrônicos e alquimistas errados.

Outras levas havia, inúmeras, mas não demos ouvido a Tristão. Continuamos nossa tertúlia. Eu falava da excelência de meu exílio à roda do quarto: aventura sem risco. Respondias com as vicissitudes do outono da Idade Média: folhas que não se varrem. E ambos nos desentendíamos na análise das qualidades de herr Ulrich Von Lisum, bibliotecário de Klagenfurt, morto em 1633. Mas por mais que nos esforçássemos para dar alguma visibilidade e clareza ao que dizíamos, éramos interrompidos pelo irritante Tristão com suas intermináveis atrações, distrações, execuções de gente dessueta:

- Não percam!

Tive ímpetos de expulsá-lo da sala, mas fui polido, como mandava a civilidade. Contemporizei: - Está bem, Tristão. Iremos amanhã. Reserve os lugares.

Tristão riu.

- Infelizmente - respondeu - os lugares na platéia esgotaram-se. Agora só há vaga entre os condenados. Serve?

Gabriela Villegas

Retrato

Chamava-se Salvador. Quem lhe deu o nome, não poderia imaginar que, de fato, seu maior sonho na vida fosse salvar o mundo; limpá-lo das impurezas. Para tanto, desposou a teoria certa, recém-descoberta entre os escombros das inúmeras teorias erradas. Com uma condição: era indispensável que o salvável estivesse longe, fosse inalcançável. "Impessoal" - dizia.

Hígido que era, sentia ódio de tudo que estivesse próximo, a começar pelo vizinho. Supliciava-o a contextura de sua epiderme, a viscosidade de suas secreções de vagotônico, seu cheiro de bicho humano infectado por um pensamento especialmente errado por se encontrar tão perto. É como se a presença do vizinho lhe roçasse o braço, causando arrepios.

Evitava olhá-lo nos olhos. Desviava-os. O mal-estar consumia-o por dentro quando conversavam. Mas o som de sua voz ainda o incomodava menos do que o remanso pastoso do silêncio que se seguia: ali revolvia-se como uma mosca colhida na mistura de cola e açucar do papel-armadilha.

A cordialidade era pro forma e tensa, como uma corda invisível prestes a romper-se por dentro. O que acabou acontecendo. Discutiram por causa das folhas de uma árvore que emporcalhavam o quintal cimentado, impecavelmente limpo, de Salvador. Exigiu que o outro a derrubasse. Peremptório.

Furioso, o vizinho se recusou e ainda o ameaçou com um destampatório de impropérios porque podava os galhos. Salvador não conversou. Com um único gesto, cravou-lhe no coração a tesoura com que podava os galhos. Matou, não a pessoa do vizinho, mas o erro.

No julgamento que se seguiu, foi absolvido, alegada legítima defesa, e ainda teve ganho de causa na pendenga da árvore.

Desde então, aliviado, Salvador descansa da necessidade de salvar o mundo.
 
 

O motim

O comandante exige:

- Quero a equação do azul. A engrenagem do canto. A respiração dos cetáceos. O vôo do besouro. A aritmética do carinho e a geometria do amor.

De nada adianta que os pobres marinheiros se amotinem contra o despótico comandante e tentem rumar para o lado de trás do espaço e o lado de dentro do tempo. É vã sua pretensão de mover-se ao contrário da máquina a vapor, dos jacobinos, do Iluminismo e de Galileo Galilei. Desembarcaram na ilha deserta com suas mulheres paradisíacas, raptadas em outra ilha saqueada. Queimam o veleiro, as especiarias e a carga milenar. Descarregam as consciências quando sobem as íngremes trilhas, fora do alcance de qualquer esquadra. Prometem-se fidelidade eterna, esquecidos os ressentimentos. Serão a grande família que lhes foi negada pela Revolução Industrial, por Torquemada e pela Companhia da Indias Ocidentais.

Mas ao abandonar o barco da plenitude, que se ceva na penúria, nas teorias excessivas, na cifra asséptica, no vampirismo dos interesses, os amotinados se esqueceram de que carregam dentro deles, eles mesmos. E eles mesmos são irredutíveis ao aberto. Insensivelmente voltam a dividir por fora, com cercas de arame farpado, o sustento e a respiração. E a dividir-se por dentro, em feudos e arengas.

Voltam a ser o que sempre foram.

Gabriela Villegas

Credo da inquietude

Se por acaso eu chegasse um dia à Terra Prometida, que faria depois?

Se eu lesse, relesse, treslesse todos os livros, leria o quê?

Se eu erguesse minha casa e dissesse: - Satisfaz! - com que haveria de me distrair?

Se fosse suficiente erguer o braço para obter o que preciso, como passaria o tempo?

Se me sentisse irmão de meus iguais e desiguais, onde acharia meu inimigo?

Se o que eu buscasse estivesse onde estou, procuraria o quê?

Se o meu mundo ficasse pronto, que haveria para modificar e melhorar?

Perdoe-me Deus, mas se todos esses ses acontecessem, eu ficaria cansado, cansadíssimo de não ter que inventar mais nada.

E talvez desistisse de viver.
 
 

Réplica de Deus

Contumaz criatura. Por todos os meios tentei salvá-la de suas próprias artimanhas. Dei-lhe um olhar luminoso e a faculdade de perceber-se e perceber o mundo. Concedi-lhe o livre arbítrio de escolher entre ser espelho de Meu opus perfeito ou motor de si mesma, na construção de uma obra que exclui o resto e só leva ao desastre. Ela preferiu sua própria Torre de Babel. Compraz-se em seus escuros labirintos e imita-Me na criação de mundos paralelos. Reincide. Várias vezes submergiu em cataclismas auto-infringidos. E sempre recomeçou arrogante e dominadora. O resultado é o que aí está: desequilíbrios mortais, desarmonias sem remédio, gritos plangentes e queixas lancinantes que surgem de todos os quadrantes do orbe. E agora, também dos espaços siderais.

A cada vez, quando ela tenta consertar-se já é tarde demais.

O fim se conduz a si mesmo. Não interfiro. Mas até quando?

Meus acessores sugerem uma reversão à pura condição de animal sem consciência, com uma bússola instalada no coração em vez do livre-arbítrio no cérebro. Mas eu teria de inventar um novo espelho, a não ser que Me conformasse, em definitivo, com a condição de artista anônimo.

Nesse caso, ninguém usufruiria de Minha obra-prima.
 
 

Monólogo à beira do fim

Meu corpo nem bem cede, nem bem resiste. Vive a agonia de uma longa quase sobrevivência.

Homens de branco confabulam: dizem que me acometeu uma hemorragia que não tem causa explicável. Só Deus explica. Estranho que o digam, pois não entendem de Deus. Do diabo, talvez.

Enquanto isso, a hemorragia - humana ou divina - continua a correr-me para dentro (ouço-lhe a caudal, por vezes ruidosa). Aduba uma terra que não é a mesma que se toca com os dedos, se cheira com o nariz ou se prova com a língua. Quem a vê é um outro olhar, caprichoso, imaginativo, inventor de irreais por insatisfação com os reais de que é feita a vida.

- E de que reais é feita a vida? - ouço uma voz perguntando.

- Difícil de dizer - responde o coro dos homens de branco. Nem os melhores aparelhos conseguiram detectar o que há nesse âmago deliqüescente. Só abrindo para ver.

É o que fazem. Abrem-me para ver do que é feito o inexplicável, que só Deus explica. E o que vêem? Um mecanismo desordenado como um relógio sem os ponteiros. Um nódulo de estranheza.

Para eles, tudo. Quase nada para quem ouve a voz longínqua que vem do sangue ou do rangido do vento na janela, ou das nuvens que caçoam dos homens de branco. Em seu paraíso erigido sobre escombros diz a voz que o único lenitivo, neste inferno, é o néctar do sonho, a droga que me envenena.

Mas cansei de tomá-la em doses homeopáticas. Tomarei a dose definitiva, por mais que se unam contra mim os homens de branco.
 
 

James Joyce em Zurique

Gabriela VillegasEntrar no James Joyce Pub é como entrar num túnel do tempo e da geografia, onde se perdem os habitantes do aqui e agora.

Transplantado de Dublin a Zurique, azulejo a azulejo, peça a peça, barris, quadros, nomes:

J.J & Sons
Special Malt
Sherry Medium
Les Sylphides: 1896
Autumn Winter Spring Summer
The day in which Resurrection became visible and clear
É a importação de um estado de espírito.

Mas não; não é. Os frequentadores trazem consigo seu próprio estado de espírito, como se tivessem saído de uma sala desta cidade de banqueiros e taxas de juros e entrado em outra igual. Sequer vêem o que estão vendo. Retomam a discussão exatamente no ponto em que a deixaram: cotações, regimes assimétricos, negociações do Gatt, serpentes (ou hidras) monetárias.

Expulsam Elijah Bloom e Stephen Dedalus.

E se apossam do que não lhes pertence, fazendo de um estado de espírito o único lugar de Zurique que tornou James Joyce irreconhecível.
 
 

Axel Munthe em Capri

Absorto, ouvindo, ficava horas diante do Scoglio delle Sirene, onde Ulisses teve de botar cera nos ouvidos para não soçobrar.

O que para os outros não passava do rumor do mar nos escolhos era para ele um sensibilíssimo arpeggio quase à flor das águas.

Só ele ouvia aquela música de uma luminosidade que o cegou. E o fez construir com suas próprias mãos, juntando nela todo o quebra-cabeças de uma vida, sua casa no alto do morro. Memento vivo de um retorno a si mesmo. Num azulejo, anotou: Oser. Vouloir. Savoir. Se taire. E numa parede pontificava o desenho sem fisionomia de uma esfinge, que surgiu por si só, como num pentimento. A harpa eólia que toca reproduz o arpeggio das águas.

Na canção de suas últimas palavras:

- Siete buono come il mare.


Per Johns (Rio de Janeiro, 1933) é ficcionista, autor de livros como A revolução de Deus (1977), As aves de Cassandra (1991) e Navegante de opereta (1998). A sérir de prosa poética que aqui publicamos integra o livro Testemunhos à flor da pele (inédito). Fotografia assinada por Jytte Bjerregård. Página ilustrada com obras da artista Gabriela Villegas (Chile). Contato: johnspaula@hotmail.com.

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