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Editorial
Vazamento de fogo no inferno
A sociedade brasileira encontra-se tão atordoada com um espectro da
corrupção que o próprio conceito de notícia tornou-se refém do que poderíamos chamar
de um caso de polícia. O que informar que escape desse universo de derrocada moral? O que
informar que, por outro lado, não seja deformação de uma cultura? Estes dois aspectos
estão presentes de maneira ardilosa e corrosiva na vida dos brasileiros. O comportamento
da mídia é derivativo desse impasse, se assim o podemos chamar: no intuito de
denunciá-los, os aspectos falhos de uma sociedade acabam sendo o destaque diário de
todos os meios de comunicação. Cria-se aí uma falsa idéia de sociedade em permanente
estado de degradação. Ao mesmo tempo, a cultura passa a ser vista unicamente como
produção de entretenimento, gerando outro desconforto para uma sociedade já fragilizada
do ponto de vista moral. É comum encontrarmos um mesmo tipo de deslocamento de raiz em
matérias sobre futebol, música ou cinema, quando a notícia centra-se no inexplicável
saldo da conta bancária do diretor de um clube de futebol, na manifestação de apoio de
uma cantora a um político notoriamente corrupto ou no desvio de valores captados para a
produção de um filme por parte da própria cineasta. Se vamos para áreas como política
ou economia, o matiz é o mesmo, ou seja, nosso entendimento de política foi eclipsado
pela vazante de escândalos que envolve o Congresso Nacional, ao mesmo tempo em que a
economia converteu-se tanto em um ilusionismo como em uma precariedade: de um lado,
busca-se explicação para o inexplicável; de outro, limita-se o conceito a ganhos e
perdas, no caso, claro, mais perdas do que ganhos. Evidente que tal diagnóstico nem está
completo nem se pretende novidade. É comum ouvir-se, mais a título de resmungo do que
propriamente de indignação, frases como "esses políticos são todos safados",
"não há mais cultura neste país", "os jornais só falam de
crimes"
Até que ponto transformamos nossas vidas em cenário de um drama
policialiesco? Vivemos em uma sociedade criminal, onde a própria lei é redigida, mantida
ou alterada de maneira unilateral. Não é de todo inexplicável a profusão de um
contágio, hoje já em termos epidêmicos. Artistas, religiosos, administradores
públicos, atletas, empresários, o país inteiro se confunde quando o assunto é
corrupção. Contudo, não percamos de vista que a raiz de toda corrupção é a
leviandade existencial, a falta de princípio. Eis, portanto, o que une derrocada moral a
deformação cultural. E quanto mais levianos formos mais cedo erradicaremos o menor
traço possível que nos conduza à memória de uma cultura brasileira. Cobrar
consciência, naturalmente, pode parecer igualmente leviano. Tal recurso tem sido
habitual, retórica utilizada para a lavagem das mãos. Segue atestando o cinismo vulgar
com que vem sendo tecido todo o organismo social deste país. O esfacelamento de uma
sociedade só pode ser corrigido pela consubstanciação de seus princípios. O grande
vazamento que se verifica radica na projeção sistêmica de um isolamento, ou seja, a
falta de diálogo entre as inúmeras vertentes constitutivas dessa sociedade. No caso
brasileiro, é possível falar em ausência de comunicação interna e externa. O país
sempre conheceu a imposição, em toda a extensão de sua trajetória existencial. Um
sentido ambíguo de imposição, diga-se, que permite a leitura de um diálogo falseado.
Os exemplos poderiam ser dados à exaustão. Nos diversos matizes em que uma informação
é editada, a mídia acaba convertendo-se em cúmplice desse processo de desenraizamento
de uma cultura. Não se trata apenas do que informar, mas sobretudo de como
informar. Não somente a arte é o território de uma estética. Toda a existência humana
trafega entre ética e estética. Somos o que somos da forma como somos. Tal percepção
deverá ser uma espécie de primeiro passo na reversão de um processo brutal que define a
sociedade brasileira desde a colonização. Teremos que partir para o diálogo, buscar o
outro a cada momento, entregar-se ao convívio, anular preconceitos e aceitação tácita
do que habitualmente nos é imposto. O impasse: o estado policialesco aludido dopou o
entendimento dessa insurreição. O brasileiro já quase não reage senão aos choques de
mídia. O torpor vem da constatação de estar trabalhando no vazio. De volta ao estado
viciado: "se todos são corruptos, tratarei também de sê-lo". Todos os dias um
que outro brasileiro indagará a si mesmo: "como será possível reverter o
assunto?" Toda a sociedade brasileira reage a partir desse substrato de corrupção.
Estamos nos desfazendo. Já não recordamos uns tantos nomes fundamentais na história de
nossa cultura e a cada momento acatamos a leviandade como sistema de vida. "Como
será?", será através de uma entrega total de si, de uma busca errante de diálogo,
da aceitação do outro. Somente aí se anula um processo de submissão. Como a mídia
escapar dessa condição derivativa? Não, não escapará. É sua contradição: está
rendida pela notícia. Mas qual notícia? O que é notícia? Por aí conduzimos uma
sociedade, criamos falsos fantasmas, anulamos zonas de tensão, azeitamos políticas de
intervenção etc. O ponto nevrálgico é a consciência do que se passa dentro de nós e
à nossa volta. Não resta a menor dúvida de que haja vazamento de fogo no inferno. O
homem não compreende mais a si mesmo. Foi levado a isso? Não resistiu a tanto? O que
esperar do futuro está intrinsecamente ligado ao que esperar de si mesmo.
Os
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