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revista de cultura # 17 - fortaleza, são paulo - outubro de 2001 |
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Editorial
Já sabemos que o mercado editorial no Brasil possui uma particularidade: não existe em sentido programático, ou seja, não aprendeu a conciliar cultura e mercado, sendo apenas um mero refém do mercado, assim produzindo constantemente fracassos editoriais que refletem sua inoperância. O império (ou seria mais correto chamar de empório?) acadêmico, por sua vez, também persiste em uma empáfia que lhe proíbe dialogar com a sociedade. Quer, antes, impor um modelo, não importando aqui discutir qual seja, por mais interessante que possa (nos) parecer. A imprensa, por último, desdobra-se em sinais de farto desconhecimento do que se passa na esfera cultural, por vezes confundindo cultura com entretenimento. Em face dos últimos acontecimentos, afeitos a um âmbito estritamente político e não cultural - claro que nos referimos ao atentado terrorista aos Estados Unidos -, recebemos alguns comentários indignados em relação ao pronunciamento do premier italiano que desmerecia a importância da cultura islâmica. A comoção está ligada a uma realidade declarada e não à realidade em si. Tal distinção é algo que nos preocupa muito. A declarada, a maquiada, a oculta - quantas realidades existiriam? O Brasil desconhece, por exemplo, a realidade dos países que lhe são vizinhos, a América Hispânica, extensa região formada por 19 países, com culturas distintas, aí incluindo também particularidades de ordem política e econômica. E tal ausência de relação jamais nos causou comoção alguma, mesmo que se saiba que parte decisiva de uma realidade problemática vivida na América Latina origine-se justamente daí. Assim, retornamos ao Surrealismo. Não se pode falar a respeito daquilo que se desconhece. Daí que no Brasil se corra o risco dessa visita à fonte surrealista se repercutir de maneira quando menos desfocada. Neste 2001 morreram dois dos mais destacados poetas ligados ao Surrealismo, o argentino Francisco Madariaga e o peruano Emilio Adolfo Westphalen. A importância da obra poética de ambos naturalmente transcende qualquer ligação que se possa fazer mesmo ao Surrealismo, com sua recusa ao ambiente escolástico. Tanto no caso de Madariaga, morto em janeiro, aos 84 anos, como de Westphalen, falecido em agosto último, aos 90 anos de idade, essa recusa era patente, embora contando com decisiva participação de ambos na difusão do Surrealismo em seus países, Argentina e Peru. Nesta edição de Agulha encontramos uma lúcida abordagem da obra de Westphalen, assinada pelo uruguaio Luis Bravo. Logo estará circulando no Brasil uma antologia do Surrealismo na América Latina - incluindo os brasileiros Roberto Piva e Sérgio Lima -, na qual estão presentes tanto Madariaga quanto Westphalen. Evidente que nada se resolve em face do que apontamos aqui. Ou seja: a insistência no Surrealismo pode vir a ser mais uma safra de equívocos, ou melhor, o reflexo repetido de nossa tendência a ver o mundo como uma vitrine e não como o lugar da experiência compartilhada. Um outro poeta surrealista inteiramente desconhecido no Brasil, o argentino Aldo Pellegrini, disse certa vez que "a poesia não é explicação do que se passa no homem, é parte vivente do homem que se desprende para tornar-se objetiva e concreta". Estamos claramente criando um mundo diverso desse pensamento, onde o homem é uma espécie esquizofrênica de refém de si mesmo. Os poderes constituídos, em sua versão policialesca, tornam-se indesejáveis, seja pela prática da eliminação ou deformação das provas. Em todo caso restará a obra. E a necessidade de apresentá-la, a partir daí discutindo-a à luz de seus equivalentes históricos em todo o mundo. Assim, compreenderíamos melhor a nós mesmos. Saberíamos o quanto perdemos - brasileiros - por uma ausência de diálogo com a cultura na América Hispânica. Desnecessário dizer que a ruinosa condição dessa região do mundo vem de sua desunião, da contradição sobretudo de países como Brasil, Argentina e México, que apenas aceitaram uma condição de vítima, alheios à responsabilidade de definição de uma condição maior. Aqui lamentamos naturalmente a morte de Emilio Adolfo Westphalen, e recordamos uma vez mais a presença do Surrealismo na América Latina, mas sobretudo consideramos a lucidez como um componente inegociável da existência humana. Os editores |
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Sumário 1 afonso henriques neto, um poeta à margem da marginalidade. claudio willer artista convidada susana wald (depoimento) |
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