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revista de cultura # 1 - fortaleza, são paulo - agosto de 2000 |
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Duke Ellington, Pixinguinha: dois músicos, dois países Gracco Sílvio Braz
Acenando como um alento no tom
geral da programação de um canal a cabo, recentemente assisti a um
documentário em que Wynton Marsalis falava sobre os eventos em curso,
desde abril e estendendo-se por todo o ano, nas instituições musicais e
veículos de comunicação americanos, que celebram o centenário de
nascimento de Edward Kennedy Ellington, o Duke Ellington. Como um dos responsáveis por parte das comemorações,
nos intervalos dos ensaios à frente de sua orquestra, Marsalis comentava
a importância de Ellington para a cultura americana, aplicando-lhe o
superlativo maior seguido de compositor do século. Poderia
ser o depoimento exagerado ou parcial de mais um americano arrogante, mas
não é. De fato, se fugirmos dos enquadramentos pequenos e saltarmos para
uma visão de humanidade, algumas figuras se revelam monumentais, como uma
insurreição contra o tempo e a morte através de suas obras. E neste penúltimo
ano, de um século tão desconcertante quanto prodigioso nas artes e ciências,
Duke Ellington surge em sua elegância impecável, unissonante na opinião
de criadores notáveis de diferentes áreas, e obviamente também na de
Marsalis, virtuose do trompete, que trabalha com atenção especial para a
fronteira entre o jazz e a chamada música erudita. Em 1974, na festa de
seu 75o aniversário, em seu último ano de vida, Miles Davis,
o antigo Mr. Cool, agora no auge de seu controvertido sucesso pela
adesão ao jazz-rock, arredio a elogios declara à revista Down Beat:
Todos os músicos deveriam um dia se reunir e agradecer de joelhos ao
Duke. Ao longo do programa, inevitáveis, vêm as conexões,
as relações de um país com outro. E nós? Temos um músico dessa
estatura? Afinal, não é comum se ouvir dizer que o choro é o jazz
brasileiro? Como as sinapses são rápidas e o pensamento livre,
Pixinguinha dá um alô. Pode ser uma pane no software ou mesmo um
vírus nacionalista porque, de cara, para contrariar o cotejo, logo vem à
mente o espantoso legado do autor de Solitude, entre outras
milhares (isso mesmo: milhares) de composições, compreendendo canções,
suítes, concertos, peças musicais, trilhas sonoras, arranjos para
instrumentos, peças sacras, adaptações sobre música clássica,
abrangendo enorme variedade de estilos, gêneros díspares ou afins. São
cerca de 200.000 páginas catalogadas em seu acervo, em Washington,
organizado por Mercer Ellington, seu filho e também músico, John E.
Hasse e o Smithsonian Institution, constituíndo um manancial de anotações,
partituras, arranjos, discos, fotos etc. à disposição dos estudiosos. Não
é sem razão que John Edward Hasse, até hoje seu melhor biógrafo, usou
uma de suas expressões preferidas quando queria elogiar alguém muito bom
para o título de seu livro: Além das categorias - a vida e o gênio
de Duke Ellington, trabalho de fôlego incomum, condensado em 480 páginas. Sabemos que Pixinguinha não foi tão prolífico
assim. Aliás, essa tarefa de contar obra de gênios é muito ingrata, até
mesmo para os próprios. Guardadas as devidas proporções, apesar do
trabalho obsessivo de Ellington (ele escrevia em hotéis, estúdios,
trens, aviões), se houve perda de algum material, isso deve ter ocorrido
com Pixinguinha, pois fica difícil dimensionar sua produção, inclusive
pelo descaso com que se trata música no Brasil, excetuando-se o esforço
de abnegados pesquisadores e músicos. Sua produção foi menor também
por outras questões e porque, considerando diferenças de personalidade e
tônus criativo. Enquanto Hasse afirma que aos 66 anos Ellington
encontrava-se no auge de sua força criativa, Pixinguinha enfrentava
problemas de saúde, com a velha manguaça, entre outros altos e baixos,
como é mesmo que se diz?, fi-nan-cei-ra. Difícil acreditar, não? Mas se
driblarmos a profusão criativa de Ellington para viabilizar o
espelhamento entre os dois mestres, cai como uma luva o depoimento que Sérgio
Cabral, no livro Pixinguinha, vida e obra, recolheu de Baden Powell
sobre o seu biografado: É o compositor do século! Diz George
Meredith, escritor e poeta inglês do Séc. XIX, em Últimas palavras
de um sensível poeta medíocre:o gênio faz o que deve e o talento o que
pode. Coube a Ellington e Pixinguinha fazer o que deviam. Ellington veio ao mundo em 29 de abril de 1899, em
Washington D.C., àquela época cidade muito procurada pelos migrantes
negros devido à maior possibilidade de um emprego público, como também
pelo recrudescimento do racismo no Sul. Seu pai, James Edward Ellington,
migrante da Carolina do Norte com ginásio incompleto, fazia bicos como
motorista e outras coisas, até conseguir coisa melhor como fornecedor de
buffet para festas e cerimoniais na Casa Branca. Daisy Kennedy Ellington,
negra bonita e bem educada, de classe média e colegial completo, fatos
notáveis para a época, mimava o garoto como a uma jóia, encorajando-o
com o melhor que podia. Profetizando, tornou-se hábito falar para o
filho: Ed, você é um abençoado, você não tem nada com que se
preocupar. Contribuíam, para esta aparente tranqüilidade, as fartas
sobras de comes-e-bebes que o pai sempre trazia dos eventos. Já na
maturidade, Ellington disse certa vez: ele nos tratava como se fosse
milionário. Tendo iniciado os estudos de piano aos sete anos, Duke,
apelidado por seu vizinho devido aos bons modos, viveu e incorporou ao seu
caráter altivo e amigável o contexto social de sua comunidade. Coube a ele aglutinar as informações oriundas do blues,
o coração do jazz, para desenvolver, ao longo de 55 anos de duas
carreiras simultâneas, como compositor/arranjador e como bandleader,
um estilo único a partir das harmonias e sonoridades novas, facilmente
identificável aos primeiros acordes, que se instilou nos inúmeros gêneros
que cultivou, desde o exótico estilo jângal, em voga em sua
mocidade, passando ao ritmo sincopado do ragtime e a tantos outros
que se formaram a partir do entrelaçamento das culturas européia e
africana nascidas na América, notadamente na região de Nova
Orleans e no Deep South, expandindo-se para o mundo. Quebrou velhas
regras musicais, criou novas e, como diz Marsalis em seu poema escrito ao
mestre, não ficou escravo de nenhum sistema. Desde as primeiras
obras-primas jângal, a partir de uma orquestra aos poucos formada
no Kentucky Club, no Harlem em N.Y., com a participação de músicos
talentosos, como o trompetista Bubber Miley, o trombonista Joe Tricky Sam
e o sax-barítono Harry Carney, à sua mudança, após quatro anos no
Kentucky para o ainda não lendário Cotton Club, também no Harlem, a música
de Ellington estava destinada a encantar o mundo. Os jornais aplaudiam e o
público vibrava com aquele som, feito por um timaço de craques. Miley
arrasava, emitindo o growl com sua surdina, criando os mais estapafúrdios
efeitos jungle style. Hasse conta que só nessa época do Cotton
Club foram cerca de 200 discos gravados. Não devemos esquecer também que
cada gravação podia levar até os dois lados de um disco.
Pelo incrível número de celebridades que produziu,
torna-se simples entender quão atraente e igualmente difícil dominar a
história do jazz. Um engano comum é afirmar que a formação e a herança
dessa música provém somente da cultura negra. Sobre isso, Eric J.
Hobsbawn, entusiasta e estudioso do assunto (além de historiador
eminente), escreveu em seu História Social do Jazz, a certa altura
do livro em que situa os personagens deste teatro: (...) a música
negra rapidamente passou a se fundir com componentes brancos, e a evolução
do jazz é o resultado dessa fusão. O jazz surgiu no ponto de interseção
de três tradições culturais européias: a espanhola, a francesa e a
anglo-saxã. Cada uma delas produziu um tipo de fusão musical
afro-americana característica: a latino-americana, a caribenha e a
francesa. No caso de Ellington, por uma questão de justiça, devemos
registrar aqui seu depoimento a um repórter a respeito de sua música: toda
a minha música é negra. Noutra ocasião falou: todos os títulos
de minhas músicas, eu os retiro da vida no Harlem. Antecipando-se
a Duke apenas dois anos, no dia 24 do mesmo mês de abril de 1897, deu o
ar de sua graça o 18º filho de Alfredo da Rocha Viana e
Raimunda Maria da Conceição. Funcionário dos Telégrafos, Alfredo
sublocava para seus amigos músicos alguns cômodos no casarão de oito
quartos e quatro salas, que ficou conhecido como Pensão Viana, onde
moravam e por onde passavam em visita craques como Villa-Lobos, que de vez
em quando acompanhava ao violão o velho Alfredo, flautista amador, Cândido
Pereira da Silva, o Candinho, trombonista virtuose, Donga, que por toda
vida acompanharia Pixinguinha, os inquilinos Irineu de Almeida (Irineu
Batina por causa de uma sobrecasaca que ele não largava no pior verão),
tocador de oficleide, bombardino, trombone e professor do garoto Alfredo,
Sinhô, entre outros. Quando pegou na flauta usada por seu pai, já o
acompanhava ao cavaquinho ou violão, juntamente com os irmãos, quase
todos músicos. O fato é que, aos 14 anos, levado pelo seu irmão China,
violonista e cantor, foi contratado pelo conjunto da Concha, famosa casa
de chope da Lapa, estreando seu profissionalismo com a flauta caríssima
que o velho Alfredo importou da Itália. A capital da República fervilhava com suas
avenidas, bares, cafés, chopes cantantes e cinemas mudos, onde os
músicos tocavam acompanhando a projeção. Ainda de calças
curtas, Pixinguinha ganhara fama na cidade ao tocar no conjunto de uma
casa, contratado para fazer concorrência ao sucesso do pianista da casa
em frente, cujo nome era Ernesto Nazareth. A fama também vinha por logo
depois ter entrado para a orquestra do maestro Paulino Sacramento, no
teatro Rio Branco. Em plena apresentação, daria início às curtições
particulares, fazendo improvisos, solos por fora da melodia, uma de suas
características que, depois aperfeiçoada, passou a ser sua marca:
contraponto e improviso. Como em Ellington, nas palavras de Henrique Cazes,
em seu livro Choro: do quintal ao Municipal, exímio cavaquinista
dedicado à divulgação do choro, coube a Pixinguinha (...) partindo
da música dos chorões (…) e misturando elementos da tradição
afro-brasileira, da música rural e da sua variada experiência
profissional, aglutinar idéias e dar ao choro sua forma musical definida.
O choro, então, deixava de ser um jeito de tocar, surgindo como a mais
genuína música instrumental brasileira, tendo-se estruturado em três
partes, modulações e improviso.
Cabe aqui mais uma pausa curiosa para contextualizar
jazz e choro. Por volta de 1900, data em que os historiadores são
unânimes em afirmar como o nascimento do jazz, a licenciosidade do
catolicismo francês no Sul foi responsável pelo surgimento dos creoles,
mulatos americanos, filhos de franceses com escravas negras. Foram eles os
primeiros bluesman a conquistar fama nos EUA, todos com nomes
franceses. Constituíam uma classe intermediária entre os europeus e os
africanos. Católicos sem ligar muito para a salvação das almas de seus
rebanhos, o africanismo americano foi mais bem preservado no Sul, longe do
protestantismo, onde surgiram formas mais híbridas, como o gospel e
as revival songs. A mesma variedade e riqueza de instrumentos das
bandas militares ou de agremiações francesas, onde se originou o Carnival,
e onde até hoje se mantêm as divertidas bandas de Dixieland (Dixie,
região do Sul), estiveram também presentes no Brasil com suas marchas
etc. Em um país inteiramente católico, de colonização portuguesa, haja
choro, samba, carnaval e mulatas… Seria até razoável se fosse somente
isso o resumo da ópera, neste país onde o exercício diário de ler
jornal é jogar ácido no estômago e ódio na alma. Mas se Duke só começou mesmo a detonar por volta
de 1924, no Kentucky, Pixinguinha, depois de ter ganho fama e passado por
vários times de craques como o Grupo Caxangá (com Donga e João
Pernambuco), formava com outras feras os Oito Batutas, uma banda que fez
grande sucesso devido ao ecletismo do repertório para gregos e baianos e
que, em 1922, com a ajuda de Arnaldo Guinle, mecenas amigo da turma,
estreou, sob vários graus abaixo de zero, no Teatro Scheherazade, em
Paris. O público francês, surpreso com aquela música ligeira e
sincopada dos chorinhos e outros ritmos, estendeu a temporada por quase
seis meses. Cá no Brasil, os senhores mais ilustres se diziam
envergonhados com a presença desses músicos na Cidade Luz, denegrindo
a já não muito boa imagem do Brasil. Lá, jornais enchiam a bola de
Pixinguinha e seus companheiros. Em 1927, foi a vez da Argentina, de onde, após um
desentendimento, o grupo voltou desfeito, dando origem aos Oito Cotubas,
dissidência dos descontentes. Conta-se que, na temporada Argentina, até
dinheiro faltou, porque o empresário… Quarenta horas de trem, depois de
passar por Mar Del Plata, Mendoza, Rosário, Córdoba, Rio Cuart, a
fome… Sérgio Cabral conta a história de um dos membros da trupe que
tinha dotes extra-musicais e armou um enterro de mentira para ganhar
algum, fingindo-se de morto!
A linguagem do jazz invadiu o mundo e o
Brasil não era exceção. Pixinguinha fazia incursões pelo saxofone, Os
Oito Batutas entravam também na onda do fox-trote para poder competir com
outras bandas. Caprichavam naquele visual maneiro com bons ternos e
gel no cabelo. De norte a sul, o país dançava com a algazarra do novo
som. Unindo forças, Os Cotubas voltaram ao ninho e surgiu a orquestra Os
Oito Batutas, com um som massudo, que tocava choro e jazz no repertório.
Ellington acrescentou nova virtude ao que entendemos
por refinamento. Certa vez, tendo sua aparência minuciosamente descrita
por um jornalista, do cabelo ao sapato, o jornalista finaliza: parece
mais um conformista que um violador. Em outra ocasião, ele mesmo
comentou, em tom de provocação: violamos mais regras musicais do que
qualquer um! E que mudanças eram essas? Modificar combinações de
timbres de sopros convencionados pela música clássica, colocando-os no
jazz; desrespeitar a estrutura de chorus para lançar uma frase
solta ou improviso; escrever para um instrumento em um tom não apropriado
para este; criar climas a partir de combinações de dissonâncias. Tudo
isso nada tem a ver com equívocos muito comuns em alguns músicos, para
os quais ser bom é complicar. Não é o mesmo que explorar, aprofundar. E
ele o fazia sempre sem prejuízo para as belas canções de simplicidade
cruel, pensando nos cantores e cantoras. Entre irônico e gozador, certa
vez sentenciou: nós não hesitamos em quebrar regras e criar outras
novas, não temos seguido os fetiches de músicos sinfônicos. Temos
ofendido alguns oficiosos, mas também fazemos novos amigos.
O sucesso era absurdo e o show business
ganhava corpo e força. Em Chicago, em uma série de concertos, somou mais
de 400.000 fãs. À cena de hoje, com o espaço para música orquestral,
é inacreditável. Seria decadência ou somente mudança de ares? No
Brasil, Pixinguinha já havia composto obras-primas, como Lamentos, o
samba Gavião calçudo, que, junto com duas outras músicas, vendeu
por um conto de réis para um certo F. A. Pereira, e Carinhoso, um
choro ainda sem letra, de apenas duas partes, que no futuro seria feito
por Braguinha, o João de Barro. Tom Jobim conta que, durante as gravações
de seu disco Tide, ao terminar Carinhoso, os músicos vieram
cumprimentá-lo, achando que fosse sua. Nos EUA, Duke realizava gravações
a rodo e composições marcantes com Billy Strayhorn, jovem músico de
enorme talento, cuja afinidade com Ellington era tão grande que os músicos
não conseguiam discernir a autoria das composições e orquestrações.
Foram parcerias que esculpiram a grande fase de Ellington. Billy Strayhorn
morreu jovem, de câncer, deixando um enorme vazio. Considerados irmãos,
foi um choque para Duke. É uma característica na vida dos nossos dois músicos
o grande abatimento com a perda de amigos. Pixinguinha dizia que morria de
medo de estar vivo e não ver mais seus amigos. Sofreu demais com as
perdas de Jacó do Bandolim, que, aos 37 anos, teve um enfarte fulminante,
ao chegar a sua casa, vindo de uma visita ao Pixinga e ao seu irmão
China. Certa vez contou, em depoimento ao MIS, de um grande susto que
experimentou no dia em que, inadvertidamente, chamado por colegas do IML,
quando trabalhava como fiscal da prefeitura, foi olhar o corpo, na mesa de
autópsia, de um músico achado à beira de um riacho. Era Ernesto
Nazareth.
Cá no Brasil, as coisas são bem mais calmas, pois
a grana é menor. Se Ellington era um homem refinado, podemos dizer que
Pixinguinha era um homem fino. Unanimidade entre os que o conheciam era
sua simplicidade cativante. Se aquele não dispensava um smooking,
este só queria passar no bar do Gouveia (onde fora homenageado com uma
placa de 10 anos de cadeira cativa, no aniversário de sua primeira
visita), chegar a casa e vestir seu pijama. Sem deixar de ser igualmente
elegante! Em sua maturidade, a cadeira de balanço e o mundo estavam em
paz. Afinal, o rapaz começou no batente com 14 anos. Pixinguinha ganharia
o status de Duke.
Tendo-se instalado no Brasil, a RCA o contratou para
reger e fazer os arranjos para a Orquestra Victor Brasileira. Muito
trabalho e uma situação privilegiada lhe permitiam superar o sufoco que
seus amigos estavam passando com a chegada do cinema falado. Sérgio
Cabral chama a atenção para este fato: a contratação de Pixinguinha
pela Victor representou a solução para um problema que a MPB, em geral,
e o samba, em particular enfrentavam nas gravadoras, cujas orquestras eram
constituídas e dirigidas por músicos estrangeiros. (…) Pixinguinha
abrasileirou as orquestrações de forma tão nítida e radical que se
pode dizer, sem medo de errar, que foi ele o grande pioneiro da orquestração
para a MPB. Faz
justiça. Quem está pelos 40, deve lembrar de arranjos irresistíveis
como aqueles metais das frases iniciais de O teu cabelo não nega, A-
la- la-ô que calor. Pixinguinha deu molho, colocando a cozinha em
ordem com percussão bem brasileira. Pausa. Tio Faustino era um tremendo
percussionista e boa praça que fazia parte do Grupo da Velha Guarda,
outra banda montada pela turma. Convidados por Mr. Evans, diretor da
Victor, que trabalhou muito tempo com esses compositores e cantores, a
Velha Guarda compareceu em peso. Tio Faustino havia criado sua própria
percussão, batizando o instrumento com o nome de omelê. De formação
técnica, Mr. Evans implicou com o som estridente, criando um impasse que
só se resolveu quando tio Faustino, invocado com a situação, falou: se
o meu omelê não gravar, vou sair daqui, matar um galo e oferecer para
Exu. Quero ver quem tem o santo mais forte: eu ou esse americano!
Ellington enfrentava dificuldades com o crescimento
da música comercial e as mudanças no mundo do entretenimento. Não só
ele como todo o mundo do jazz: Charles Mingus, outro excepcional,
Count Basie, Benny Goodman e tantos mais. Tal fato traria novas transformações.
O pessoal chamava de música do Mickey Mouse, entediado pelas
harmonias e ausência de improvisos. Chegando a um meio termo para segurar
a onda, faz modificações no repertório. Pessoalmente, imprimia mais um
salto qualitativo em sua produção e na consolidação da carreira, como
aquele que empurrava à frente o horizonte do jazz. Durante os anos
de guerra, vieram Black, brown and beige, considerada outra masterpiece
sobre a saga negra na América, além de Deep South, de 1943, e Perfum
suite, de 1945, para apenas ressaltar as mais célebres. Em seu
retorno à Europa, em 1950, a aclamação vinha dos públicos do jazz
e do clássico. Em 59, concluiu sua versão jazzística para o Quebra-Nozes,
de Tchaikovsky. Os anos 60 não foram diferentes, durante os quais
trabalhou com Ella Fitzgerald. Governos faziam encomendas de composições,
uma delas a Suíte liberiana, para o centenário da pequena República
Africana.
Em 1965, realizou um velho sonho, voltando à Grace
Cathedral, para apresentar o Concerto Sacro para milhares de fãs.
O público gostou, mas as autoridades da Igreja Batista o chamaram de
profanador. Na Inglaterra, houve grande receptividade. Em 66, excursiona
com sua amiga Ella pela Europa. Em 68, segue em turnê pela América do
Sul, de onde depois viria a Latin American suite. Em 1969, em seu
70º aniversário, Nixon lhe oferece um jantar na Casa Branca,
entregando-lhe a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta condecoração
civil, e no mesmo ano, Nelson Rockfeller, governador de Nova York, declara
o Dia de Duke Ellington. Empreendeu uma série de viagens com sua
orquestra, incluindo uma excursão à União Soviética e a Londres, onde
tocou o Terceiro concerto sacro. Era um pique exagerado para uma
orquestra, cujos componentes se encontravam entre 60 e 70 e poucos anos. Pixinguinha fizera incrível sucesso, levando
Orlando Silva ao ápice cantando a valsa Rosa, aquela que diz: Tu
és divina e graciosa… popularizada em nossos dias pela bonita gravação
de Marisa Monte. Seu letrista, Otávio de Souza, era um mecânico que
pouco aparecia pela turma, morrendo jovem. Foram muitos os trabalhos na
orquestra que dividia com Radamés Gnatalli, o qual gostava de chamar a
atenção para os contrapontos do flautista. Contava que, em certa ocasião,
quando estavam ensaiando uma música em uma Rádio, Pixinguinha entrou
no estúdio caneado e fazendo outra melodia em cima da melodia. Pixinguinha gostava de chamar seus arranjos de Choro
Orquestral, com formação instrumental idealizada por ele e que passou a
ser uma linguagem da música brasileira. Como compositor, só encontrou
alguém para solar suas músicas, além dele: Benedito Lacerda. O choro Por
Que Sofres? Com 148 compassos era uma delas. Urubu malandro, Um a
zero, hoje peças clássicas do gênero. Amigos até debaixo dágua,
este era sua cara-metade. Quando Pixinga voltou a passar maus momentos com
as prestações de sua casa atrasadas, sensibilizado, Lacerda, de ótimos contatos,
conseguiu da editora Vitale adiantamento por futuras gravações que
resolveu a situação. E da RCA, obteve o contrato por 25 discos com ele e
Pixinguinha. Em troca, seria agora o seu parceiro em todas as músicas que
ele gravasse. Humm… Bem… Ora, ora.
Na dupla com Lacerda, na Rádio, assumiu o saxofone,
porque suas mãos trêmulas já não atendiam a habilidade que a flauta
exigia. Depois que trocara a flauta pelo sax, nunca havia dado uma explicação,
nem ao público nem aos amigos. Até o dia em que insistiram e ele se saiu
com essa embromação: Um dia cismei que não tocava mais como queria.
Comecei a ter medo de que notassem os defeitos que eu notava em minha
execução. Tempos depois, vi uma imagem de São Francisco de Assis
falando aos peixes, que botavam as cabecinhas fora das ondas para ouvir o
Santo. Pensei: Pixinga, você já tocou em um navio e os peixes não
botaram a cabecinha de fora. Você precisa aprender mais flauta, Pixinga.
Parei com medo de ficar doido. Em uma entrevista, falou: Um dia vi
que estava demais e resolvi parar. Quando cheguei no armazém o dono abriu
a garrafa e eu, cheio de tristeza, olhando para ela decidido a não tomá-la,
pedi um papel. Foi a ocasião em que fiz aquele chorinho Briguei com
Virgínia. Virgínia era o nome da cachaça. Era esse o homem. Ou a
criança. Era a época de ouro da Rádio Nacional. Na Rádio
Tupi, carnavais e programas de auditório revelavam novos nomes, novos
compositores. Pixinguinha escrevia arranjos, melhorando as músicas
apresentadas, em um convívio sempre muito próximo com os jovens músicos.
Se vocês repararam nos nomes das composições da época, dá para
imaginar o clima de informalidade e molecagem: Fica calmo que aparece,
André de sapato novo, Proezas do Solon, Agüenta, seu Fulgêncio, Isto não
é vida, Cangote cheiroso, Não sou mais trouxa, Manda brasa... Esta
última, aliás, foi feita porque, quando estava no hospital, toda vez que
a enfermeira chegava com seu prato preferido, carne assada, que era também
seu apelido, ela dizia: manda brasa, Pixinguinha. Na juventude,
quando toda a tropa foi expulsa de uma pensão por causa da música
incessante, levando suas tralhas, foi tocando até à nova moradia. Ao ver
a turma, o português sentenciou: Aqui vocês não ficam.
Duke Ellington morreu em 1974, Pixinguinha em 1973.
Um aristocrata, o outro boêmio. Um escultor e desbravador de sonoridades,
o outro poeta das melodias, virtuose da flauta. Mas a comparação não
deve ser total. São dois mundos diferentes, dois países. O fato é que o
jazz se consolidou mundialmente, ramificando-se em diversas
linguagens, já que é uma obra em progresso. Desde sua pré-história,
do blues ao swing, do bebop ao cool, do hot
à fusion, gêneros fundados por gênios, o jazz criou em
seu torno uma indústria que faz a retroalimentação permanente, com
publicações sérias, formação de críticos, programas em rádio, TV,
gravações, festivais, escolas musicais etc. Como obra aberta, o jazz tende sempre a crescer e criar novas linguagens. Hobsbawn desfaz outro mito, quando prova que, à exceção dos cantores, a quase totalidade dos músicos de jazz, negros ou brancos, vem da classe média com acesso ao estudo. Nas décadas de 50 e 60, trabalhando com o pianista e orquestrador Gil Evans, considerado por Ellington uma das maiores personalidades do jazz, Miles Davis fez discos hoje históricos, como, por exemplo, Sketches of Spain, um trabalho magnífico sobre o Concerto da Aranjuez, entre outras peças. O choro, por maiores que sejam os esforços de excelentes músicos, hoje não se configura como presença marcante. Se comparamos a discografia de um e de outro, fica simplesmente risível. A grande revolução da música brasileira ocorreu com a bossa-nova, fusão do nosso sotaque ao violão de náilon com as dissonâncias do jazz. E que hoje também parece exaurida, sendo mais interessante o que se cultiva dela no exterior. |
Gracco Sílvio Braz (Fortaleza, 1954). Compositor. Contato: almofala@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Víctor Chab (Argentina). |