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revista de cultura # 1 - fortaleza, são paulo - agosto de 2000 |
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Em louvor do poeta Francisco Carvalho Adriano Espínola
Os poemas me impactaram. Mas não os entendia bem.
Talvez por não compartilhar da mesma "existência rural", em
que "tudo é memória de borboletas de palha" (v. "Certidão
de infância") ou talvez por não ter cedo me rodeado "das
muitas presenças da morte" (v. "Os cavalos e os mortos").
Mas o fato era que alguns versos e poemas me marcaram desde então, como o
"Antiode em clave de sol (3)", com seu verso inicial:
"Dei-te amor e desse combate de sonho escapei andrajoso". Ou o
antológico "Dietética", com sua ironia crítica: "Que é
que tu comes / ó filho da bomba? / Eu não como nada. / Sou a própria
fome". Mas se eu não compreendia algumas passagens era
certamente devido à minha imaturidade, porque o próprio poeta (como que
prevendo minha dificuldade) já advertira na quarta capa do livro: "Não
me perguntes demais sobre a poesia. Quem explica quase sempre mistifica.
Quando você perceber que o sentido da poesia é não ter sentido algum,
você achará sentido na poesia. Não há poesia fácil nem poesia difícil.
A medida da poesia é a totalidade do ser." Advertência que ainda
hoje trago comigo.
Porém, chapei mesmo foi com o livro seguinte, Pastoral
dos dias maduros (1977). Parecia que o poeta tinha atingido ali um
daqueles momentos raros na arte, em que a depuração da matéria, a
inspiração, a imaginação exuberante, a visão crítica do mundo e das
coisas se juntavam às múltiplas formas perfeitamente domadas. Tudo muito
bem equilibrado. Parecia contar também a experiência humana e estética,
para nos dar poemas primorosos, como, por exemplo, "Retrato para ser
visto de longe" ("Sou um ser, outro metade / que não sabe de
onde veio. / Sou treva, sou claridade. / Solidão partida ao meio / e
entre os dois a eternidade".) Ou, ainda, o "Auto do
plantador" ("Plantador, ó plantador, / esta terra me pertence.
/ Quando chover será tua, solidão, flor e semente."), uma pequena
obra-prima.
Veja, por exemplo, o "Soneto dos
ruminantes": "Este sol é uma febre que se alastra / sobre os
bichos. A luz é um anjo preto / que passeia a cavalo no esqueleto / de um
sonho. A solidão é uma pilastra / que sustenta o universo destas
cabras…" ou "Soneto para uma negra" ("Um rio irriga
a escuridão da pele, / onde um rio mais vasto se irriga. / O lago dos
teus peitos é uma artéria / onde circula a escuma primitiva.") ou,
ainda, os dez "Sonetos a Camões" e os três (alexandrinos) a
Canudos. Carvalho, neste volume, dá um banho em termos de técnica e
inspiração. Pastoral dos dias maduros é, como se costuma dizer,
um livro que nasceu clássico. E como tal permanece, no meu entender, como
um dos melhores da poesia brasileira, de qualquer época.
De lá para cá, Carvalho publicaria mais uns dez
livros de poesia. Dentre eles, o Quadrante solar, livro premiado pela 1ª
Bienal Nestlê de Literatura. Posteriormente me enviou Raízes da fala
(1996) e ali percebi um depuramento da linguagem, a busca cada vez maior
da palavra essencial, da palavra-raiz, raiz da voz. Poeta multitemático,
atento ao drama do homem contemporâneo, soube, entretanto, permanecer
fiel a dois ou três temas básicos de sua arte: a memória da terra, que
lhe fecunda a imaginação de lavrador-poeta, o cultivo dos mortos, que
lhe dá a dimensão do eterno e do efêmero, e talvez a noite, que lhe
abre as portas para o devaneio e o sonho. Percebo também uma sensualidade
latente na apreensão das coisas e na celebração da mulher, que tem
"coxas que lhe acorrentam feito âncoras".
No Ceará, a tradição literária está voltada, em
grande parte, para o mundo rural. Francisco Carvalho procede assim, em
numerosos poemas. Bem sabemos que arte não se decide no tema, mas na
linguagem. Embora não compartilhe de seu universo temático (o telúrico
e o tanático), sinto-me absolutamente à vontade para louvar a excelência
de seu canto, a alta qualidade de sua arte poética, que vem se mantendo,
ao longo desses anos, com um grau de coerência e produtividade realmente
extraordinários.
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Adriano Espínola (Fortaleza, 1952). Poeta e ensaísta. Autor de livros como O lote clandestino (1982), Táxi (1986) e Beira-Sol (1997). Contato: adrespinola@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Víctor Chab (Argentina). |