![]() |
revista de cultura # 1 - fortaleza, são paulo - agosto de 2000 |
|
Siegbert Franklin: o sonho e a memória do fazer Roberto Galvão
A partir dessa compra passei a ter um contato, de
certo modo, mais estreito com o Siegbert. Inclusive, tivemos atelier
conjunto. Essa experiência de trabalhar lado a lado com o Siegbert foi
muito enriquecedora. Vi nascer as suas primeiras pinturas. Não posso
dizer que ele era meu aluno, seria uma inverdade. O nosso trabalho, apesar
de eu ter entrado na estrada das artes uns dez anos antes, era uma
experimentação conjunta, onde o meu conhecimento servia apenas para
orientar o turbilhão de idéias e desejos que brotavam na mente de
Siegbert e, por vezes, a inexperiência dele não permitia realizar. Ele
me mostrava uma desesperada capacidade criativa, eu apenas o orientava
indicando as possibilidades de como ele poderia expressivamente
materializar essa energia. Mas nada disso tem importância diante da obra atual
de Siegbert e somente foi colocado porque me veio à mente no momento
exato de iniciar o escrever desse texto, e deixei-me mergulhar em boas
recordações.
A UNIDADE Quem acompanha as artes plásticas cearenses com um
olhar mais perspicaz pode facilmente perceber que as pinturas de Siegbert
Franklin, dos últimos quinze anos, têm uma profunda unidade técnica e
temática. Apesar de no superficial seus quadros oscilarem entre a figuração
e o abstracionismo, na verdade, o motivo é o mesmo. Mesmo há uns vinte
anos, no tempo em que o assunto ou pretexto para fazer a sua pintura era o
homem urbano, os elementos que servem de sustentação da pintura atual de
Siegbert já estavam presentes. Sobre ou sob as figuras de homens no
trabalho, de executivos, já haviam as formas e sinais que paulatinamente
foram ficando mais explícitos, ganhando força, e hoje dominam a pintura
de Siegbert.
OS SÍMBOLOS
Em 1990, o crítico Antônio Zago, da Associação
Brasileira de Críticos de Arte, comentando exposição na Galeria Paulo
Prado, dizia que esse referencial havia mudado: "Ao invés dos símbolos
típicos da cerâmica e da tapeçaria popular, o artista trabalha com
formas arquitetônicas e máquinas, artifício que se tornou a natureza
que envolve o homem contemporâneo. Siegbert Franklin passa a habitar a
galáxia freqüentada por Miró, Klee e Torres-Garcia. A ambigüidade
evoluiu. Às vezes temos a impressão de que o artista quer mais sugerir
do que mostrar. A meio caminho entre a abstração e a figuração
encontramos na presente mostra uma geometria rigorosa no fundo das telas,
contrastando com formas caóticas, cores e texturas absolutamente
rebeldes, que recusam a ordem estabelecida, transbordando o limite
racional da linha."
Não concordo integralmente com o crítico paulista.
Sei que existem acertos no que diz, mas, na verdade, as pinturas de
Siegbert da época do comentário, assim como as atuais, são construções
onde ele, manipulando elementos que garimpa no seu inconsciente, estimula
o observador a penetrar no seu mundo plástico-pictórico. O SONHO
Fazer sonhar, eis aí a palavra-chave. A pintura de
Siegbert, mais do que um exercício de estilo, é sonho. Ele não pinta
outra coisa além de suas quimeras, e faz o espectador participar de seu
mundo onírico diante de seus quadros. Ele leva o espectador, em imperceptível
transe, a um mundo que não é aquele de sonho romântico do final do século
passado, mas a uma quimera de formas e cores que possibilitam, como o
mito, vária leitura e interpretação. Nesse jogo de sonhos, Siegbert se reporta e nos
transporta ao passado e, ao mesmo tempo, ao futuro. Através da arte ele
destrói a ilusão do tempo e escapa da linearidade da história. Como
espectadores, não sabemos se estamos diante de paisagens do passado ou do
futuro ou, ainda, de fragmentos de naturezas mortas que decantaram em
nosso inconsciente; não sabemos em que dimensão estamos. O único espaço
que existe quando estamos diante de uma obra de Siegbert é o espaço que
ele nos oferece. Tornamo-nos escravos do sonho do artista, só ele nos
conduz. A MEMÓRIA Outra coisa importante na obra de Siegbert é o
registro do fazer. Cada obra traz em si um arquivo do seu modo de construção
disfarçado no jogo das cores e das texturas. Qualquer coisa que Siegbert
faça, envolvendo tudo, tem essa memória. Parece que para ele é impossível
produzir sem deixar o registro do modo como a obra foi elaborada, um dia
de Ariadne que pode salvá-lo dos labirintos da criação. Cada obra tem
uma memória petrificada do seu fazer, do clima de experimentação e das
tentativas de dominar o indomável, o desconhecido, o acidental. No
resultado final que o artista quis revelar todos os segredos da luta
travada para a construção da obra. Lá estão os testemunhos de cada
passo, das vitórias e dos fracassos, na tentativa de obtenção da forma,
da cor. Ele revela para o espectador as mesmas surpresas que teve na
alquimia do desvelamento das formas e matérias.
O PORTO
|
Roberto Galvão (Fortaleza, 1957). Artista e crítico de arte. Contato: galvao@secrel.com.br. Página ilustrada com obras do artista Siegbert Franklin (Brasil). |