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revista de cultura # 1 - fortaleza, são paulo - agosto de 2000 |
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Uma conversa com Mona Gadelha Rodrigo de Souza Leão
MG - Comecei a fazer música porque gostava muito de
ler e ouvir rádio. Desde pequena já escrevia pequenos contos e fazia
umas canções de forma intuitiva. Um dia tomei coragem e fui cantar na TV
Ceará com alguns amigos. Descobri, aos 12 anos, que era isso que eu
queria para o resto da vida. Na época, o punk ganhava o mundo e me juntei
aos amigos Sigbert Franklin e Lúcio Ricardo para fazer o nosso rock from
Ceará. Era tudo muito divertido, absolutamente underground. Mas com
tantos shows acontecendo, fomos nos profissionalizando. Ganhamos um espaço
na mídia cearense, fizemos shows em cidades vizinhas. Ficamos amigos do
Pessoal do Ceará (grupo de músicos que despontou nos anos 70, como
Ednardo, Téti e Rodger, Ricardo Bezerra, Petrúcio Maia, entre outros).
Depois nos dispersamos, infelizmente.
Eu fui fazer faculdade de comunicação, trabalhei
em jornal, rádio (tinha um programa na Rádio Universitária FM), televisão
e agência de propaganda. Começou a ambigüidade, a vontade de cantar e
compor, mas havia também a necessidade de sobreviver, claro. No final da
faculdade fiz um single independente com a cara, a coragem e a ajuda de
alguns amigos. Fiz uns shows em Fortaleza que até hoje as pessoas me
relembram, o que me deixa muito feliz. Daí meu mundo em Fortaleza começou
a ficar pequeno e eu arrumei minhas malas para São Paulo. As
oportunidades no jornalismo foram maiores e melhores. Fiquei escrevendo e
pensando em música, tentando encontrar um jeito de voltar a cantar,
compor. Conheci músicos paulistanos, fiz músicas em parceria com os
guitarristas Sérgio Cruz e João Alberto. Formamos uma banda, mas
curiosamente nunca fizemos shows. A gente só ensaiava. Não dava mesmo
para editar jornal e tocar. Em 91 fui conhecer Londres e na volta decidi
que ia voltar definitivamente a fazer música. Mas isso só foi se
concretizar em 95 quando produzi meu primeiro CD solo. Esse disco tem músicas
que vinha fazendo por todo esse tempo, como Imagine Nós, Cor de Sonho, um
hit nas rádios de Fortaleza. Mas Cinema Noir tocou bastante em São
Paulo, um pouco no Rio e Minas Gerais. Desde então venho dando muito duro
para divulgar minhas músicas. Uma das melhores formas é fazer shows. Fiz
muitos shows por todo o Brasil nestes dois anos do primeiro CD. Não há
nada mais legal do que está no palco. Recomeço tudo agora com meu novo
disco, Cenas & Dramas, produzido por André Magalhães e Alvaro Faria.
Novas canções, nova banda, novos amigos, novos lugares. Tem melhor? RSL - Mona é um nome forte e com Gadelha fica ainda
com mais força. Como surgiu o seu nome? MG - Mona é meu apelido de adolescência. Meu avô,
que era cearense, dizia que Gadelha tem origens espanhola e portuguesa.
Tem uma história interessante sobre o meu nome artístico. Uma vez
cantando num festival de música na praia, em Fortaleza, Alceu Valença
sugeriu que eu adotasse Mona Gadelha. Talvez ele nem lembre disso. Mas
ficou. RSL - A estética de um quarteto ou quinteto,
dependendo da música, é uma opção consciente e estética? É mais fácil
trabalhar com pouca gente? MG - Não pensei muito na formação. Foi surgindo
naturalmente. Tenho muita vontade de experimentar formatos diferentes. Já
tive percussão na banda. Não tinha tecladista, agora tenho. Gosto muito
de mexer nas coisas, sou inquieta. Agora, é claro que financeiramente é
mais fácil tocar com um grupo pequeno. RSL - O CD é uma tentativa, espero que bem
sucedida, de se inserir no mercado pop? Você pensou em algum público
específico quando fez a seleção de repertório? MG - Não pensei no mercado quando estava criando.
Essa preocupação vem depois, e isso é muito complicado. As pessoas
tendem a colocar as cantoras num balaio só. Como se cantora fosse um
estilo. Não têm muita paciência para ouvir com calma cada uma e ver que
existem aquelas que compõem, as que são rockeiras, as que são
transgressoras etc. Entrar nesse mercado é briga de Davi e Golias. Ainda
mais quando você é uma artista independente. RSL - Há uma variedade de gêneros, estilos dentro
do seu trabalho. Quais são as sua influências? Quais músicos estão
presentes em Mona Gadelha quando ela canta? MG - Os músicos que mais me influenciam são os
inquietos, angustiados, incompreendidos, os poetas. Tem uma lista imensa.
Acabei de ver um show de Marianne Faithful em São Paulo. Sem dúvida que
ela é uma referência. Também John Lennon, Joni
Mitchel, Janis Joplin, Lou Reed, Mutantes, Tom Jobim, Rita Lee, Jimi
Hendrix, Leonard Cohen, John Cale, Radiohead, Morrissey… RSL - Você diz, em O amante: "já disse que não
vou abandonar o meu lar", e, em Johnny você vai a guerra: "Vou
provar a vida sem rumo". Até quando deve existir um relacionamento
amoroso? Quando é necessário sair de casa?, ficar em casa? MG - O relacionamento deve durar enquanto não
pintar o tédio que, como dizia Oscar Wilde, é o maior pecado. Saí de
casa cedo porque senti necessidade de ficar mais livre. Mas é difícil,
um processo às vezes traumático, pelo menos para mim. RSL - Por que regravou Lobão?
MG - Tem muitas canções do Lobão de que eu gosto.
Fiquei entre Por tudo o que for e Chorando no campo, que também é
igualmente bela. Gravo e canto músicas que tenham a ver comigo, que eu
goste de ouvir. RSL - Suas letras falam de amor: Para indagar com
uma deles: "só cama é muito pouco"? MG - Depende. No caso da música Ouvindo o Coração,
de onde essa frase foi retirada, a paixão é muito grande, por isso que só
cama é muito pouco. RSL - Você considera letra de música poesia ou é
uma confissão bem feita? MG - É legal quando uma letra é tão boa que pode
ser um poema. Tem centenas de casos assim. Mas a letra faz parte da canção,
foi escrita para essa função. É diferente. RSL - O jornalista Xexéo, do O Globo, disse que
hoje em dia seria impossível aparecer um compositor com a qualidade de um
Chico Buarque, isso devido à falta generalizada de apoio e também devido
à ausência de renovação. Qual seria a solução para uma maior divulgação
da música de qualidade? MG - É utopia, mas a solução seria a melhor
distribuição de oportunidades na mídia. Rádios que tocassem mais gente
nova e não só os listões das grandes gravadoras. RSL - Um LP que custava cinco reais é, hoje, um CD
que não sai por menos que 17 reais. A passagem do vinil para o CD não
foi um golpe mercadológico? MG - As novas tecnologias são um fato, não dá
para voltar, e eu prefiro ficar com os benefícios, embora tenha CD e LP.
Quanto ao preço do CD, também acho caríssimo. Pode ser bem mais barato.
Chego a vender os meus em shows a R$ 10,00 só para possibilitar a compra
por parte de mais pessoas. RSL - Você utiliza o computador para compor? Qual
uso faz da Internet? MG - Ainda não, mas tenho muita vontade. Quanto à
Internet, não vivo mais sem ela. Uso intensamente. Neste momento, é o
melhor meio para divulgar discos independentes. RSL - Qual deve ser a função do músico para a
sociedade? MG - Principalmente divertir. Se desse para ajudar a refletir e transgredir, também seria ótimo. |
Rodrigo de Souza Leão. Jornalista. Integrou a editoria da Agulha em seus primeiros números. Foto de MG por Marise Rangel. Contato: pobox@tripod.com.br. Página ilustrada com obras do artista Víctor Chab (Argentina). |