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revista de cultura # 1 - fortaleza, são paulo - agosto de 2000 |
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Leonel Góngora ou o erótico sublime José Chalarca
Góngora foi para os Estados Unidos no ano seguinte,
1952, para continuar estudos na Escola de Belas Artes da Universidade de
Washington, em Saint Louis (Missouri). Ramírez Castro ficou na Colômbia
para trabalhar silenciosamente em sua obra, primeiramente em Manizales e
logo em Bogotá, até morrer tão ignorado como viveu. Os anos de estudo na Universidade de Washington
foram definitivos para a orientação de sua tarefa criativa. Ali foi discípulo
do pintor expressionista alemão, Max Beckman, e do também pintor alemão
Werner Drewes, vinculado ao movimento da Bauhaus. Outros de seus professores foram o mestre William
Fett, que militava nas trincheiras do Surrealismo, e Philip Guston, que
lhe transmitiu as teorias e conceitos do Expressionismo Abstrato. Em sua
formação universitária, há que se acrescentar o clima cultural que se
vivia em Saint Louis, pátria do poeta T. S. Eliot, do dramaturgo Tennesse
Williams e do romancista William Burroughs. O contato com esses mestres, as vivências de Saint
Louis, com esse rico sabor do sempre comovente e conflitante sul americano
e a não menos rica bagagem emocional que levava de sua terra natal
marcada pela violência inclemente, foram, sem dúvida, fatores
condicionantes da orientação de sua obra pictórica e de sua concepção
do papel do artista, do criador, de sua responsabilidade e de suas criações
no mundo que devia enfrentar.
Da Itália regressa carregado de emoções e experiências
plásticas. Detém-se brevemente em Nova York para logo seguir a caminho
do México, onde chega em 1960. Na capital azteca encontra-se com um grupo
de intelectuais e pintores, comprometidos com um movimento cultural que
busca dar um novo ar não somente à pintura mas também a toda atividade
criadora na Cidade do México. Os pintores inscritos no figurativismo
mexicano são: Corzas, Icaza, Sepúlveda, Belkin, Cuevas, Muñóz,
Gironela e Ortiz. Com eles e trabalhando ombro a ombro, fazem surgir um
neo-figurativismo que, por sua força e consistência, obtém o
reconhecimento internacional que se distingue com os nomes de Interiorismo,
algumas vezes, e Nueva Presencia, em outras. O talento pictórico de Góngora, sua identificação
com os propósitos e objetivos dos artistas mexicanos, a personalidade, o
vigor e a projeção da obra que cria dentro do processo de estruturação
do novo movimento plástico, fazem com que os conhecedores e a crítica
mexicana o considerem como um conterrâneo, mais ainda, como um expoente
destacado da pintura mexicana. Parece que o destino havia condenado Leonel Góngora
à transumância. Mesmo que sua residência, por razões de trabalho,
estivesse nas vizinhanças da Universidade de Massachusetts, aproveitava
todas as oportunidades que lhe davam os horários de aula e as temporadas
de férias para viajar, não tanto pelas viagens em si mesmas, mas sim
para ganhar experiência, enfrentar novas vivências, polir seu ofício,
enriquecer sua temática, confrontar seu afazer pictórico e atualizar seu
saber.
Desde o ano de sua partida, em 1952, não voltou à
Colômbia senão em 1963, quando, a convite de Marta Traba, diretora do
Museu de Arte Moderna, exibiu uma exposição em seus muros.
Mas talvez o aspecto mais relevante das visitas de Góngora
à Colômbia é o de que tenha podido mostrar sua obra e manter o mundo da
plástica local atualizado e informado dos últimos acontecimentos da arte
nas mais conceituadas praças da vanguarda na arte continental: Nova York
e México.
Leonel Góngora já não pinta mais (morreu em 26 de
julho de 1999 em Boston, Mass) e por esse decreto inexorável do destino
que alcança a todo o gênero humano, com sua morte a obra de sua criação
chegou ao ponto máximo de concreção. Já é. As duas polaridades e obsessões da arte de Leonel Góngora
- escreve Shifra Goldman - são a violência e o sexo. a primeira reflete
sua experiência com a violência em sua nativa Colômbia e a Segunda como
uma reação à expressão de uma estrita formação católica. Diz Góngora:
O sexo é uma manifestação de que inteligência, violência e repressão
sempre estão juntas. Para os latino-americanos, as deformações da educação
sexual trazem o peso dos séculos. Temos vivido política e sexualmente
reprimidos.
Góngora sempre foi fiel a estas obsessões que,
mais do que obsessões, foram visões descarnadas da realidade
latino-americana que somente as mentes privilegiadas são capazes de ver,
não somente de ver, mas sim de dimensionar e medir seu alcance. Viu como a sociedade que se formou ao término da
conquista espanhola e da mudança de comando nas nações surgidas das
guerras de independência edificaram seu poderio prolongando a divisão do
território do homem em duas províncias: a temporal e a eterna. Também,
como uns quantos se apossaram da província temporal tangível na terra e
seus produtos e trataram por todos os meios de vender aos demais a província
intangível da eternidade, o céu e seu gozo. E viu também como uma minoria dividiu a exploração
e os lucros do temporal e do eterno e a impudicícia com que foi
sacrificada a maioria para que tudo rendesse o máximo e ninguém se
atrevesse a discutir ou por em dúvida a legitimidade de sua pretensão e
para que tal fosse conseguido se recorreu à repressão e à violência.
As mulheres nuas excitadas e excitantes estão
presentes em todos os estágios de sua aventura plástica. E estão ali
para dizer que o sexo é inteligente e que o sexo é vida e que o sexo é
arte.
Suas madonas em duas das quais aparece um jovem de
gesto plácido que suga um pé túrgido enquanto a mãe acaricia com sua mão
de unhas longas o sexo incipiente porém propiciador de gozo, estão em
sua obra para mostrar que as crianças também têm sexo e desmentir a
estampa estereotipada de uma inocência fincada na negação.
Todas as imagens eróticas que povoam a obra de Góngora
estão ali para promulgar o exercício do sexo pelo próprio sexo, pelo
prazer de sentir, independente de sua função frustrante de procriar. A
pintura de Leonel Góngora foi sempre a mesma. Jamais fez concessões. Por
isto, não há uma única obra sua em edifícios públicos e nos escassos
museus do país estão somente aquelas que têm que estar ali porque foram
distinguidas com prêmios nacionais. Ignora-se o propósito e se desconhece por que a
obra de Góngora, em seu permanente trasfegar pelas mais prestigiosas
galerias da Europa e dos Estados Unidos, foi e é a presença de uma das
mais logradas expressões da plástica colombiana. Góngora se foi. Mudou sua presença pessoal, passageira ao fim e ao cabo, porém nos segue acompanhando com sua obra concebida e realizada em seu estilo, difícil de descrever - como anotou Terry Allien -, mas que uma vez vista não se pode confundir com a de nenhum outro. Fiquemos agora com o eco de suas palavras na última entrevista concedida à revista Común Presencia uns meses antes de sua morte: De alguma maneira todo o mundo faz o de Sardanápalo, o que se ama deve estar sempre nos finais. Mas só devemos levar o intangível: rostos, beijos, matizes, poesia… Minha obra é minha casa do olho e é ali onde me oculto da morte. |
José Charlaca (Colômbia, 1941). Narrador e ensaísta. Autor de livros como Color de hormiga (1973) e La escritura como pasión (1996). Ensaio originalmente publicado em Común Presencia # 11 (Bogotá, 1998). Traduzido por Floriano Martins. Página ilustrada com obras do artista Leonel Góngora (Colômbia). |