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revista de cultura # 1 - fortaleza, são paulo - agosto de 2000 |
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Um encontro com Per Johns Floriano Martins
FM - Estimando tua condição de filho de
imigrantes – esse ser ambíguo e privilegiado, ao mesmo tempo
estrangeiro e nativo –, pode-se ligá-la à condição essencial do
poeta, vivência a partir de um duplo exílio, em que a realidade será
sempre observada sob dois enfoques: o dentro e o fora de cada evidência. Querer
viver simultaneamente nos dois mundos, o factual e o onírico, esta
seria a obsessão central de Per Johns?
PJ - É uma síntese adequada do sentido profundo de
minha trilogia, uma duplicidade radical, de raiz. E chamar de obsessão
esse duplo exílio não me parece fora de propósito. Ele se esgalha em múltiplos
aspectos. Acoplada à duplicidade ou inerente a ela existe a estranheza de
uma vida que se afasta de si mesma, que se observa e se manipula de fora
para dentro. Nesse sentido, o mundo onírico é mais verdadeiro do que o
factual, porque se reporta a raízes que o mundo factual – vale dizer,
construído – perdeu de vista. A cisão dos personagens não é só dos
personagens; é de nossa cultura coletiva. O que distingue os personagens ficcionais
das pessoas reais é a consciência da cisão. O risco de ser
chamado de louco.
FM - Umas curiosidades soltas: a verossimilhança
é aspecto levado em conta? A intensidade se contrapõe à densidade? Há
abordagens de maior ou menor significado? Quais os truques para se
deslocar a fonte da confidência? Calma. A pergunta é outra. Até que
ponto a dissecação de um texto pela crítica correspondente à
inquietude criativa?
PJ - A dissecação de um texto corresponde à
vivissecção de um o organismo. Passa-se a compreender como funciona o
mecanismo, suas partes interligadas, mas mata-se o significado.
Sacrifica-se a vida, que é um dentro inextrincável. Em outras palavras,
a vida é sempre particular e inapreensível. Nesse sentido, para
ater-me a um exemplo que me é caro, eu perguntaria: são verossímeis as
aves de arribação? Explicam-se? FM - Defende Milan Kundera que um romancista
deve sistematicamente dessistematizar seu pensamento, dar um pontapé na
barricada que ele mesmo ergueu em torno de suas idéias. O que pensas a
respeito? PJ - Um dos personagens nodais de Navegante de
opereta, o professor Frater Taciturnus, é uma encarnação clara
desse pensamento de Kundera. Ele está sempre dando pontapés nas
barricadas que o defendem de si mesmo, pondo-se solto no ar, sem chão,
fadado a recomeçar sempre. Como Sísifo. O narrador define o que ele quer
dizer, assim: "Em suma, joga-se fora a escada com que se subiu
pergunta acima". Tenho muitas afinidades com Kundera.
Tangenciamo-nos. A propósito, fui um dos primeiros a mencioná-lo no
Brasil, em artigo para o jornal O Globo, em 05/11/78. FM - Ao conversarmos sobre uma menção a Stefan
Zweig, em entrevista que fiz ao poeta Donizete Galvão, me disseste: o
pior da guerra é que seus horrores são por assim dizer higienizados com
a traição das palavras, justamente a ferramenta de trabalho de quem
precisa se concentrar na poesia. Vivemos em uma sociedade em que as
palavras são traídas constantemente. Ao serem esvaziadas de sentido,
perdem por completo qualquer valor. Curiosamente esse esvaziamento de
sentido é compactuado por algumas tendências estéticas – quer
pensemos na poesia pura ou no Concretismo. Como restaurá-las?
FM - Algo intrigante: Beckett buscava o que ele
próprio chamava de desintegração completa, ou seja, nenhum
eu, nenhum ter, nenhum ser. Já o João Cabral optou por uma poesia
onde o eu não falasse diretamente, mas sim através das coisas.
Quaisquer que sejam as técnicas empregadas, não acreditas que toda criação
seja autobiográfica? Tais técnicas aparentemente insólitas não te
parecem apenas variações de uma afirmação humanista, que surgem
exatamente a contrapelo de uma banalização do ser humano?
PJ - Transferiria o que disse da leitura para a
vida. Ao contrário de ter uma vida que é de todos, urge que as pessoas
tenham uma vida que é sua. É claro que isso só é possível no nível
onírico e não factual. Por trás das identidades factuais que o
cotidiano impõe é preciso que cada um descubra seus veios oníricos
diferenciados, e viva-os, aquém e além de todas as necessidades práticas.
Abre-se aí uma riqueza de perspectivas que é o contrário da banalização
e do tédio de estar-se a todo instante à procura de uma qualquer coisa
exterior, desprezando o manancial de si mesmo. Pelos mesmos motivos,
deve-se entender qualquer criação autêntica como necessariamente
autobiográfica. A objetividade é fruto de uma escolha.
FM - Não escondo minha predileção, diante de
tua obra, por Navegante de opereta (1998), por encontrar ali o
melhor retorno à ficção, no sentido de uma unidade entre lírica e
narrativa. Trata-se, portanto, de escrever não governado pelos ditames de
um gênero literário, mas sim pela fascinação que lhe desperta sua visão
de mundo através da escrita?
PJ - Acredito que toda minha obra se assenta em um
tripé: a narrativa, a poesia e o ensaio. Estão misturados, não podem
ser separados. Os três estão sempre juntos, embora haja predominância
de um ou outro dependendo das circunstâncias. Por sua própria natureza e
por sua posição dentro da trilogia, o Navegante de opereta é
mais reflexivo e panorâmico. A característica do personagem dúplice
radica em uma unificação que, nem bem se impõe, e já se estilhaça de
novo em múltiplas imagens, onde se alternam veios ensaísticos, poéticos
e ficcionais, mas o fio da meada da urdidura é a baba de aranha, como vem
expresso na pequena quadra que sintetiza o personagem: De minha
baba/Vou tecendo os fios/Da teia dura e diáfana/Que em mim me emaranha. FM - A viagem interior rejeita toda cartografia
prévia. Não se realiza na racionalização, mas antes na identificação.
O curso seguido por uma persona dupla, na verdade uma conjunção
entre protagonista e antagonista, no decorrer desta tua trilogia, não é
senão uma afirmação da essencialidade da personalidade. Recorrendo a
uma imagem tua, até que ponto a conquista de uma voz própria é filha de
um fracasso luminoso?
FM - Observo com curiosidade a inclusão de um
desenho de Paul Valéry na capa de teu Navegante de opereta, livro
que traz em sua coda uma epígrafe de Clarice Lispector. Novamente a paixão
pela contradição? René Magritte refere-se à precisão de Valéry
lamentando que seja destituída de paixão. Ao contrário, a paixão de
Lispector não raro carece de precisão. PJ - A história de minhas capas é curiosa. As de Cemitérios
marinhos às vezes são festivos e Navegante de opereta estão
interligadas pelo contraditório elo de Paul Valéry, no primeiro caso
mercê de uma foto que eu mesmo fiz em Sète, no magnífico cemitério
marinho em que foi sepultado o poeta. E no segundo, graças a um desenho
do próprio Valéry, em que retrata Zenon de costas para o mar e a vida.
Mas não é uma ligação acidental. Tanto em Cemitérios marinhos às
vezes são festivos como em Navegante de opereta insere-se como
elemento absolutamente central o poema Le cimetière marin, que é
provavelmente único na obra de Valéry, por ser não só autobiográfico
como de certo modo passional. Ou por outra, por ser contra Valéry.
Simbolicamente é como se o próprio Valéry, talvez involuntariamente,
estivesse a ilustrar no desenho a veemência quase passional de um dos últimos
versos do poema: Le vent se lève!… Il faut tenter de vivre! E
assim, na visão do protagonista do Navegante de opereta, ensaiasse
uma espécie de mea culpa. Toda a trilogia é um embate entre precisão
e paixão, justificativa suficiente para a epígrafe aparentemente
contraditória de Clarice Lispector, na coda. FM - Recorto uma colocação tua: Acredito
que só há possibilidade de organicidade na fragmentação. Refiro-me
então ao Kundera uma vez mais: os trechos fracos de uma obra e sua
essencialidade. Se pensamos em suspense, paixão, terror, imaginamos alguém
apreensivo, embevecido, assustado. Mas nenhum romance é inteiramente isto
ou aquilo. Seus trechos menores não viriam exatamente de uma falha
de interpretação, incluindo aí o equívoco da catalogação genérica? PJ - Para entender que fragmentação significa mais
do que uma coleção de fragmentos, repetiria o que antes já disse. A idéia
de que o romance abriga um universo em que entram o ensaio, o poema e a
narrativa propriamente dita. Um espelho da vida. Nesse sentido, o fluxo
de consciência, no Ulisses, de Joyce, é antes um agrupamento
de estilhaços do que uma narrativa, espécie de instantaneísmo
tradicional. E pois, se é que entendi a pergunta corretamente, não
existem trechos menores e maiores. Existe um todo indestrutível,
mas, se possível, vivo. FM - Em grande parte a rejeição do Surrealismo
a Jean Cocteau deu-se a partir do preconceito de Breton em relação à
homossexualidade. E havia um caráter judicioso incontestável na palavra
de Breton. Quando Cocteau diz que sem resistência não se pode fazer
nada é o mesmo raciocínio de João Cabral ao defender a necessidade
da rima por se tratar de um obstáculo. Lembrei-me de Cocteau por uma
afirmação dele de que a arte é um sacerdócio terrível.
Concordas?
FM - Em entrevista concedida ao Ivan Junqueira,
mencionas que alguns grandes escritores brasileiros são mais
cultuados do que propriamente cultivados. Concordo contigo acerca da enorme
vitalidade de nossa literatura. Está claro que somos nosso próprio e
único problema. Em parte há o fato de que esta literatura deixou de
ser vista de forma interligada. Contudo, a raiz dessa anulação de
perspectiva me parece ser a instalação do que chamas de colônias
privilegiadas. Na prosa, esta ação entre amigos fez com que fosse
diluída a importância da obra de autores como Cornélio Pena, Lúcio
Cardoso, Aníbal Machado, Campos de Carvalho. Já no verso, raramente
percebemos a grandeza da obra de Emílio Moura, Dante Milano ou Dora
Ferreira da Silva. Quais os focos dessas colônias?
PJ - Provavelmente não é um fenômeno só brasileiro. É humano, somos gregários por natureza e, um pouco, avestruzes. Juntar-se em colônias de donos da verdade é sempre mais confortador do que aventurar-se na incerta batalha da dúvida. Uma terra de ninguém. A tese certa de hoje desafia a nenhuma tese de sempre. Perceber o quanto há de demoníaco na chamada realidade e na sucessão de verdades, cronológicas e locais, é um convite ao desespero. E ao mesmo tempo, paradoxalmente, a única possibilidade de redenção. Ilustra-o de forma paradigmática uma obra-prima de todos os tempos: Medo e tremor, de Soeren Kierkegaard. É impossível sair de sua leitura como se era antes. Recomendo-a a todos aqueles que querem começar por salvar-se a si mesmos antes de salvar o próximo. |
Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta e ensaísta. Um dos editores da Agulha. Visite: www.revista.agulha.nom.br/ageditores.htm. Foto de PJ por Jytte Bjerregard. Página ilustrada com obras do artista Víctor Chab (Argentina). |