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revista de cultura # 1 - fortaleza, são paulo - agosto de 2000 |
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José Kozer: um jogo de espelhos concêntricos Cláudio Daniel
Todo idioma é um oceano. Escrever na língua
materna na rotação do traslado, sob o ritmo da máquina (puro animal) e
o espectro de Whitman, novo casulo da crisálida. A borboleta: uma poética
em mutação que recusa o estático, o linear, a geometria do mármore. A
arte verbal de José Kozer é dinâmica, inquieta, uma dança descontínua
que explora as possibilidades do movimento. Sua escritura não é tecida
no espanhol clássico, casto, mas em um idioma mesclado, impuro,
somatória de outros códigos lingüísticos, esperanto do exílio:
ouvimos em contraponto o falar cubano, o hebraico da sinagoga, o iídiche
familiar, o inevitável inglês de Nova York e a herança literária de
Quevedo e Cervantes. Além dos timbres do shofar, das castanholas
andaluzas, da guitarra habanera e do piano de blues ouvimos
também ecos da língua de Rilke, Trakl e Celan. Toda escritura é
ocultamento, disse o poeta, e precisamos descobrir, nessa floresta de
signos, suas várias camadas de som e sentido. Aqui é Babel, a torre mítica,
vozes no espelho da Voz. TEXTO ANDRÓGINO O vocabulário de Kozer, matéria plástica,
incorpora Góngora e a botânica, o Oriente e o mambo, a Cabala e o
lupanar. Essa mescla, mestiçagem de termos eruditos e populares, de arcaísmos
e neologismos, do léxico cubano e caribenho faz da obra de Kozer uma ópera
ao mesmo tempo barroca e moderna. A sintaxe fundada nessa língua criolla
é outra máscara, outra persona do autor camaleão: um tecido
feito de silêncios e rupturas, de elipses e parêntesis, de frases
descontínuas que fraturam o discurso e pequenas colagens verbais que
alteram o sentido habitual das palavras. As inusitadas construções
verbais de Kozer abrem novas possibilidades de leitura, além da lógica
gramatical, pela combinação analógica dos termos. Assim, por exemplo,
em O mendicante: Frutais estatuetas, / caudal; estojos e
arquitraves, caudais: / resvala pela pura farinha do ar a / espiga a uma
configuração de pães, tortas de azeite; / e as águas resvalam (rosa)
(erva-doce) / (camomila) à redondez sem asas de um / jarro: uma xícara
me queima as mãos, ouço / verter, vejo minha cicatriz, ouço crepitar /
a queimação em minhas impressões digitais.
A associação de idéias, em Kozer, nunca resvala
na escrita automática dos surrealistas; recorda, antes, as técnicas de
colagem e de montagem da pintura e do cinema. É uma arte rigorosa,
construída como um mosaico, mandala ou rosácea. As unidades léxicas são
coladas como azulejos para fazer surgir o desenho proposto na escritura.
Assim também no poema Prelúdio: vivo vocábulo o animal, o
rubro vivo da letra tateia à saga de / sua forma: égua? alimária? pégaso
roto do galo? (…) uma cegonha rasante do céu fazia tremer um campo de /
papoulas, um martim-pescador roçava tábula rasa, peixes. Jorro e
jogo verbal, colcha de retalhos, toalha rendada, tapete ornado de
arabescos: cores, linhas, volumes, arte de fiandeira. Kozer não busca o breve, o conciso, o reduzido; ao
contrário, ele é caudaloso, florestal, oceânico. Seus versos são
longos, bárbaros, como os de Gerard Manley Hopkins, e muitas vezes
não têm divisões em partes ou estrofes. É quase um amálgama de prosa
e poesia, texto andrógino, analógico, poroso. No entanto, não devemos
nos enganar: o poema longo, para Kozer (leitor do Princípio poético,
de Poe) é um paradoxal conjunto de peças curtas, cascata ou fluxo
seminal de haicais. Mandala, símbolo único formado por inumeráveis
formas geométricas, triângulo dentro do quadrado dentro do círculo, que
um súbito golpe de mão desfaz em pó, indício da impermanência: nada
perdura, nada deve perdurar, e as formas cambiantes recombinam-se em
outras formas, na saga circular do universo. O MENOR É O MAIOR
Em sua teogonia, Kozer elabora pequenas
narrativas em que resgata a vida doméstica da viúva Chu, o incêndio de
um celeiro por dois irmãos, a figura de seu pai, vestindo traje azul
listrado e sapatos de duas cores e o suicídio de Kleist, culminando
no encontro de Jacob Böhme com Deus. Sua fabulação, porém, não cai na
armadilha discursiva, no romance em versos, na hagiografia do excluído; a
trama é recortada, desfiada, como se o autor buscasse o inacabado, o
desfeito, a pedra irregular.
A visão do poeta está menos centrada na ação
dramática, no suposto núcleo temático, do que na paisagem que presencia
os eventos. Assim, por exemplo, em Madame Chu: Madame Chu (ao
amanhecer) guardanapos de linho, chá verde (ou chá / do Ceilão) e uns pãezinhos
à base de gema (levíssimos) / marmelada de vacínios. / E como uma
natureza-morta um ovo duro em seu cálice / pequeno de porcelana (toalha
orlada com uma franja / de cruzinhas vermelho amarelo vermelho) gravada,
dois limões. / Modorra, ainda: ontem à noite brotaram de seu sonho uns
escaravelhos / difusos, passou um porta-voz do Imperador diante de sua /
janela (cobrindo-se de glória com um monólogo) e um / leque / se desfez. Neste poema, os objetos presenciam, testemunham a ação,
que é mínima, sugestiva, como os passos de um ator de teatro Nô dançando
em círculos. Kozer desconfia dos grandes gestos, da eloquência, da oratória:
uma vespa que pousa no cristal do espelho é para ele ação suficiente.
Para minar a retórica e sua falsidade, o poeta adota uma nova
objetividade, constrói uma visão de mundo despida de uniformes e do
sinal de continência, a partir da observação do menor: rastro de uma
poeira que aspira a ser (gris). Lente angular que focaliza o farelo, o
fiapo, o pó.
AVESSO DO SUBLIME Edmund Wilson, em O castelo de Axel, apontou
duas vertentes na poesia simbolista: a sério-estética,
representada por Mallarmé e Verlaine, centrada na musicalidade, no jogo
intelectual, nas impressões diáfanas e sinestesias; e a coloquial-irônica,
de Laforgue e Corbière, que incorpora o humor, o grosseiro, o sexual e a
fala cotidiana. Em Kozer, em seu barroquismo mestiço, notamos a presença
destes dois movimentos, um solene, cerebral, outro picaresco, buscão. Em Amor para uma jovem aspirante a poeta, o
poeta utiliza um estilo coloquial bem-humorado, com indisfarçado viés erótico:
Em Fontainebleau vida minha / tomaremos uns canecos de cerveja / sob um
guarda-sol (Cinzano) uma tacinha / de curaçau, menina, e beliscaremos /
uns petiscos (passe-me o caroço / da azeitona). Depois / ao trabalho
firme, que se intitule o poema / ‘Fuzilamentos de um cavaleiro cor
siena’ / onde haja uma dama e seu amor que morra / nas guerras napoleônicas.
Para / um dia de trabalho é suficiente: subamos / em Fontainebleau até o
aposento, ponhamo-nos / a esboçar arvorezinhas nuas no início / da
primavera, despedidas / sob o pálio dos amantes de Teruel, Verona / e com
suma grandiloqüência (Vigny) J’aime / la majesté des souffrances
humaines. Nesta peça paródica, o poeta faz uma contraposição entre
elementos do cotidiano, da realidade imediata e o sublime de uma
concepção kitsch do que é poético. O contexto temático
insinua ainda a sedução subliminar da jovem pelo poeta eminente,
metaforizada no final do poema: marcha a infantaria por onde quer e /
Napoleón épouse Marie-Louise, executados / como cachos num abraço.
Escrever sobre a Dama da Foice, ritualmente, como um
mistério medieval, alegoria encenada: por detrás do sarcasmo, da
falange dantesca de íncubos que sodomizam os danados, o fundo da dúvida
religiosa, haverá vida ultraterrena? Após a dissolução, a ceia dos
vermes, veremos o trono de Deus ou apenas extinção, silêncio da
escritura, ausência de nomes e formas, tudo é um círculo? Temos aqui
outra camada de significados, outra seiva ou húmus que é a demanda do
divino, roda ancestral de toda cultura humana, esfinge reencarnada. Toda a obra de Kozer é no fundo um único poema, ou antes um único, imenso verso, em busca desesperada da linguagem total, do signo primevo, que é a própria divindade. |
Cláudio Daniel (São Paulo, 1962). Poeta e jornalista. Autor de livros como Sutra (1992) e A sombra do leopardo (2001). Contato: claudaniel@ig.com.br. Página ilustrada com obras do artista Víctor Chab (Argentina). |