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revista de cultura # 1 - fortaleza, são paulo - agosto de 2000 |
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Katherine Mansfield: algumas impressões Elaine Pauvolid
Poucas foram as traduções de sua obra no Brasil. A
partir de 1992, a editora Revan começou a traduzi-las. Hoje, temos em
português os principais dos 88 contos de Mansfield, incluindo Prelude
(Prelúdio), At the bay (Na praia ) e The doll’s
house (A casa de bonecas). Estes três contos fazem parte de
uma novela inacabada. Demonstram a transição da obra de Katherine
Mansfield para o romance. Os personagens, baseados na sua vida na terra
natal, pedem mais que uma novela. Várias são as tramas e a saída só
poderia ser encontrada na estrutura de um belo romance cuja semelhança
poderíamos enxergar na obra de Virginia Woolf, no livro To the
lighthouse (Passeio ao farol). O inverso também poderia ser
dito, To the lighthouse possui a atmosfera de alguns contos de
Mansfield. Elementos da natureza, a vida íntima de um casal e suas crianças
são influências recíprocas entre autoras que tiveram contato intenso.
No entanto, Katherine Mansfield nunca escreveu um romance. Todos sabem da grandeza da obra de Virginia Woolf e
esta reconhecia o talento de Mansfield, uma das mais promissoras
escritoras daquela época e admirada pelo Clube 17, que foi uma espécie
de sucessor ao Bloomsbury. Assim, ao lado de Virginia Woolf, T.S. Eliot,
Ezra Pound, James Joyce e Marcel Proust é que era lida e comentada. Desde 1915, os Woolf planejavam ter sua própria
impressora. Alimentado o sonho, compraram em 1917 a máquina e a
instalaram em Hogarth House. Seria a Hogarth
Press. Através dela, publicaram seus próprios contos e, em seguida, Prelude,
de Katherine Mansfield. Mais tarde, receberam a incumbência de editar Ulysses,
de Joyce. Não puderam aceitar, pois a pequena Hoghart Press não possuía
condições técnicas. Secretamente, Virginia só não se negou de pronto
a publicar a grande obra de Joyce porque não saberia o que dizer.
Reconhecia o talento do escritor, mas achava que sua obra era infame.
Leve-se em conta a sensibilidade da romancista e uma identidade com Joyce
que Quentin Bell define da seguinte forma: "Parecia-lhe ter uma espécie
de beleza, mas também um brilho rude, arguto, de sala de fumantes. Joyce
usava instrumentos parecidos com os dela, e isso era doloroso, pois era
como se a pena, sua própria pena, tivesse sido arrancada de suas mãos e
alguém rabiscasse com ela a palavra foda no assento do vaso sanitário.
Também sentia que Joyce escrevia para um pequeno grupo…", e por aí
vai.
Murry foi incapaz de deixar seus compromissos como
editor e acompanhar a esposa nas idas aos lugares mais salutares para seu
estado. Analisando as cartas, pode-se supor que não se tratava de uma má
pessoa, mas que talvez não agüentasse o sofrimento e nem tivesse
grandeza suficiente para ser solidário. Assim, na maior parte do
desenvolvimento da doença, Mansfield só não esteve totalmente sozinha
porque sua amiga Ida Baker a acompanhou. Alguns de seus contos são quase transcrições
literais do diário que manteve. Um exemplo disso é o encontro com
Francis Carco - com quem estava tendo uma aventura amorosa - em pleno front
de guerra que está narrado em: An indiscret journey (Uma Viagem
imprudente). Seu talento conseguia transformar realidade em ficção a
ponto de tirar todo o realismo das cenas e dar um caráter de sonho ao que
se passou. Este talento espargia-se tanto nos contos como nos diários e
cartas. Também sua condição de inválida e a relação com o marido estão
presentes no conto A man without a temperament (Um homem
indiferente).
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Elaine Pauvolid. Poeta. Contato: pauvolid@olimpo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Víctor Chab (Argentina). |