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revista de cultura # 1 - fortaleza, são paulo - agosto de 2000 |
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Belchior & Zé Ramalho: bastidores de uma tradição falseada José Nêummane Pinto
Um dos golpes de marketing mais inteligentes da história
da Música Popular Brasileira foi a estratégia a que os tropicalistas
recorreram nos primórdios de seu movimento. Cortejaram a patuléia,
mandando o bom-mocismo e, sobretudo, o bom-gostismo da bossa-nova às
favas, mas não se esqueceram de bajular um grupo de intelectuais de
vanguarda, com prestígio e até legitimidade garantidos nos saraus e salões
das metrópoles nacionais e mundiais. Garantiram a comercialização do
produto, expondo-o na prateleira popularesca de Abelardo Chacrinha
Barbosa, no Rio, mas tiveram o cuidado de filiá-lo à melhor linhagem crítica
universitária e bem nascida, comprando a adesão culturalmente corretíssima
do grupo Noigandres, de São Paulo. Na verdade, não foi propriamente uma
compra, mas, sim, uma troca. Se ganharam com a adesão dos irmãos Campos
títulos de nobreza intelectual, Caetano Veloso e Gilberto Gil os
retiraram do isolamento aos quais, por mais ilustres que fossem ou sejam,
estavam irremediavelmente condenados. Ninguém reclamou dessa troca, já que, no fundo, não
prejudicou a ninguém, a não ser, naturalmente, à lógica plana dos
fatos. Enquanto regravava Coração materno, clássico kitsch do
repertório de Vicente Celestino, uma espécie de Andrea Boccelli avant-la-lettre
e caboclo, Caetano falava em retomar a linha evolutiva da bossa-nova,
movimento musical elitista da Zona Sul carioca, que abominava exatamente o
exacerbado romantismo populista daquele tenor de ópera circense. Enquanto
adulava explicitamente João Gilberto, guindando-o ao altar-mor do
fundamentalismo cancioneiro, prevenindo-se com doses maciças de baba
contra o folclórico mau humor do genial intérprete, o baiano mais novo
servia a seu próprio público uma espécie de xis-tudo, que, no fim das
contas, é a melhor definição do tropicalismo. Há venda, sou a favor
– era e é sua permanente (e coerente) bandeira. Ninguém nunca se esqueça
de que o mesmo Caetano que carrega o andor do gênio de Juazeiro vende a
seu eclético público doses balofas do facilitário da obra popularesca
de Peninha, que, graças ao toque mágico de sua garganta, se tornou uma
espécie de versão atenuada do bregue-chique, ao qual nunca teve acesso
Reginaldo Rossi, em benefício de quem é possível dizer que, pelo menos,
é mais autêntico.
O Brasil – como se sabe – é um país de
analfabetos. E em terra de analfabeto quem conhece vírgula é mestre, não
é mesmo? Pois então. Neste ambiente de amém, aleluia, viva nós, que
somos mais espertos, Caetano virou poeta de referência nacional, a ponto
de pôr óculos e recitar textos de um livro (Verdade tropical) em
um show que, por sinal, se chama Livro. O que leva as manadas aos
teatros do País é a dor de corno de Peninha. Mas haverá algo mais in
do que ouvir um artista de fama ler alguma coisa, qualquer coisa, em um
palco? O show Livro é o primeiro sarau brega da história da
cultura brasileira, mas, se o príncipe da sociologia, Efe-Agá-Cê,
consagrou o velho baiano moço, citando verso de sua lavra em seu discurso
inaugural, quem não haveria de virar o traseiro para o mar e se curvar na
direção de Santo Amaro da Purificação para saudar com todas as loas o
poeta entronizado? Mas, mesmo em um país em que até o presidente e
intelectual-mor não tem tirocínio bastante para distinguir um poeta de
um sambista, vai sempre aparecer algum desmancha-prazeres como Pedro Lyra
ou um sujeito irreverente como Bruno Tolentino para chamar a atenção
para as sutis distinções existentes entre uma canção e um poema –
por mais sofisticada que seja aquele e mais rústico que este seja. Há
entre uma letra de música, mesmo que seja de um gênio como Noel Rosa, e
um poema de Castro Alves, muito mais distância do que pode sonhar a vasta
ignorância presidencial sobre os mistérios gozosos da literatura e das
artes musicais. Mas, justiça lhes seja feita, Caetano e Gil não têm
culpa nenhuma disso. Não, mesmo. Isso é Brasil, minha gente, e o Brasil
somos todos nós, não apenas eles.
Depois, é bom que se diga, aqui não há demérito
nenhum de valor. Uma letra de canção pode ser boa e um poema, ruim, a
ponto de aquela ser melhor do que este. Só que poema é poema e a música
dele é o silêncio, como já ensinavam os mestres clássicos. E letra é
letra. A confusão entre uma coisa e outra serve apenas para beneficiar o
bolso de quem a instala, aumentando também a ignorância de quem fica
babando a ouvir um samba de Chico Buarque, como se estivesse fruindo um
poema de Mané Bandeira. Ora, pois!
Assim, graças a suas tintas universitárias, os
senhores do tropicalismo conseguiram o monopólio da qualidade poética no
cancioneiro popular nacional, admitindo apenas alguns sócios de escol,
como Chico Buarque e o pessoal do Clube da Esquina. Nesse pega pra capar,
sobrou para muita gente boa um lugarzinho remoto no poleiro do circo
chamado MPB. A teoria refinada, que consagrou a baboseira da tal retomada
da linha evolutiva da verdadeira bossa nova, torceu o nariz para uma geração
inteira, que foi capaz de produzir música e letra de excelente qualidade,
igual, muitas vezes superior, à média da melhor produção da bossa
nova, da geração dos festivais de MPB na televisão e da vanguarda
tropicalista. Zé Ramalho Neto, um sertanejo de voz forte e longas
canelas finas, tem lavrado nos últimos anos uma poesia densa, forte e de
grande poder de comunicação popular. Já em seu disco de estréia,
compareceu com algumas obras-primas, que serão sempre marcantes, caso de Avohai
e também de Chão de giz, só para citar as canções que têm
atravessado incólumes os últimos 20 anos, sempre frescas, sempre belas.
Mas Zé nunca teve uma crítica capaz de ouvi-lo com
a atenção que ele merecia, porque lhe falta talento marqueteiro para
explicar na teoria a prática de seu gênio criador. Ele parecia não
entender direito aquilo tudo que jorrava de sua garganta e da ponta de
seus dedos longos e isso bastava para justificar o parco entendimento da
crítica surda, que nunca o ouviu direito. Ele só queria embalar seu público
jovem e fiel com suas canções. Vigiaram-no bem e um dia flagraram um
deslize seu. Foi o bastante para crucificá-lo. Toda sua obra foi imolada
porque copiou uns versos de W. B. Yeats. Quando Caetano copia Zé do Norte
em Triste Bahia, ele está citando. Ninguém ouse dizer que ele
apenas roubou uns versinhos, até porque ninguém também sabe que Zé do
Norte já havia, ele mesmo, furtado os mesmos versinhos de algum anônimo
sertanejo perdido em um ermo qualquer do sovaco de serrote, de onde viera.
Mas, se Caetano cita, Zé Ramalho plagia. Ponto final.
Muitos anos depois do infeliz acidente, o menestrel
de Brejo do Cruz lota as platéias de um público fiel, barulhento e
animado, composto quase totalmente por jovens, que nem haviam nascido
quando ele compôs Admirável gado novo, a canção que, na trilha
da telenovela O rei do gado, o içou do poço ostracismo de volta
aos cumes da glória. Profeta visionário, foi posto em um nicho estranho,
o de herdeiro de Raul Seixas. Mas, como o maluco beleza, ele não
precisa de justificativas teóricas para fazer jorrar seu belo canto. Por
isso mesmo, segue em frente sem olhar para trás e sem explicar nada a
ninguém. Se alguém quiser fazer as mesmas perguntas que
servem de ponto de partida à verborragia baiana, linha mestra da
filosofia tropicalista, terá respostas argutas e teoricamente corretas de
um companheiro de geração de Zé Ramalho, o cearense Antônio Carlos
Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Se não lhe fazem essas perguntas, é
por algum motivo que se situa entre o não saberem bem de que se trata e não
tratarem bem o que se sabe.
A verdade é que o moço de Sobral tem uma obra,
construída também nos últimos 20 anos, que em nada fica a dever a
nenhum figurão que pertença à seleta hagiografia dos redatores de teses
acadêmicas e resenhas jornalísticas. Se Zé Ramalho é o poeta, perdão,
é o letrista que melhor transmite o gosto popular pelo absurdo
metrificado e rimado, Belchior é o mais arguto cronista do amargo
niilismo de uma geração que sangrou e berrou nos porões da ditadura
militar, sabendo muito bem que essa democracia que deles emergiu não vale
grande coisa, mas também sem saber direito o que propor em seu lugar.
Zé Ramalho, Belchior, Fagner e Alceu Valença
fizeram uma fusão que é sustança pura. Por isso, também têm
clientela – não tanto quanto a de Peninha ou a de Reginaldo Rossi. Mas
eles têm, sim, como a contemporânea Elba, uma platéia cativa, capaz de
saber ou, pelo menos, de intuir a contribuição que dão ao mercado,
injetando-lhe o que de melhor o povo sabe e pode fazer. Ao contrário dos
tropicalistas, que se autoproclamam a vanguarda da linha evolutiva da
verdadeira bossa nova, mas a falseiam, aqueles, sim, é que são os
herdeiros renovadores da tradição que Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro
instituíram. O pop nordestino que compõem e cantam é que revigora a canção popular brasileira, sem que, para isso, seja necessário engrolar todo aquele bla-bla-blá teórico, que não passa de lenga-lenga para vender xarope musical para trouxa ouvir. E dormir em paz. Zzzzzzzzzzzzzz! |
José Nêummane Pinto (João Pessoa, 1951). Poeta e jornalista. Autor de livros como Solos do silêncio (1996) e Barcelona, Borborema (1996). Foto de Belchior por Milton Montenegro. Foto de Zé Ramalho por Dario Zalis. Contato: neuman@estado.com.br. Página ilustrada com obras do artista Víctor Chab (Argentina). |