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Memória da presença: um depoimento
Hélio
Rôla
Meu nome é Francisco Hélio Rola. Nasci em 1936, em
Fortaleza. Quando criança desenhei, como todos os amigos e amigas, nas
calçadas da minha vizinhança. Desenhos a carvão, tijolo branco e caco
de telha. Depois disso veio uma longa temporada nos estudos e graduação
na medicina. Nada de arte, só estudos. Graduação e doutoramento. Nessa
época, morava em Nova York, entre 1967 e 1907, e ali encontrei um casal.
Ele, pintor; ela, escritora. Me procuraram querendo saber sobre literatura
de Lampião e bandoleiros do Nordeste. Daí, uma amizade e logo mais meu
novo interesse pela pintura, pelo desenho etc. Como sempre, de tudo o que
fazemos muita coisa não é nada até que se encontre em um determinado
contexto. É isso o que tenho feito, ao lados de outras coisas, como
a gravura, por exemplo, na qual venho trabalhando de uns tempos para cá.
De repente, por conta de uma mudança intempestiva, vi-me às voltas com
um grande embaralhamento de meus trabalhos, principalmente os papéis, os
pequenos desenhos, cartões postais etc. os cupins, a humidade, estragaram
muitas coisas. E em tal embaralhamento o tempo se foi, se foram as datas.
O jeito foi recolher tudo, sem preocupação de data, época, e juntar os
fragmentos em um contexto outro.
Os
trabalhos apresentados aqui na Agulha são colagens de técnica
mista. Utilizo, como muitos outros já o fizeram, fragmentos de desenhos,
pinturas e alguns achados gráficos, por sua vez conectados através de
pintura, desenho etc. O resultado é uma multiplicidade conectada, que
buscam um sentido outro (meu sentido) em seus fragmentos.
Há tempos os fragmentos se acumulavam, até que
resolvi conectá-los, colando e pintando retalhos de trabalhos antigos e
alguns feitos a propósito. Não é só memória, mas também memória na
presença, no presente. Futuro não é a proposta. A proposta é não
perder a perspectiva do presente, a única dimensão que experimentamos…
Passado e futuro são comentários de e sobre um presente avassalador.
As
experiências coletivas surpreendem sempre… Aprendi a pintar
pintando muro nas ruas de Fortaleza, com o grupo Aranha, entre 1987 e
1991. A partir de 1993, seduzido pelos amigos que trabalhavam na oficina
de gravura no MAUC/UFC (Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará),
na época animada pelo Eduardo Eloy, me dediquei à xilogravura e me
juntei ao grupo TAUAPE. Na prática da gravura, salvo gravar, o que pode
ser feito na nossa intimidade, como acontece com a nossa pintura, o resto
é um fazer coletivo onde se vive, ao redor de uma prensa, um clima de
procura artística de entre-ajuda e camaradagem. Na co-inspiração
criativa, onde todos os palpites são bem-vindas, e não na costumeira
rivalidade da cultura patriarcal que nos anima e diminui a
criatividade por restringir as circunstâncias da convivência. São esses
momentos e a lista de realizações artísticas do grupo TAUAPE, até o
momento, o que me anima a progredir no meu fazer artístico trabalhando
com gravura.
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