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revista de cultura # 1 - fortaleza, são paulo - agosto de 2000 |
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Tom Waits: o otimismo de um cínico Floriano Martins
Não se pode dizer que seu universo de canções
limita-se a baladas e rock, vez por outra recolhendo simpatias por tangos,
blues e rumbas. E não se pode dizê-lo pelo fato de que tal delimitação
não mais interessa, algo menor ante o somatório de identificações que
sua arte propicia. Basta atentar para o que ele próprio considera como
favoritos, onde inclui o tenor irlandês John McCormick, o compositor
argentino Astor Piazolla e cantoras como Edith Piaf, Yma Sumac e Dinah
Washington. Somem-se as predileções por beatniks como Kerouac,
Ginsberg e Gregory Corso, diversidade à qual não se limita.
Também não se restringe a uma operação insólita
de recolhimento de instrumentos e arranjos inusitados, temperados pela
colocação roufenha da voz. Visto assim, dá a impressão de que estão
ali para uma dissidência natural, como pessoas fotografadas em um ponto
de ônibus. Ao contrário, o que é aparente distorção caminha para um
destino comum, idêntico àquele encontro de situações díspares
recortado pelo Surrealismo, o sentido de revolta defendido por Breton e a
ruptura que sugerira Magritte como um caminho para a liberdade. A consonância
de todos esses artifícios resulta em uma eficácia lírica,
recorrendo a um termo de José Pierre sobre Hans Arp.
Quanto aos versos, é interessante uma fala do próprio
Tom Waits, ao dizer que "sempre quis viver dentro de canções e
delas nunca voltar". É o que tem feito: vivido dentro das canções
que lhe são favoritas, compondo outras tantas, desdobrando-as.
Reproduzindo histórias que são fontes de uma existência, recriando
cenas e falas que definem uma vida. Estão nas letras de The heart of Saturday
night (1974), Nighthawks at the diner (1975), Blue valentine
(1978). Em outra oportunidade, diria: "comecei escrevendo as conversas das
pessoas ao meu redor". Não à toa a crítica situou seu Frank's
wild years (1987) como uma "saga sonhadora de destino e ressurreição".
Em disco, Tom Waits estava ausente há alguns anos.
Ressurge com Mule variations (1999). O título indica a teimosia
latente no caráter de todo grande artista. Em A little rain, de Bone
machine (1992), encontramos os versos: "a mula do homem de gelo
está / lá fora do bar / onde um homem com dedos perdidos / toca uma
estranha guitarra / e o anão alemão / dança com o filho do açougueiro
/ e uma chuva miúda nunca feriu ninguém". Quem está de volta?
Teimamos todos, personagens de uma mesma tragicomédia. As variações da
mula estão por toda a parte: uma quase rumba em Get behind the mule,
a balada dilacerante em House where nobody lives, a batida
tradicional em Cold water. Uma conversa de Waits com Gil Kaufman, este
indagando como aquele mantém-se lúcido em sua relação com o mundo:
"a maioria de nós é cética sobre certas coisas ou está esperando
para ser convencida de outras". Segundo Waits, as canções são
apenas recipientes para o que se é, para como se sente. "Algumas canções
você canta uma vez e nunca mais voltará a fazê-lo". E há outras
que você carrega consigo por toda a vida, repetindo-as, tentando
entender. E outras se encontram tão entranhadas em si, que não há
explicação para que se repitam tanto. Serão essas as variações da
mula, as canções entranhadas em Tom Waits e que se repetem para onde ele
se volte. Ao compor para cinema ou teatro, ao ser ele próprio
ator e poeta, não faz senão compartilhar todas as vivências que lhe são
conjuntivas e disjuntivas, um desfrutar a experiência humana em sua
vertigem original, sem dicotomias, sem preconceitos. Basta pensar em Black
market baby, uma canção que resume toda a poética de Waits. Há ali
uma batida de maracatu mesclada a um arrastado de disco de um DJ, e versos
como "não há oração como desejo / nem amnésia no beijo dela /
ela é um cisne e uma pistola / e o seguirá pois você gosta disso"
interrompidos por uma guitarra dilacerante como há muito não se escuta.
Poucas notas, cruciais.
Um poeta sob a chuva. Uma pequena chuva. Toda a sua vida filmada por uma garoa. Os personagens correndo sob a chuva. Atropelados pela chuva. Mesmo ali ele pensa nas demais estações. Estão todos indo de um ponto a outro, para algo ou nada. A chuva repercute todas as estações. O que compõe são hinos, são maneiras das pessoas se reconhecerem ouvindo coisas tão alheias e ao mesmo tempo tão íntimas. O que busca um artista é tocar a si mesmo. Somente aí toca a humanidade. O público não é senão o eco natural de um grande artista. Uma perversão comercial (desfalque existencial) inverteu todo um princípio. Diante dela Tom Waits não passa de um estranho, uma voz rasgada, irritante, que acaba de lançar mais um de seus discos insuportáveis. |
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Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta e ensaísta. Um dos editores da Agulha. Visite: www.revista.agulha.nom.br/ageditores.htm. Fotos de TW por Matt Mahurin. |