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revista de cultura # 1 - fortaleza, são paulo - agosto de 2000 |
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Paule Thévenin: "Artaud ocupou toda a minha vida!" (entrevista) Claudio Willer
Hoje é difícil distinguir quanto a criação
coletiva, a invenção em cena, o primado do gestual e de todas as formas
de comunicação não verbal e de ruptura da separação entre espetáculo
e público correspondem a uma influência específica do seu teatro da
crueldade ou são práticas comuns a todo teatro moderno. Outras manifestações
- como a performance e a body art - têm em Artaud seu
inventor, em palestras e apresentações que na época causavam escândalo
e consternavam o público. Isso, para não falar do seu papel como
referencial da moderna semiologia, da antipsiquiatria de Laing, da
"esquizoanálise" de Deleuze e Guattari.
Essa contribuição gerou uma bibliografia
gigantesca, caracterizando-o como um dos autores mais estudados e
discutidos do nosso tempo - ele que abominava os literatos e afirmou que
"toda escrita é porcaria", atravessados por imagens luminosas e
frases com um extraordinário poder de síntese, onde a densidade, o delírio
e a paixão se integram e se tornam uma só coisa. Soma-se a isso uma biografia coerente, marcada por
uma busca constante que inclui sua passagem pelo surrealismo (1924/27) e a
ruptura por, na verdade, encarnar radicalmente as idéias desse movimento:
suas iniciativas no teatro de vanguarda; sua revisão crítica da História
e sua discussão do colonialismo em obras como Heliogábalo e nas
palestras mexicanas: seu mergulho em outro universo; ao participar do
culto do peiote dos Taraumaras: e sua tragédia, seu internamento por oito
longos anos, de hospício em hospício, durante a guerra, na França
ocupada, até ser resgatado em 1946, fisicamente acabado pelo sofrimento -
ele, que sempre execrava os psiquiatras, declarando já em 1925 que "nós
nos rebelamos contra o direito concedido a homens de sacramentar com o
encarceramento perpétuo suas investigações no domínio do espírito",
para reiterar em 1947, em seu Van Gogh, que "em todo demente há
um gênio incompreendido cujas idéias, brilhando em sua cabeça, apavoram
as pessoas, e que só no delírio consegue encontrar uma saída para o
cerceamento que a vida lhe preparou". Talvez essa identificação de
gênio e loucura não valha para todo e qualquer louco; mas vale para
Antonin Artaud, como ele o demonstrou através de sua vida e sua obra.
Discreta (não deixa que a fotografem), Paule Thévenin
vê criticamente a maior parte da enorme bibliografia sobre Artaud;
reconhece a importância de estudos como os de Blanchot e Derrida, mas
acha o discurso universitário limitado e redutor. É sintética e precisa
nas afirmações, como em sua fala no encerramento do Evento Artaud:
"Acho que todas as disciplinas - todas elas, a filosofia, a
psicologia, a literatura, as artes - têm que interrogar-se a partir de
Artaud". [C.W.] CW - Como começou essa relação tão íntima
com Artaud e sua obra? PT - Já me perguntaram isso muitas vezes. Só posso dar a mesma resposta de sempre: um dia, depois que ele saiu de Rodez, depois da sua volta ao mundo livre, fomos vê-lo em seu quarto de Ivry. E ele começou a visitar-nos, de nós gostávamos da sua presença. Sempre havia um lugar para ele ficar, e Artaud sentia-se bem conosco. CW - E isso se transformou em uma colaboração,
um trabalho conjunto… PT - Como ele vinha muito em casa e eu havia parado com os estudos, pediu-me que tomasse o ditado de alguns de seus textos. Isso aconteceu muito naturalmente. Artaud sempre, desde seus primeiros escritos, preferiu ditas seus textos: Heliogábalo, por exemplo, e alguns dos textos de O teatro e seu duplo, o que provocava erros de transcrição, erros auditivos que depois corrigi na edição das Obras Completas. Acabei aprendendo a datilografar para cuidar de sua obra. Van Gogh me foi ditado integralmente, o que levou cerca de dois meses, e não dois dias, como chegaram a dizer. CW - Mas ele lia um texto escrito ou improvisava
ao ditar? PT - Geralmente escrevia primeiro o texto, depois
ditava, mas ia modificando o texto enquanto ditava. O manuscrito dele é
bem diferente da versão ditada. O único texto que ele não modificava
eram as cartas.
CW - Na minha introdução dos Escritos de
Antonin Artaud, eu digo que as cartas parecem ser sua forma preferida
de expressar-se… PT - Sim, as cartas eram seu meio preferido de
expressar-se. Como a carta que escreveu para Jules Supervielle, que também
era o artigo que este lhe havia pedido para a revista Sur… As
cartas eram sua forma preferida de ultrapassar as barreiras que o impediam
de escrever. A segunda parte dos textos sobre teatro balinês também é
constituída por cartas.
CW - E há cartas a Henri Parisot, de Rodez, que
para mim têm uma força especial…
CW - E como começou esse trabalho de edição
das Obras Completas? PT - Quando Artaud morreu, estavam planejados quatro
volumes. Para atualizá-los, ele havia planejado acrescentar textos
recentes, com um traço da experiência dramática que viveu. Ele morreu
quando isso estava em preparação. Então decidimos preparar a edição
da obra completa, procurar todos os seus textos e colocá-los em ordem
cronológica.
CW - Eu levantei a hipótese de ainda haver inéditos… PT - Sim, ainda há inéditos. Por sua importância, eu fiz questão de acrescentar as cartas às Obra Completa, como meio de dar ao leitor o que era importante. Até agora, publicou-se uma grande parte. Um dia, será preciso publicar a correspondência completa. Há as dificuldades com a família, tudo isso, mas o importante é publicar o máximo possível. CW - Então é um trabalho infinito.
PT - Sempre se acham mais cartas. Nas bibliotecas,
universidades, com pessoas… Ainda faltam muitas das cartas desde sua
volta a Paris até sua morte. Para mim, é um trabalho infinito! Já são
23 volumes! A cada nova edição acrescento cartas que foram achadas
depois. Eu refiz todos os volumes, exceto o 10 e o 11, de Cartas de
Rodez - que ainda podem vir a ser refeitos. Não sei se conseguirei
terminar essa edição das obras completas até o fim de minha vida. Acho
que nunca terminarei…
CW - Gostaria de ter um depoimento seu sobre
Artaud, descrevendo-o como o via. Acho as descrições existentes de
Artaud muito pesadas - como a de Anais Nin -, mostrando-o trágico,
torturado o tempo todo…
PT - As pessoas são sempre más testemunhas e
Artaud contou muito para mim, ocupou toda minha vida com seu texto. Não
quero ser uma falsa testemunha. ,as quando vejo obras que o mostram como só
paroxístico ou histérico, eu não concordo. A visão que tenho de Artaud
é de alguém que sabia ser alegre, que também era capaz de divertir-se e
de brincar.
Ele me tratava cerimoniosamente, como uma grande
dama, me tratava por vous. Era sempre o vous, não aceitava
o tu. Isso porque foi tutoyé (tratado por tu)
durante os anos em que esteve internado - então o tu era penoso
para ele. Mas mesmo isso, era capaz de comentar de um modo engraçado. No
fim da vida, rejeitou todas as religiões e não suportava as manifestações
religiosas. Quando Marie Casarés foi conhecê-lo, estava usando uma
corrente com uma cruz, e Barrault pediu-lhe que a tirasse, pois iria
desagradar a Artaud. E houve aquela ocasião no Flore, quando Abel Gance
mandou um emissário procurá-lo. Gance já estava bem velho mas ainda
queria fazer um grande filme sobre a vida de Cristo e convidou Artaud para
trabalhar no filme. Artaud ficou furioso. Essas coisas, ele contava
vituperado, mas também rindo, se divertindo.
CW - Essas conjurações e feitiçarias de que
Artaud fala nas Cartas de Rodez, no Van Gogh, a magia negra
contra os poetas malditos… Até que ponto ele acreditava mesmo nisso ou
para ele eram apenas metáforas? PT - Não há limite entre os dois, metáfora e realidade. a história de Artaud é exemplar, é a história de uma entreprise, de uma ação maléfica contra um homem. Isso é muito forte no nível do símbolo e é real de um certo modo. Por ser forte e ser real, tem um sentido. É preciso prestar atenção, é preciso tomar cuidado: sempre há algo de real nisso tudo. |
Claudio Willer (São Paulo, 1940). Poeta, ensaísta e tradutor. É um dos editores da Agulha (http://www.revista.agulha.nom.br/ageditores.htm). Entrevista originalmente publicada no jornal Leia (São Paulo, junho de 1986). Página ilustrada com obras do artista Víctor Chab (Argentina). |