revista de cultura # 1 - fortaleza, são paulo - agosto de 2000

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Os confidentes de Edgar Zúñiga

Guillermo Fernández

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Edgar ZúñigaNossos antepassados deram o nervo renitente à viga, base onde se apoiaram os textos de antigas edificações. Hoje, o escultor Edgar Zúñiga - um dos mais interessantes e sérios escultores costarriquenhos da atualidade -, talvez impelido por haver escutado um chamado anônimo, desempoeirou vigas feitas a partir de madeiras nobres, entre 100 e 140 anos, ou seja, vestígios de nossa história arquitetônica, desentortou pregos enferrujados e tirou a pintura morta.

O resultado do trabalho de Zúñiga sobre essas vigas e forquilhas de teatros, igrejas e casas, foi algo tenebroso à primeira vista: rostos surgidos em um bosque sem folhas nem vento nem cascas - como alguma dessas estâncias límbicas de Dante -, rostos de uma humanidade aterradora, preocupada, atônita ou perigosamente contida.

Edgar ZúñigaVelhos fantasmas saem a ver nossa época, nós mesmos, com o gesto de sua dor fundamental ou de sua incerteza mais profunda. Uns parecem indignados, severos, orgulhosos: outros clamam, se entristecem, desmaiam com espanto. Essas figuras mantêm uma atitude de estranheza ou oração em momentos; algumas, pregadas por um cravo na palma da mão, e sem que o percebamos, expõem a expressão de um grito, como se a completa revelação de sua fisionomia lhes causasse a angústia de retornar ao mundo através de um parto mais difícil. Outras se resignam a ver. Mudas.

Não é acidental que depois das primeiras exibições da obra, tenham proliferado inúmeras interpretações. Alguns críticos, como María Amelia Bulhóes, afirmam que as figuras surgem desafiantes do passado, indagando-nos por nossa razão de ser. Neste sentido, os pedaços de madeiras externam indivíduos anônimos que conciliam o espaço ascético de nossa sociedade de consumo, introduzindo nosso olhar na verdade humana, dolorosa e turva. Para Gladys Yunes Yunes, Zúñiga transtorna o universo do real e do imaginário. Dermis Pérez León, por outro lado, considera que a arte representada pelo anterior reconstrói a história desde sua função arqueológica. O escultor reconquista um vestígio: a viga, e faz nela uma sutura de onde saem testemunhas apanhadas pelo tempo, e decididas a nos relatar suas histórias.

Edgar ZúñigaAs exigências de Zúñiga como artista são muitas. De fato, pretende que o público transite entre as esculturas e experimente ser parte delas. É necessário, segundo o criador, tomar consciência da temporalidade - e futilidade - dos objetos do mundo contemporâneo. As esculturas brindam este sentimento. Além do mais, suas obras comunicam os gritos de um mundo em processo de destruição. Constituem seres em atitude de súplica: "É minha intenção que o público […] participe do velório, ultrapasse o portal, reze". Todas estas exigências do próprio criador poderiam ser conturbadoras, mas não parece alterar o fato de que o gozo estético destas deva estar também relacionado com a necessidade de despertar, de comunhão na dor humana.

Segundo o próprio Zúñiga adverte, "estas madeiras levam em seu interior uma forte carga de memória e de emoções. Foram testemunhas de infinidade de acontecimentos. De amor, prenhez, de partos, de decepções, de gritos de luta, de sonhos truncados, de crimes, de alegrias." Todas as versões, incluídas as do autor, por justificar as esculturas, poderiam ser precisas. Mas assistimos a uma arte maior, ou seja, a uma construção metafórica incapturável. Creio, sem a menor dúvida, que o bosque humana de Zúñiga quererá dizer outras coisas dentro de, por exemplo, 200 anos. Arriscando uma antecipação, quando os seres humanos estiverem vivendo em uma comunidade tolerável, sem guerras nem fomes, as esculturas recordarão como era o semblante de nossa espécie em uma das épocas mais inseguras e bélicas, mais cheias de contradição e dilaceramento.

Edgar ZúñigaNo momento, as esculturas podem dizer tudo. parecem expressar o mal estar das almas dos mortos ao ser convocados na estridência de uma sala de exibição em plena cidade. Poderiam ser isso, realmente: ecos de vida nas veias da madeira centenária, com o qual Zúñiga é um médium que os faz surgir com olhares terríveis. Ou talvez, se quisermos, rememoram os santos e mártires - recordemos que o artista se inicia em escultura sacra - que nos convidam a rezar, a nos determos não em uma rua barulhenta, a rua cheia de ruído de nossa própria alma, mas sim onde não há tempo, onde há que refletir e sentir o pranto para que nos libere.

Pois bem, as efígies de Zúñiga foram elaboradas a partir de moto-serra (e essa não é uma figura retórica). A moto-serra, com seu caráter de frio artefato eficiente, é o cinzel adequado que extrai da madeira o traço mais provavelmente nervoso e turvado da vida.

Guillermo Fernández (Costa Rica, 1962). Poeta e ensaísta. Autor de livros como Para días posibles (1998) e Danzas (2002). Foto de EZ & obras por Ezequiel Becerra. Ensaio traduzido por Floriano Martins. Contato: gfernandez@nacion.co.cr. Página ilustrada com obras de Edgar Zúñiga (Costa Rica).

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