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revista de cultura # 1 - fortaleza, são paulo - agosto de 2000 |
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Os confidentes de Edgar Zúñiga Guillermo Fernández
O resultado do trabalho de Zúñiga sobre essas
vigas e forquilhas de teatros, igrejas e casas, foi algo tenebroso à
primeira vista: rostos surgidos em um bosque sem folhas nem vento nem
cascas - como alguma dessas estâncias límbicas de Dante -, rostos de uma
humanidade aterradora, preocupada, atônita ou perigosamente contida.
Não é acidental que depois das primeiras exibições
da obra, tenham proliferado inúmeras interpretações. Alguns críticos,
como María Amelia Bulhóes, afirmam que as figuras surgem desafiantes do
passado, indagando-nos por nossa razão de ser. Neste sentido, os pedaços
de madeiras externam indivíduos anônimos que conciliam o espaço ascético
de nossa sociedade de consumo, introduzindo nosso olhar na verdade humana,
dolorosa e turva. Para Gladys Yunes Yunes, Zúñiga transtorna o universo
do real e do imaginário. Dermis Pérez León, por outro lado, considera
que a arte representada pelo anterior reconstrói a história desde sua
função arqueológica. O escultor reconquista um vestígio: a viga, e faz
nela uma sutura de onde saem testemunhas apanhadas pelo tempo, e decididas
a nos relatar suas histórias.
Segundo o próprio Zúñiga adverte, "estas
madeiras levam em seu interior uma forte carga de memória e de emoções.
Foram testemunhas de infinidade de acontecimentos. De amor, prenhez, de
partos, de decepções, de gritos de luta, de sonhos truncados, de crimes,
de alegrias." Todas as versões, incluídas as do autor, por
justificar as esculturas, poderiam ser precisas. Mas assistimos a uma arte
maior, ou seja, a uma construção metafórica incapturável. Creio, sem a
menor dúvida, que o bosque humana de Zúñiga quererá dizer outras
coisas dentro de, por exemplo, 200 anos. Arriscando uma antecipação,
quando os seres humanos estiverem vivendo em uma comunidade tolerável,
sem guerras nem fomes, as esculturas recordarão como era o semblante de
nossa espécie em uma das épocas mais inseguras e bélicas, mais cheias
de contradição e dilaceramento.
Pois bem, as efígies de Zúñiga foram elaboradas a partir de moto-serra (e essa não é uma figura retórica). A moto-serra, com seu caráter de frio artefato eficiente, é o cinzel adequado que extrai da madeira o traço mais provavelmente nervoso e turvado da vida. |
Guillermo Fernández (Costa Rica, 1962). Poeta e ensaísta. Autor de livros como Para días posibles (1998) e Danzas (2002). Foto de EZ & obras por Ezequiel Becerra. Ensaio traduzido por Floriano Martins. Contato: gfernandez@nacion.co.cr. Página ilustrada com obras de Edgar Zúñiga (Costa Rica). |