Agulha - Revista de Cultura

revista de cultura # 20 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2002

Agulha - Revista de Cultura






 

Francis Bacon: a brutalidade do fato

Jorge Lucio de Campos

 

Francis BaconA brutalidade do fato (Cosac & Naify, 1999) compila uma série de entrevistas concedidas por Francis Bacon (1909-92) ao amigo de longa data, o crítico inglês David Sylvester. Trata-se de um total de nove sessões, realizadas no estúdio londrino de Bacon, entre 1962 e 1986 - a primeira em 1962, a segunda em 1966, a terceira entre 1971 e 1973, a quarta em 1974, a quinta em 1975, a sexta em 1979, a oitava entre 1982 e 1984 e a última entre 1984 e 1986 - sendo nelas amplamente discutidos os variegados aspectos conceituais da poética baconiana assim como explicitados numerosos pontos de vista do pintor irlandês sobre a própria realidade, sem dúvida, muito esclarecedores no que tange aos complexos matizes de sua personalidade de artista.

Talvez não houvesse mesmo alguém mais adequado para conduzir semelhante empreitada. Na condição de íntimo observador da opus de Bacon - cujo florescimento acompanhou já desde fins dos anos 40, quando este se viu catapultado para a notoriedade graças aos hoje legendários Três Estudos para Figuras à Base de uma Crucificação - tríptico concebido em 1944 (Tate Gallery) - Sylvester, aparentemente, conseguiu sintetizar no fio das entrevistas (e com uma rara destreza), as mais prováveis interrogações que nos faríamos diante de suas enigmáticas telas. Por outro lado, urge atentar para um outro importante detalhe: embora não chegasse a ser refratário ao esquema da entrevista, Bacon tornou-se também conhecido por seu laconismo e por uma certa dificuldade (nem tanto assim) em situar-se, com a densidade discursiva esperada, acerca de muitas de suas intencionalidades. Em verdade, ele sempre alegou expressar-se melhor através das imagens (o que, sem dúvida, não deixa de ser verdadeiro) do que pela via afásica das falas e escrituras.

Francis BaconEm função de tal peculiaridade, o empreendimento, por vezes, se assemelha a um curioso bate-papo onde perguntas e respostas muito curtas amiúde se alternam, dando a impressão de que o entrevistado não está sempre muito disposto a, como se diria, abrir totalmente o jogo diante da insistência (ou curiosidade intempestiva?) perscrutinadora do entrevistador. Felizmente, há momentos em que Bacon, como que menos resistente, se estende em suas considerações e - confirmando o que todos nós, de certo modo já sabíamos, ou seja, possuir um sólido grau de consciência teórica de sua techné pictórica - literalmente, nos proporciona um riquíssimo material para o desvelamento não só de seus traços referenciais, como também de senhas decisivas para uma correta assimilação da contemporaneidade artística.

O volume é farto e convenientemente ilustrado (embora só com reproduções em preto e branco, o que, no caso específico de Bacon, chega a ser terrível). Numerosas telas (assim como algumas inquietantes e reveladoras fotografias) vão sendo exibidas à medida que são aludidas no texto. A Brutalidade do Fato é, sem dúvida, de um documento mais do que obrigatório - que serviu, inclusive, de base concreta para estudos seminais da estética baconiana como o Francis Bacon (originalmente publicado pela Thames and Hudson, em 1971), de John Russell, e, principalmente, o Francis Bacon: Logique de la Sensation (Éditions de la Différence, Paris, 1981), de Gilles Deleuze - infelizmente ainda não traduzidos para o nosso idioma.

Francis BaconA partir de sua leitura, decerto tornam-se claros, para cada um de nós, os aspectos centrais de uma das propostas mais diruptoras da arte deste século (convém não esquecer que Bacon manteve-se ‘figurativo’ em plena apoteose européia da arte abstrata). Entre eles, sua tentativa de liberar a arte das amarras de um milenar projeto representativo que - camuflado, no interior das próprias hostes vanguardistas, numa poiésis sublimadora da linha e da cor - ainda insistia em modulá-la, sub-repticiamente, a seus estilismos plurimodais. Daí, entre outras coisas, a sua obsessão em distorcer as figuras - isso depois de, convenientemente, isolá-las e imobilizá-las (incapacitando-as para um jogo meramente narrativo) com dispositivos ‘armadurais’ (anéis, barras, trapézios, paralelogramos, pistas etc.) e uma estrutura espacializante intencionalmente neutralizante - construída com largas demãos monocrômicas (aplats).

Seja como for, sua tentativa de revitalizar, por essa via, a pintura moderna, ou seja, mediante a experiência fundamental da desfiguração (conversão dos dispositivos ditos figurativos em dispositivos ditos figurais) ainda não foi devidamente assimilada. Seu propósito de despertar nossa atenção para os perigos de uma crescente anodinização da experiência sensitiva na arte não teve, igualmente, a necessária repercussão. Principalmente num país como o nosso em que praticamente nada (de boa qualidade ou nem tanto assim) tem sido disponibilizado, enquanto fonte de pesquisa, acerca de sua obra.

Francis BaconLouve-se, nesse sentido, um pouco mais ainda, a iniciativa da Cosac & Naify. A tradução mostra-se firme, o trabalho editorial é de boa qualidade, sendo que apenas a capa - por sinal interessante em seus efeitos de dispersão da imagem - apresenta alguns deslizes, no caso, tanto conceituais (o instigante título virou A brutalidade dos fatos, o nome do capista foi omitido etc.) quanto gráficos (o título aparece invertido com o subtítulo Entrevistas com Francis Bacon ganhando um destaque visual maior do que deveria, equívoco que, infelizmente, se repete na lombada e na contracapa). Afora isso, tudo funciona a contento. O texto deve ser logo lido e sua espessura ruminada, acolhida, comemorada. A arte legitimamente hodierna agradece…

Jorge Lucio de Campos. Poeta e ensaísta. Autor de Do Simbólico ao Virtual: A Representação do Espaço em Panofsky e Francastel (1991) e A Vertigem da Maneira: Pintura e Vanguarda nos Anos 80 (1993). Contato: jorgeluciocampos@bol.com.br. Página ilustrada com obras de Francis Bacon.

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