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revista de cultura # 20 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2002 |
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Editorial
No segundo dia deste simétrico 2002 fomos anunciados da morte de Pablo Antonio Cuadra (1912-2002), certamente a maior expressão poética na Nicarágua desde Rubén Darío. Poeta essencial na instauração de uma vanguarda em seu país, e intelectual que reagiu duramente a toda forma de precariedade cultural, Cuadra chegou a ser confundido como "homem de direita" ao questionar o regime cubano de Fidel Castro. Com uma obra extensa e significativa, incluindo poesia, teatro e ensaio, destaca-se como umas das grandes vozes da poesia hispano-americana. No Brasil, um grande silêncio, seja da parte da imprensa ou mesmo de nossos escritores, confirmou um autofágico alheamento nosso. Em um memorável volume de diálogos entre David Sylvester e Francis Bacon - livro comentado nesta Agulha por Jorge Lucio de Campos -, Bacon refere-se à busca de uma arte cada vez mais nítida e precisa, ao mesmo tempo lembrando que "naturalmente, no mundo de hoje, é dificílimo ser nítido e preciso". Imprecisão e falta de legibilidade definem muito bem a época em que vivemos, não resta dúvida. Há mesmo uma profissão de fé baseada no estabelecimento de linhas confusas de pensamento e metas. Por vezes parece que estamos sob o efeito desnorteante de um arranjo de situações, um estratagema de desconexões. O avanço tecnológico que permite maior comunicação nos coloca diante de uma falácia. Comunica-se a campo aberto apenas o embotamento, este sim, comunicado à exaustão. Até aqui nenhuma novidade, embora a frase comporte um certo acomodamento diante do que tratamos. Parte dessa circunstância vem daquelas forças que a impõem, e a elas já se referiu com clareza o filósofo Michel Serres em O Contrato Natural: cientistas, administradores e jornalistas comporiam a corte responsável por essa quase erradicação de um pensamento que reflita a condição humana e que lhe permita esboçar alguma reação. Hoje - a menos que Serres considerasse a arte uma ciência - teríamos que acrescentar um quarto componente: os artistas. Eliminamos o tempo e passamos a criar uma sobrecarga de relações envolvendo isoladamente o espaço. A presentificação absurda que nos impusemos corta relações essenciais com o passado e fatalmente nos deixa sem perspectiva alguma de futuro. A ausência de continuidade reflete um interesse na manutenção de um status quo. Cria-se um jogo de aparências que confunde os planos envolvidos, o que está mudando e o que permanece inalterado. O imediatismo é um jogo de vantagens, irreflexo por excelência. A esfera política e a indústria de entretenimento, por exemplo, sabem dele utilizar-se como ninguém. Arrastam consigo os organismos de comunicação e uma débil classe artística, irmanados pela mesma vaidade cega da participação - participação que hoje não se desvincula de lucro imediato. A ciência, por sua vez, ou encastela-se em uma rejeição absurda à reflexão sem credenciais ou deleita-se com o espetáculo leviano das notícias em torno de pesquisas em andamento. O que nos falta: apenas a jóia do nítido e preciso apontada por Francis Bacon? Diante dela valeria lembrar que a publicação da Poesia Reunida (1999) de Dora Ferreira da Silva, por exemplo, não a tornou uma poeta melhor compreendida no Brasil. Acaba de surgir um excelente site (http://www.letras.ufmg.br/henriquetalisboa/) dedicado à obra de outra brasileira imensa, Henriqueta Lisboa. As duas circunstâncias não são oportunistas, no sentido de se firmar em cartório uma tomada de posse sobre a obra de um determinado artista. São duas iniciativas valiosas e que bem poderiam proliferar. Já poderíamos pensar aqui em outros poetas brasileiros, a exemplo de Foed Castro Chamma e José Santiago Naud, ambos merecedores de melhor atenção por parte da crítica e de seus pares. E nosso teatro ressente-se ainda mais, juntamente com os sérios roteiristas para televisão. O mesmo em relação aos compositores que inspiraram e consubstanciaram nossa entrada na modernidade. Em busca de nitidez e precisão, é possível dizer que o Brasil ainda se ressente de alheamento, ou seja, desconhece a si mesmo o suficiente para viver à sombra do mercado. Sempre pensamos na Agulha como um momento propiciador desse conhecimento ocultado, um desvelar-se, um desentranhar-se. Não que nos consideremos alheios aos vícios de rotina, seja os apontados por Francis Bacon ou Michel Serres. Não somos falaciosos e isto já nos permite uma exposição vertical de interesses. Apontamos a quebra de banca, o fim do jogo. Em uma sala de espelhos onde cada imagem transfere para a refletida adiante a responsabilidade do significado, cabe gritar "quem sou eu"? Já se conhece a resposta. O importante passa a ser o que temos evitado ser. Se percebida corretamente a Agulha não é uma ação isolada. Há, contudo, uma miopia da imprensa brasileira em perceber a densidade de um conjunto de pautas apresentado em quase dois anos de ininterrupta atividade editorial. Uma imprensa estratificada é a glória de qualquer governo de exceção. Em toda a história política brasileira a grande estratégia funcional de anulação de forças contrárias é a do envolvimento, a criação de um estado ilusório de participação. Será tão eficaz esse mecanismo que não permita à nossa imprensa uma gota de percepção acerca da existência da Agulha? E caberia aqui indagar: o que a imprensa brasileira tem apoiado em termos de uma definição de rumos de nossa cultura? Música, literatura, teatro, artes plásticas, por onde se queira andar - apenas o óbvio ou o politicamente articulado tem sido prestigiado pela imprensa. Não se trata de estar em cena, pois a cena é cerceada a todo instante. A imprensa é o grande mecanismo de cerceamento de nosso tempo. E os artistas - os adoradores de spots - são a maravilha desse tempo encoberto pela transparência. Os editores |
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Sumário 1 a pincelada única, de shitao, o monge da abóbora amarga. vicente franz cecim2 acerca de la literatura gay. alfredo fressia 3 björn afzelius, las alas de un trovador. mónica saldías 4 francis bacon: a brutalidade do fato. jorge lucio de campos 5 julio arozarena: danza en plenitud hecha hombre (entrevista). jorge enrique gonzález pacheco 6 paulo mendes campos, um poeta da poesia. claudio willer 7 poéticas do artifício: borges, kierkegaard e pessoa: conversa com lars olsen. maría esther maciel 8 robert desnos: el sueño, el medium. 1900-1945. oscar gonzález 9 roberto matta: detrás del espejo. miguel angel muñoz 10 uma trajetória: giselda leirner. aracy amaral artista convidado león ferrari (textos críticos de andrea giunta e noé jitrik) |
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