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revista de cultura # 20 - fortaleza, são paulo - janeiro de 2002 |
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Uma trajetória: Giselda Leirner Aracy Amaral Existe por um certo preconceito em relação ao artista que pode
dispensar o mercado de arte para sobreviver, ou em relação ao artista que é ou foi
rico. Isso é pacífico e só pode desdizer quem for cínico. Como também se sabe muito
bem que há muitos que se firmam no meio artístico nacional ou internacional através de
um currículo "oculto" - relações afetivas, ou pessoais, que os impulsionam ao
festejamento ou às solicitações. Não há aqui nenhuma crítica, apenas o registro de
um dado importante quando se aborda uma obra. Giselda Leirner está longe de ser ingênua.
Muitos artistas na família, o desejo de um convívio familiar pleno, daí a razão pela
qual optou, ao longo dos anos, em permanecer à margem de um processo de auto-projeção,
sem abrir mão de sua criatividade. Que aflora agora como enriquecida pelo adensamento
propiciado por sua experiência tanto humana como profissional. Uma apresentação de suas
obras se constitui um raro encontro com a trajetória de um artista cultivado.
Sofisticado, apesar de aparente simplicidade de sua arte. Artista algum, entretanto, pode
trair sua geração, a imagética de sua geração, as admirações ou afinidades que
correspondem a um tempo. E essa fidelidade nos toca na medida em que reflete, por essa
mesma razão, uma autenticidade ontológica. Alguns dos trabalhos mais antigos desta
mostra, que
Uma introversão mais acentuada em seu trabalho pode ser apreciada igualmente nas "paisagens" dos anos 70, pequenas composições freqüentemente centradas em grandes folhas, a colagem cuidadosamente incorporada ao desenho, a pintura a guache (?) sobre papel finalizando o trabalho, algo do clima de recolhimento, momentos quem sabe de contemplação da natureza, com certeza da fase de residência em Campos do Jordão. Nesse tempo igualmente surgiram estudos de formas de movimento concêntricos, emaranhados de linhas, como os trabalhos em crayon. Aliás, falar em técnica ou domínio da técnica parece quase extemporâneo nesta época em que as manifestações sensíveis substituem o objeto artístico. Daí porque a exposição da Giselda e também um mostruário de um tipo de obra a cada dia mais rara: a do autor que desenha manejando com destreza o lápis, a aguada, o nanquim, trabalhando em litografia, pastel crayon, acrílico sobre cartão. Todas as modalidades de matérias, enfim, igualmente abordados pela desenhista na realização de seus exercício.
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| Aracy Amaral. Critica e historiadora de arte. autora de inúmeros livros sobre arte brasileira, em particular sobre o modernismo no Brasil. Dirigiu a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu de Arte Contemporânea da USP. Prof. Titular de Historia da Arte (USP), aposentada. Membro da Comissão de arte do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Curadora independente de arte brasileira no Brasil e em outros países. Texto escrito por ocasião da exposição retrospectiva de Giselda Leirner na Pinacoteca do Estado de São Paulo (1994). Página ilustrada com obras de Giselda Leirner, gentilmente encaminhadas pela artista. Contato: aracy.amaral@uol.com.br.. |
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