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revista de cultura # 21/22 - fortaleza, são paulo - fevereiro/março de 2002

Rudy Espinoza

Editorial
Por onde circula a realidade?

No Brasil e em muitos outros lugares, o registro da violência é feito, não mais através de relatos de acontecimentos, mas de estatísticas. Contudo, há poucas semanas, um episódio foi minuciosamente relatado: o seqüestro do publicitário Washington Olivetto, por ele ser um personagem conhecido, e o grupo que o seqüestrou ser composto por militantes ou ex-militantes da luta armada. E por ter havido, desta vez, um seqüestro com bibliografia. Em seu depoimento à imprensa depois de libertado, Olivetto relatou como leituras o impediram de enlouquecer durante 53 dias de isolamento. Citou, entre outros títulos, a revista literária Cult, na qual, lendo extenso depoimento de Caetano Veloso, ia reconstituindo de memória poemas de João Cabral de Melo Neto e García Lorca ali citados. Como se não bastasse, a literatura esteve presente nos dois lados desse episódio: o da vítima e aquele dos seus agressores. A TV Cultura de São Paulo mostrou livros que estavam em um dos esconderijos desse bando, exibindo, bem visível, a capa de uma coletânea de poemas de Rimbaud. Faria parte dessa coletânea a frase célebre, sinistra epígrafe: Voici le temps des assassins, Eis o tempo dos assassinos?

A literatura pode impedir que pessoas enlouqueçam. Poderia até mesmo dissuadir criminosos. Como observou Roland Barthes (em um questionário da revista Tel quel, publicado no Brasil na coletânea Crítica e Verdade), pode, ainda, ter um valor assertivo, harmonizar-se com valores conservadores da sociedade, ou então tornar-se instrumento em um combate de libertação. Seu valor é, contudo, essencialmente interrogativo. Citando-o: "Essa interrogação não é: qual é o sentido do mundo? nem mesmo, talvez: o mundo tem um sentido? mas somente: eis o mundo: existe sentido nele?" Tem "o poder de fazer perguntas reais, perguntas totais, cuja resposta não esteja pressuposta, de um modo ou de outro, na própria forma da pergunta."

O valor assertivo deveria ter sido mais considerado por Barthes. Afinal, como já observaram, de modos distintos, E. R. Curtius e Octavio Paz, foi da literatura que surgiram culturas e civilizações. Ao criar linguagem, produz ideologia, representação do mundo, cultura, enfim, realidade, ou aquela realidade existente na escala humana. Somos produto de Homero e dos demais clássicos; o mundo de língua espanhola foi produzido por Cervantes, pelos poetas do Século de Ouro, e tantos outros representantes de sua extraordinária literatura; a lusofonia é produto de Camões; sua modernização, de Fernando Pessoa e de modernistas brasileiros. O Iluminismo foi primeiro uma produção de textos, idéias e linguagem, antes de projetar-se em transformações políticas. Dos românticos e de Baudelaire para cá, cresceu a dimensão transgressiva da literatura, associando-a ao que nega e transforma o mundo em que vivemos.

Há, ainda, outra dimensão a ser considerada: um valor antecipatório, como fonte de profecias, acervo de descrições de acontecimentos futuros. Episódios recentes, que têm abalado a opinião pública brasileira, e de tantos outros lugares: quantos deles não parecem uma realização dos protagonistas e situações de Os sete loucos e demais obras de Roberto Arlt? De várias das narrativas de Rubem Fonseca? De algumas das de Dashiell Hammett? De Dostoievski, principalmente em Os Demônios?

Literatura premonitória não é sociologia. Assemelha-se ao que acontece quando sonhamos: só ficamos sabendo que o sonho é premonitório depois, ao se realizarem os acontecimentos sonhados. Contudo, a obra ilumina zonas sombrias da realidade, conferindo-lhe mais significados. Isso vale tanto para a literatura da violência, no que ela tem de melhor, quanto para a violência da própria literatura, ao investir contra a opacidade, a banalidade, o mundo das idéias recebidas e das falsas verdades definitivas.

* * *

Repercute, no Brasil e em outros lugares da América Latina, a coletânea sobre Surrealismo lançada por um dos editores da Agulha. É mais um texto ultrapassando as fronteiras do mundo eletrônico, do assim chamado virtual (mas se o que circula na Internet é virtual, onde, exatamente, fica o real?), ampliando sua circulação, e, consequentemente, seu poder de antecipar e de iluminar o que está ao nosso redor. Outros ainda virão; outras das obras aqui publicadas e dos temas aqui tratados ainda extrapolarão, superarão fronteiras, e, de algum modo, irão interferir em outros níveis da realidade.

* * *

Agulha acrescenta ao conselho editorial três valiosos cúmplices: Mónica Saldías, Saúl Ibargoyen e Maria Esther Maciel. Com eles a presença igualmente relevante dos novos colaboradores: Marcos Aurélio Souza, Américo Ferrari, Sophie Mariñez, Carlos Roberto Morán, Rodrigo Petrônio, Foed Castro Chamma, Harold Alvarado Tenorio e Efraím Hernández. Os demais - Miguel Ángel Muñoz, Benjamin Valdivia, Víctor Sosa, Victoria Cirlot, Peter Gardner e Vicente Franz Cecim - bem sabem da importância dessa multiplicidade de vozes que seguimos reunindo. Também nesta edição dupla inauguramos a seção, Livros da Agulha, que facilitará a relação entre autor, editor e leitor de sete livros a cada número.

Os editores

Agulha - Revista de Cultura

Rudy Espinoza

Sumário

1 ¿Cuál es la esencia del arte? mónica saldías
2 antropofagia e iararana, de sosígenes costa. marcos aurélio souza
3 antonio tàpies: el arte de lo imaginado. miguel ángel muñoz
4 andré breton o el dolor de los objetos. benjamin valdivia
5 camile claudel y el espíritu romántico. víctor sosa
6 césar moro y su obra poética. américo ferrari
7 dominicanisch, de josefina báez: la translocalización de los símbolos. sophie mariñez
8 en el país de witold gombrowicz. carlos roberto morán
9 livro primeiro: vitalidade da arte. foed castro chamma
10 juan eduardo cirlot, entre el surrealismo y la simbología. victoria cirlot
11 là-bas, de j-k. huysmans: notas de leitura. claudio willer
12
montaigne
: o teatro do mundo. rodrigo petrônio
13
no llores por mí, latinoamérica. peter gardner
14
o surrealismo que se mostra no brasil. floriano martins
15
somerset maugham
: no fio da navalha. vicente franz cecim
16
t. s. eliot
: poeta de entreguerras. harold alvarado tenorio

artista convidado rudy espinoza (texto crítico de efraím hernández)
cartas da agulha
livros da agulha: francisco de assis barbosa, aleilton fonseca, carlos latorre, carlos felipe moisés, josé santiago naud, juan sánchez peláez, benjamin valdivia
coleção
resto do mundo

Agulha - Revista de Cultura

Rudy Espinoza

Expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

conselho editorial
alfonso peña (costa rica)
alfredo fressia (brasil)
benjamin valdivia (méxico)
contador borges (brasil)
cristina castello (argentina)
maria esther maciel (brasil)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
soares feitosa (brasil)

víctor sosa (méxico)

artista plástico convidado (obra múltipla)
rudy espinoza

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Collage, Floriano Martins

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