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revista de cultura # 21/22 - fortaleza, são paulo - fevereiro/março de 2002 |
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Editorial A literatura pode impedir que pessoas enlouqueçam. Poderia até mesmo dissuadir criminosos. Como observou Roland Barthes (em um questionário da revista Tel quel, publicado no Brasil na coletânea Crítica e Verdade), pode, ainda, ter um valor assertivo, harmonizar-se com valores conservadores da sociedade, ou então tornar-se instrumento em um combate de libertação. Seu valor é, contudo, essencialmente interrogativo. Citando-o: "Essa interrogação não é: qual é o sentido do mundo? nem mesmo, talvez: o mundo tem um sentido? mas somente: eis o mundo: existe sentido nele?" Tem "o poder de fazer perguntas reais, perguntas totais, cuja resposta não esteja pressuposta, de um modo ou de outro, na própria forma da pergunta." O valor assertivo deveria ter sido mais considerado por Barthes. Afinal, como já observaram, de modos distintos, E. R. Curtius e Octavio Paz, foi da literatura que surgiram culturas e civilizações. Ao criar linguagem, produz ideologia, representação do mundo, cultura, enfim, realidade, ou aquela realidade existente na escala humana. Somos produto de Homero e dos demais clássicos; o mundo de língua espanhola foi produzido por Cervantes, pelos poetas do Século de Ouro, e tantos outros representantes de sua extraordinária literatura; a lusofonia é produto de Camões; sua modernização, de Fernando Pessoa e de modernistas brasileiros. O Iluminismo foi primeiro uma produção de textos, idéias e linguagem, antes de projetar-se em transformações políticas. Dos românticos e de Baudelaire para cá, cresceu a dimensão transgressiva da literatura, associando-a ao que nega e transforma o mundo em que vivemos. Há, ainda, outra dimensão a ser considerada: um valor antecipatório, como fonte de profecias, acervo de descrições de acontecimentos futuros. Episódios recentes, que têm abalado a opinião pública brasileira, e de tantos outros lugares: quantos deles não parecem uma realização dos protagonistas e situações de Os sete loucos e demais obras de Roberto Arlt? De várias das narrativas de Rubem Fonseca? De algumas das de Dashiell Hammett? De Dostoievski, principalmente em Os Demônios? Literatura premonitória não é sociologia. Assemelha-se ao que acontece quando sonhamos: só ficamos sabendo que o sonho é premonitório depois, ao se realizarem os acontecimentos sonhados. Contudo, a obra ilumina zonas sombrias da realidade, conferindo-lhe mais significados. Isso vale tanto para a literatura da violência, no que ela tem de melhor, quanto para a violência da própria literatura, ao investir contra a opacidade, a banalidade, o mundo das idéias recebidas e das falsas verdades definitivas. * * * Repercute, no Brasil e em outros lugares da América Latina, a coletânea sobre Surrealismo lançada por um dos editores da Agulha. É mais um texto ultrapassando as fronteiras do mundo eletrônico, do assim chamado virtual (mas se o que circula na Internet é virtual, onde, exatamente, fica o real?), ampliando sua circulação, e, consequentemente, seu poder de antecipar e de iluminar o que está ao nosso redor. Outros ainda virão; outras das obras aqui publicadas e dos temas aqui tratados ainda extrapolarão, superarão fronteiras, e, de algum modo, irão interferir em outros níveis da realidade. * * * Agulha acrescenta ao conselho editorial três valiosos cúmplices: Mónica Saldías, Saúl Ibargoyen e Maria Esther Maciel. Com eles a presença igualmente relevante dos novos colaboradores: Marcos Aurélio Souza, Américo Ferrari, Sophie Mariñez, Carlos Roberto Morán, Rodrigo Petrônio, Foed Castro Chamma, Harold Alvarado Tenorio e Efraím Hernández. Os demais - Miguel Ángel Muñoz, Benjamin Valdivia, Víctor Sosa, Victoria Cirlot, Peter Gardner e Vicente Franz Cecim - bem sabem da importância dessa multiplicidade de vozes que seguimos reunindo. Também nesta edição dupla inauguramos a seção, Livros da Agulha, que facilitará a relação entre autor, editor e leitor de sete livros a cada número. Os editores |
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Sumário 1 ¿Cuál es la esencia del arte? mónica saldías2 antropofagia e iararana, de sosígenes costa. marcos aurélio souza 3 antonio tàpies: el arte de lo imaginado. miguel ángel muñoz 4 andré breton o el dolor de los objetos. benjamin valdivia 5 camile claudel y el espíritu romántico. víctor sosa 6 césar moro y su obra poética. américo ferrari 7 dominicanisch, de josefina báez: la translocalización de los símbolos. sophie mariñez 8 en el país de witold gombrowicz. carlos roberto morán 9 livro primeiro: vitalidade da arte. foed castro chamma 10 juan eduardo cirlot, entre el surrealismo y la simbología. victoria cirlot 11 là-bas, de j-k. huysmans: notas de leitura. claudio willer 12 montaigne: o teatro do mundo. rodrigo petrônio 13 no llores por mí, latinoamérica. peter gardner 14 o surrealismo que se mostra no brasil. floriano martins 15 somerset maugham: no fio da navalha. vicente franz cecim 16 t. s. eliot: poeta de entreguerras. harold alvarado tenorio artista convidado rudy espinoza (texto crítico de efraím hernández) |
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