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revista de cultura # 21/22 - fortaleza, são paulo - fevereiro/março de 2002 |
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Là-bas, de J-K. Huysmans: notas de leitura Claudio Willer Havia lido Là-bas
pela primeira vez décadas atrás. Antes de A rebours, Às avessas,
narrativa mais importante ou de maior influência de Joris-Karl Huysmans (pseudônimo ou
adaptação do nome real, Charles-Marie-Georges Huysmans), tão bem traduzida por José
Paulo Paes (Cia. das Letras, 1987). Breviário da decadência, como já foi
chamado, Às avessas é obra matriz, pelo modo como preferências literárias nela
manifestas constituíram uma poética de impressionante lucidez. Afinal de contas, não é
pouco alguém, já em 1884, depois de literalmente entronizar Baudelaire e declarar-se
decepcionado com o Parnasianismo, proclamar que poetas bons mesmo, além de Verlaine,
seriam Mallarmé e o então desconhecido Tristan Corbière, que depois viria a
confirmar-se como o maior dos "simbolistas menores". Se então circulassem
Rimbaud e Lautréamont, e Huysmans houvesse tido acesso a eles, com certeza entrariam
neste anticânone.
Às avessas contém, mais que uma poética, uma filosofia do Simbolismo. Consiste em entender a linguagem como universo autônomo, legitimando alguém isolar-se, criando um refinado mundo próprio e convertendo em coisas e modo de vida o primado da imaginação, a rainha das faculdades, como a denominara Baudelaire, assim formulando tudo o que simbolistas e decadentistas, ou melhor, simbolistas-decadentistas, adotariam. Daí seu protagonista Des Esseintes haver-se tornado emblema de uma época e uma cultura ao lado do Axel de Villiers de LIsle Adam, como tão bem observou Edmund Wilson. Levou-me à releitura de Là-bas, entre outras razões, a idéia de propor sua tradução. Desisti no segundo parágrafo, por causa da extensão vocabular, e mais, a mobilização, já nas invectivas iniciais contra o realismo e naturalismo, de tudo o que a língua francesa pode colocar à disposição, dos idiomatismos e linguagem corrente ao registro erudito. A propósito, Henri Behar, em sua biografia de André Breton, observa que Huysmans estava entre as leituras preferidas de adolescência e juventude do surrealista. Huysmans, dualista, levou a extremos a polaridade entre Bem e Mal, na criação literária e na vida (seguindo os passos de Santo Agostinho, a quem admirava, foi das missas negras ao monastério trapista). Breton, monista, insistiu na superação das antinomias. Mas o anti-naturalismo, anti-positivismo, anti-realismo, a recusa da realidade externa e da tentativa de representá-la pela criação literária, os aproximam. Assim como o estilo, a utilização plena dos recursos vocabulares, sintáticos, retóricos do francês. Basta comparar as páginas iniciais de Là-bas, que começa de modo nada linear, como manifesto literário, e as do Primeiro Manifesto do Surrealismo, de Breton. O procedimento de reconstituir ou reescrever história da literatura a partir do presente é o mesmo, no modo como Breton se refere à linhagem de sucessores do Romantismo e sua atmosfera insalubre no Segundo Manifesto, quase um decalque das expressões usadas por Huysmans no elogio aos decadentistas e suas obras doentias, insalubres e irritadas pela febre. Determinou o sucesso de Là-bas, alçado a best-seller, o charme das bruxarias e missas negras. Por ser verdadeira, baseada em fatos que aconteceram, a perversão transpira através dos poros desta obra paradoxal, tão moralista, tão indignada com o mal, porém exibindo-o de modo escancarado. Boas fontes, como História da Filosofia Oculta de Alexandrian, ou a minuciosa biografia de Alfred Jarry por Noël Arnaud (por enquanto a melhor crônica da vida entre os simbolistas naquele fim de século), mais os estudos biográficos sobre o próprio Huysmans, não deixam dúvidas: é narrativa à clef. Para cada personagem, uma ou mais pessoas reais. A cicerone do protagonista-narrador Durtal, alterego de Huysmans, no mundo infernal, levando-o às missas negras, Madame Hyacinthe Chantelouve, é a junção de duas mulheres. Uma, Berthe Courrière, esposa de Rémy de Gourmont, crítico-ideólogo do Simbolismo, editor da revista Mercure de France, (no livro, Chantelouve, historiador e crítico), que se deitou nua sobre altares entre outras façanhas, como a de provocar a ruptura entre Gourmont e Alfred Jarry, por este haver-se recusado terminantemente a ir para a cama com ela. Por sua vez, a correspondência amorosa entre Durtal e Hyacinthe, narrativa epistolar inserida em Là-bas, é transcrição da troca de cartas de Huysmans com Henriette Maillat, especialista em casos com escritores. Um detalhe que me parece anacrônico é o tom de dúvida de Huysmans-Durtal ao referir-se à iminência de mais uma aventura amorosa, observando que já estava velho para essas coisas. Huysmans tinha 41 anos quando conheceu Berthe de Courrière. Com essa idade, hoje seria a farra, e esse tipo de consideração, na linha de que sexo já era e não interessa mais, caberia a alguém vinte ou trinta anos mais velho.
A propósito, o espanto com a aceitação, hoje, dos livros tratando ou propondo-se a tratar de aproximações ao oculto, não passa de ignorância histórica. Isso vem desde o começo do mercado editorial, ou antes. Para alcançar leitores, tais obras só precisaram de uma coisa: deixar de serem proibidas pela Igreja. A sociedade leiga favorece o trânsito de heresias e desvios de dogmas, na mesma medida em que as pessoas sempre procurarão algo que se apresente como alternativa à banalidade do cotidiano, para usar a expressão de Colin Wilson em O Oculto ao comentar a adesão ao gnosticismo e suas variações. Ocultistas franceses como Elifas Levi, Papus, Guaitä, Péladan, foram celebridades mundiais, recebiam visitas de toda a Europa, e as vendas de suas obras alcançavam boas cifras (idem a variante inglesa, a partir de Madame Blavatsky). Entremos no que Là-bas tem de mais inquietante. Vimos que seus personagens existiram. Os acontecimentos também, pois, desde o século XVII, invocações a Satã e missas negras, propostas como recuperação dos sabás das bruxas medievais, eram regularmente praticados. Huysmans sabia disso: conta a história toda, vai traçando o percurso da bruxaria desde os gnósticos do se´culo I até seus contemporâneos. Trata o assunto com ambivalência, ora como manifestação de histeria, clube de epilépticos; ora como encarnações de algo com peso ontológico, o Mal. Mas, notem bem, os efeitos dessas práticas, quer fossem da esfera psíquica ou sobrenatural, ou um paralelismo entre ambas, também aconteceram! O equivalente histórico ao astrólogo Givenchi de fato adoeceu e estava a consumir-se por causa dos malefícios do satânico Docre, por sua vez derrotado pelo sábio Johannés. Até aí, também há evidência documental sobre confrontos de magos, Elifas Levi versus Vintras, ou Boullan (amigo de Huysmans) contra Guaitä, gerando desde duelos até mortes misteriosas e prematuras.
Arquivista enlouquecido, é isso o que Huysmans foi. Burocrata na vida real, funcionário público da mesma espécie dos que satirizou em La rétraite de Monsieur Bougran, um organizador, consulente e compilador de documentos. E de livros, claro. Além de investir o estoque da sua língua, conforme observei, insere e joga sobre o leitor volumes da bibliografia disponível, e outros acervos simbólicos, a começar pelas artes plásticas, repetindo e exagerando os procedimentos de Às avessas. Com seus longos diálogos, reflexões do protagonista, descrições, cartas, é uma prosa com raízes firmemente fincadas em Balzac, hiper-realista, mais que qualquer outra coisa. Mas para falar do quê? Do não-real, do oculto, do misterioso, do transcendental. Da outra realidade. Um realismo a mais. Para ele, o que Zola e afins retratavam era pouca realidade, a representação positivista, por isso esquemática, pobre, do mundo e da sociedade. Critica-os pela falta, pela omissão, não pelo excesso. Realidade a mais? Pouca realidade? Mas onde já ouvimos falar disso, ou lemos a respeito? Pois é. E assim se fortalece o vínculo Huysmans-Breton, por mais que trilhassem caminhos opostos. A mais-realidade de Breton era o sublime, a realização do amor louco, o mundo regido pelo signo ascendente. Huysmans, não; quis mostrar, textualmente, o que estava lá embaixo, ou aí embaixo, logo aqui, bem perto, a nosso lado. Para ele, a literatura foi, entre outras coisas, instrumento para iluminar zonas sombrias do real. Huysmans é o capítulo de A literatura e o mal que Georges Bataille deixou de escrever, talvez por causa da conversão e subseqüente tentativa de fazer a literatura e o bem em obras piedosas como La Cathédrale e L´Oblat.
Enfim, colocando-as frente a frente, vê-se que Là-bas é o Às avessas para valer, a sério. Pelo modo como radicalizou, exacerbou o que já constava, incipiente ou implícito, no livro anterior, pode-se imaginar o quanto Huysmans estava possesso, embriagado pelo Mal e ao mesmo tempo, como se forças cósmicas se confrontassem dentro dele, entidades de peso metafísico, pelo Bem. Viveu um combate do qual a luta entre o mago negro, Docre, e o mago do bem, Johannés, é uma alegoria. Deu-lhe peso ontológico: O Princípio do Mal e o Princípio do Bem, o Deus da Luz e o Deus das Trevas, dois Rivais, disputam entre si nossa alma, anuncia à página 57 da minha edição de Là-bas (Plon Le Livre de Poche, 1961). Atribuiu-lhe dimensão histórica ao comentar pioneiramente os gnósticos. Caluniou-os. Retratou até mesmo os cátaros de Albi como gnósticos dissolutos, sodomitas, em uma interpretação que não é autorizada por estudiosos recentes do assunto. Ao mesmo tempo, ele, Huysmans, não deixava de ser um gnóstico, ou alguém que encenou a moral do gnosticismo em sua vida, ao menos em seu fundamento, a idéia de que é possível chegar à verdadeira experiência do bem através de um mergulho no mal. Comprovam-no sua vida e sua obra. Foi um passional, de uma exacerbação bem francesa. Mais que fascinado ou apaixonado pelo Mal ou pelo Bem, movia-o um furor contra o mundo em que vivia. Là-bas é um exemplo de escrita raivosa. Sociedade burguesa deixava de ser algo para ser descrito na forma romanceada, convertida em narrativa, como o fizeram realistas e naturalistas, mas sim, para ser apostrofada, insultada. Quando possível, com crueldade, por exemplo na passagem em que, como rodapé de uma de suas ceias em companhia de Hermies e Charhaix, sempre descritas de um modo que as equipara a obras de arte, relata que vai almoçar uma vez por mês em um restaurante, só para observar como os demais freqüentadores, clientes regulares do estabelecimento, vão morrendo aos poucos, consumindo-se, ficando esverdeados, com olheiras fundas, por efeito da comida que lhes é servida. Goza, vendo burgueses se acabarem através de seus produtos e seu estilo de vida. No final do livro, a citação das orações em latim ditas por Gilles de Rais ao ser executado é encoberta pelo ruído das massas, pela multidão nas ruas comemorando a vitória eleitoral de Boulanger. Termina declarando que burgueses são aqueles que encherão suas tripas e esvaziarão a alma pelo baixo-ventre, dignos representantes do século que contamina o sobrenatural e vomita o além, sem oferecer qualquer esperança para o futuro. A perversão, quer dos gnósticos ou do que atribuía aos gnósticos, as variantes da magia negra e satanismo, passando por Gilles de Rais, pelas histéricas de Loudun, até chegar ao cônego Docre, bem como a santidade, são melhores. Justificam-se por não terem nada a ver com a realidade imediata, negando o mundo medíocre pelo qual se via cercado. Politicamente, por mais simpática que seja sua ausência de correção, Huysmans não se sustenta ao querer demonstrar que a Idade Média, essa sim, foi melhor, com intensa atividade cultural e espiritual, ética bem definida, sem desemprego e miséria na sociedade estruturada em corporações; pelo menos, não nos níveis produzidos pela sociedade industrial. Esqueceu que a simples expansão populacional bastaria para fazer explodir essa organização medieval. O lema de Huysmans poderia ser o trecho do Apocalipse (utilizada por Dostoievski em Os irmãos Karamazov) atribuída ao Anjo de Laodicéia: Eu sei as tuas obras, que não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és nem frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca. Sua visão da sociedade de massas tem evidentes analogias com a passagem que Nietzsche, em Assim falava Zaratustra, dedica aos últimos dos homens, os que amesquinham tudo e são indestrutíveis como pulgas. Contudo, em Nietzsche os últimos dos homens precedem o super-homem. Em Huysmans, niilista completo, não há nada, exceto sair fora, para o isolamento radical dos trapistas. |
Claudio Willer (São Paulo, 1940). Poeta, tradutor, ensaísta e um dos editores da Agulha. Autor de livros como Jardins da provocação (1981) e Volta (1996). Tradutor de Artaud, Ginsberg e Lautréamont. Preside a União Brasileira de Escritores (UBE). Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Rudy Espinoza (Costa Rica).. |
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