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revista de cultura # 23 - fortaleza, são paulo - abril de 2002

Max Jiménez

Editorial
Da arte e da crítica: a crônica do suportável

Responsável pela curadoria da representação brasileira nesta atual Bienal de São Paulo, o crítico Agnaldo Farias comenta que "as artes plásticas viraram um saco de pancadas", observando ainda que comentários freqüentes da parte de nomes como Carlos Heitor Cony, Arnaldo Jabor e Ferreira Gullar, não passam de "as mais altissonantes cretinices e besteiras sobre o assunto".

Talvez se possa dizer o mesmo da própria produção artística, ao menos aquela que encontra abrigo na grande imprensa. Não se trata aqui de defesa desse tipo de crítica questionada por Farias, mas, antes, de uma preocupação mais ampla, com relação ao seguinte: onde radica o descompasso entre crítica e produção artística? A dúvida é se críticos e artistas, em nossa contemporaneidade, não estariam a se merecer.

Busquemos equivalência na poesia e na música. Recentemente, o jornal O Globo (Rio de Janeiro) deu voz às diatribes do poeta Alexei Bueno. Em princípio poderíamos ver ali "as mais altissonantes cretinices e besteiras sobre o assunto". Mas tudo o que despeja Bueno sobre a poesia brasileira também nos leva a pensar acerca da produção manifesta dessa poesia. Já o crítico Lauro Lisboa Garcia (revista Época) dá passagem a declarações do compositor Lenine em defesa de uma "não-fórmula", que poderia eventualmente ser entendida como uma contra-estética. Ingenuamente, repete chavões como "não sei muito bem aonde quero chegar, mas sei aonde não quero", e o jornalista tanto não questiona essas reiterações quanto situa Lenine como o mais inventivo expoente da canção brasileira contemporânea.

Para os leitores que não conhecem Bueno e Lenine, cabe informar que o primeiro jamais teve dificuldade de acesso à mídia, enquanto que o segundo somente nos últimos anos é que o tem conseguido. De qualquer maneira, tais exemplos permitem indagar: quem está a dever a quem: a arte ou a crítica? A referência a ambas categorias - arte e crítica - se dá aqui em um espectro mais amplo, abrangendo toda a criação artística e conseqüentes perspectivas de reflexão e difusão.

Francis Bacon creditava ao senso crítico de um artista uma importância fundamental: "pode ser que não seja nem um pouco mais talentoso, mas o seu senso crítico é simplesmente melhor". Caberia lembrar o óbvio, que arte é linguagem, e que ninguém cria alheio a um ambiente - cria-se contra ou a favor, mas nunca de modo alheio -, para então perguntar: o que aceitamos como evidência corresponde a uma realidade intrínseca, ou à realidade permitida? O que se anuncia é o registro honesto do que temos, ou uma escala de interesses de mercado? Como seguir acreditando na arte e na crítica?

A criação artística, ao longo do século XX, aventurou-se em peripécias políticas, em muitos casos tornando-se refém de uma visão nacionalista. De alguma maneira, aprendemos que essa condição não interessa à arte. Agora, se o que vamos pôr no lugar é o caráter amorfo de uma arte que reflete apenas o previsível, e que se deixa demarcar esteticamente pelo que aponta o mercado, então estamos negociando miçangas.

Teria a arte deixado de representar negação ou afirmação de uma realidade dada, passando a ser quase uma crônica do suportável? Nenhuma crítica é digna de relevância se não contempla essa encruzilhada que possivelmente não passe da simples mudança de pele de uma cobra de quintal. Aos artistas faltaria, portanto, senso crítico em igual proporção à da escassez de talento dos críticos? Ou como indaga o Belchior em uma canção: "alguém se atreve a ir além do Shopping Center?" Conversemos.

Este número da Agulha mostra que há uma outra arte e uma outra crítica, que dialogam como partes de um todo e que se buscam amorosamente, não limitadas pelo jogo de anunciantes da mídia, ao mesmo tempo em que conscientes desse ardil cuja relevância é justamente a de revelar o caráter de seus participantes.

E aqui se entrelaçam arte e crítica, na visão solidária de mundo (em nenhum momento deixando de ser questionante) de Albert Marencin, Alfonso Chase, Américo Ferrari, Esteban Moore, Fabrício Carpinejar, Félix Contreras, Maria Esther Maciel, Miguel Ángel Muñoz, Sophie Maríñez e Tomás Saraví, as vozes críticas que assinam as matérias desta Agulha # 23, a todo instante lembrando-nos que a arte não deve tornar-se uma mera crônica do suportável.

Os editores

Agulha - Revista de Cultura

Max Jiménez

Sumário

1 a poesia entre o Surrealismo e a poesia (diálogos) claudio willer & floriano martins
2 altagracia carrasco, escultora dominicana (entrevista). sophie maríñez
3 andré breton y los destinos del surrealismo checoslovaco. albert marencin
4 anne waldman: una mujer de palabras veloces. esteban moore
5 compay segundo es primero (entrevista). félix contreras
6 desnudar la realidad, construir el futuro. tomás saraví
7 exercícios de ficção: peter greenaway à luz de jorge luis borges. maria esther maciel
8 la poesía de josé ángel valente: lugar del canto, lugar de nadie, lugar común. américo ferrari
9 materia y pintura: aproximaciones a la obra de albert rafols-casamada. miguel angel muñoz
10 vicente franz cecim: o alquimista luminoso do silêncio (entrevista). fabrício carpinejar

artista convidado max jiménez (texto crítico de alfonso chase)
livros da agulha: alain dorbez, serge gruzinski, nelson de oliveira, gaetano longo, afonso félix de sousa, reynaldo damázio, patativa do assaré
coleção
resto do mundo

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Max Jiménez

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jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

conselho editorial
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alfredo fressia (brasil)
benjamin valdivia (méxico)
contador borges (brasil)
cristina castello (argentina)
maria esther maciel (brasil)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
soares feitosa (brasil)

víctor sosa (méxico)

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