Isabel Ruiz Agulha (collage de Floriano Martins) Isabel Ruiz

revista de cultura # 24 - fortaleza, são paulo - maio de 2002

Isabel Ruiz

Editorial
Uma nova cultura da resistência?

Fazem parte do dia-a-dia de quem for profissional de alguma modalidade cultural, especialmente se de algum modo atuar na conexão entre órgãos culturais públicos e produção cultural, as notícias de cortes ou reduções de recursos públicos destinados a essa finalidade, quer seja no Brasil ou, em maior grau, na Argentina, e em inúmeros outros lugares. Os motivos, sabemos quais são. Carências dramáticas requerem medidas urgentes. O crescimento econômico, em toda a América Latina e em boa parte do restante do mundo, foi menor que o previsto em 2001. Aumentou o desemprego. Pagamentos de dívidas comprometem orçamentos municipais, estaduais e federais. Em metrópoles brasileiras, há uma crise da segurança pública que obriga a destinar mais verbas para essa área.

No entanto, é falacioso o argumento de que a redução de dotações de recursos para a cultura seria inevitável, para que se possa atender prioridades sociais e de segurança pública. Assemelha-se àquele enunciado da época do "milagre econômico" brasileiro do início dos anos 70, quando se registrava um crescimento do PIB, Produto Interno Bruto, a taxas superiores a 7% ao ano, bem como de tantos outros momentos de crescimento econômico em países emergentes ou em desenvolvimento. Invariavelmente dizia-se, nessas ocasiões, em primeiro lugar ser necessário que a economia crescesse, para então distribuir melhor a renda. A afirmação contrária teria sido mais correta, pois a melhora da distribuição de renda é condição prévia para o crescimento, fundado em um desenvolvimento econômico estável e consistente.

Por razões semelhantes, não podemos aceitar o argumento de que a cultura pode ficar para depois. Esse "depois" acaba postergado até os confins da eternidade, às margens do nunca. Deixar de considerar prioritário o investimento público em cultura é pavimentar o caminho para a barbárie. Entender que a redução da miséria deve preceder o desenvolvimento cultural é um duplo erro. Abandonam-se instrumentos para resolver graves questões sociais, esquecendo que o investimento em cultura é economicamente produtivo. Social, em primeira instância, é aquilo que produz ocupação remunerada. E já foi demonstrado que cada real, dólar, peso ou bolívar aplicado em atividades e projetos de natureza cultural pode gerar muito mais empregos, proporcionalmente, do que, por exemplo, aquele dirigido ao desenvolvimento industrial. Além disso, desorganização social é, em si, problema cultural. Sua correção ou solução passa pela criação de melhores condições de acesso da população à informação e à transmissão do conhecimento.

Recentemente, foram publicadas, na imprensa brasileira, interpretações e extrapolações enviesadas de um livro recente, O preço da leitura, de Marisa Lajolo e Regina Zilberman, para demonstrar que escritores - e artistas e intelectuais em geral - são beneficiários diretos ou indiretos de verbas públicas, vivendo, alguns, às custas do Estado. Um detalhe, apenas, não foi observado: que nos países de primeiro mundo, nas economias mais prósperas, essa transferência de recursos públicos para a cultura é, proporcionalmente, muito maior. E mais: que esse apoio à cultura, sintomaticamente, historicamente precede o desenvolvimento econômico, assim contribuindo para criar instrumentos para a modernização dessas economias e dessas sociedades.

Isso não significa que iniciativas independentes do patrocínio público deixem de ter chance, e que sejam incapazes de resistir a conjunturas difíceis. Mais um bom exemplo de até onde pode chegar a dedicação pela cultura é a revista mexicana Alforja, editada por um colaborador de Agulha, José Angel Leyva, junto com José Vicente Anaya e María Vázquez Valdez, publicada pela Fraternidad Universal de los Poetas. Seu último número consiste em uma coletânea de poetas brasileiros, acompanhada de ensaios e entrevistas, preparada por um dos editores de Agulha, Floriano Martins. Sua boa acolhida, não apenas no México, mas também no Brasil, fornecerá motivos adicionais de otimismo, ao mostrar que a resistência cultural é possível e poderá avançar.

Os editores

Agulha - Revista de Cultura

Isabel Ruiz

Sumário

1 alberto giacometti: un escultor. oscar gonzález
2 charles simic: el mundo no se acaba (entrevista). juan carlos galeano
3 O acaso objetivo e André Breton: encontros com a vida e a morte. claudio willer
4 eduardo chillida: el ritmo y la forma. miguel ángel muñoz
5 egon schiele y la radiografía de una época. víctor sosa
6 la imbricación de la expresión poética en la obra narrativa de josé maría arguedas y juan rulfo. américo ferrari
7 livro segundo: o ser e o real. foed castro chamma
8 luis henrique mejía godoy: conversaciones con un trovador errante (entrevista). mónica saldías y floriano martins
9 poesía y subversión en la obra de joan brossa. clemente padín
10 vicente garrido habla de musica latinoamericana (entrevista). félix contreras

artista convidada isabel ruiz (textos críticos de sagrario castellanos e lucrecia méndez de penedo)
livros da agulha: helio jaguaribe, lais corrêa de araújo, lina zerón, sylvia riestra, henriqueta lisboa, novalis, alforja/brasil
coleção
resto do mundo

Agulha - Revista de Cultura

Isabel Ruiz

Expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

conselho editorial
alfonso peña (costa rica)
alfredo fressia (brasil)
benjamin valdivia (méxico)
contador borges (brasil)
maria esther maciel (brasil)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
soares feitosa (brasil)

víctor sosa (méxico)

artista plástica convidada (obra múltipla)
isabel ruiz

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