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revista de cultura # 25 - fortaleza, são paulo - junho de 2002 |
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Luís Miguel Nava: o corpo como inscrição do real ou o corpo radical Maria João Cantinho Um dia, ao acordar, deu por ter deixado todos os seus ossos num dos sonhos, do qual, como dum espelho, a carne e a roupa juntas irrompiam. Nunca mais desde então os pôde espetar na realidade, coisa que antes tanto se orgulhava de fazer. Luís Miguel Nava, "Os Ossos", in O Céu sob as Entranhas. Pouco conhecido do grande público, Luís Miguel Nava nasceu em
1957 e desapareceu precocemente em 1995, cinco meses após a publicação de Vulcões, sem
que tivesse saído um único artigo crítico sobre o seu livro. As causas desta
indiferença podem ser múltiplas, mas, provavelmente, a principal razão terá sido a
incapacidade para absorver uma obra inteiramente avessa aos padrões da poesia portuguesa,
intensamente radical, quer na sua forma como no conteúdo . Como o refere Gastão Cruz
[1], Luís Miguel Nava só pode ser relembrado como "um ser paradigmaticamente
livre" e desmistificador, em todas as acepções: transgressivo, anti-conservador e
crítico. Ao criticar a moralidade vazia e adotar uma atitude sistemática e analítica
perante o real, não admira que tenha levado essa atitude a uma radicalização, da qual a
expressão mais acabada terá sido a de assumir o corpo (na sua nudez e totalidade
abrangente) como o centro da sua obra, emblema de uma inscrição do real, isto é, o
corpo dilacerado, matriz onde se inscreve a fragmentação da verdade, da experiência e
da vivência mundana: "Por dentro do meu corpo, onde é possível separar do sangue
os vários órgãos, a quem destes o contemple é dado vê-lo embravecer contra as
vitrines. Desnudarmo-nos é pouco, há que mostrar as vísceras (...)" [2]. Numa
ousadia ainda pouco usual na poesia portuguesa, o autor transformou essa descida aos
abismos viscerais numa via de conhecimento que se desdobra e opera no interior do seu
projeto poético, com toda a matéria verbal que ele implica, nas suas mais diversas e
concretas configurações. Além de um jogo metafórico peculiar, note-se a importância
do esbatimento das clássicas dicotomias entre sentidos/razão, abstracto/sensível,
sensorial/espiritual. O corpo, assim distendido, em toda a sua extensão, como pura
materialidade, acaba por revestir uma dimensão trágica, infinitamente solitária e
vulnerável, que se acentua ao longo da sua obra.
Sete anos volvidos após a sua morte, a D. Quixote presta-lhe justiça, compilando uma obra que marcou o panorama poético português, nas décadas de 80 e 90. Aliando uma forte expressividade, que lhe advém da intensidade criatividade metafórica, a uma tendência narrativa da qual resultam poemas em prosa, o autor oscila entre o plano do concreto - comparando o corpo e os órgãos humanos a órgãos funcionais, utilitários - e o plano do abstracto, revelando a sua poesia uma concentração elevadíssima, abrindo-se a uma leitura que suscita contradição e que é, também por isso, inesgotável. O melhor exemplo dessa tensão metafórica pode encontrar-se no próprio título O Céu sob as Entranhas. A forte componente "alucinatória" (na opinião de Eduardo Prado Coelho) da poesia de Nava coloca-o mais próximo da poesia dos anos 60 e de poetas como Herberto Helder e Luiza Neto Jorge do que outros, mais próximos de si (da geração de 70). Por outro lado, como o nota Gastão Cruz, essa vertente combina-se com a depuração e o rigor dos artífices consumados [3], como sejam o caso de Carlos de Oliveira (sobretudo de Micropaisagem) e de Eugénio de Andrade (de Ostinato Rigore). A conjugação, entre uma concentração despojada, "a aridez da linguagem" [4], tão procurada na sua poesia, e o seu caráter alucinatório é, sem dúvida, o traço mais impressivo e original da sua obra, que lhe confere a tonalidade neo-expressionista e o destaca dos poetas da sua época, transformando-o num caso excepcional.
Nos seus primeiros livros, Luís Miguel Nava suporta a sua poética numa rememoração apresentada pela imagem do mar, sobretudo nas obras Películas, A Inércia da Deserção, Como alguém disse (agrupados sob o título Onde à nudez) e Rebentação. Tal como Rosa Maria Martelo faz ressaltar [6], o mar ou a paisagem marítima concentra em si a imagem da desmesura, apresentando metaforicamente a ideia do sublime kantiano, mais ou menos fácil de reconhecer pelo excesso que se configura nas paisagens evocadas pelo poeta (vulcões, campos de relâmpagos, tempestades, abismos, rebentações). Todas essas metáforas remetem para a infinitude da idéia que nelas se apresenta, patenteando a inadequação que o poeta encontrava na escrita. O lugar do "absolutamente grande", o nó da sua sublimidade vai encontrar precisamente o fulcro no corpo e nele se fixa como a sua apresentação; no corpo, nas vísceras, na pele. Ao longo do seu percurso poético, a tensão erótica vai abandonando o seu aspecto apolíneo, intrínseco nas primeiras obras, transformando-se numa paisagem baconiana e visceral, analisada de forma notável por Carlos Mendes de Sousa (cf. o seu estudo, in "A Coroação das Vísceras", na revista Relâmpago, nº 1, 10/97, bem como no prefácio de Fernando Pinto de Amaral à obra completa de Luís Miguel Nava). De salientar o poema "Matadouro", na p. 181, em que essa ideia se apresenta de uma forma impressiva: "Dancei num matadouro, como se o sangue de todos os animais que à minha volta pendiam degolados fosse o meu. Dancei até que em mim houvesse espaço para um poema de que todas as imagens depois fossem desertando". A exaltação das vísceras e do sangue atingem aqui um paroxismo que transforma o poema numa imagem deflagradora, em absoluto, num exercício de levar ao limite a tensão da hipérbole: "(...) Só num espelho assim saído há pouco das entranhas dum ser vivo se desenha a nossa verdadeira imagem (...) A luz que das vísceras emana é a de deus, aquela que, por uma excessiva dose de trevas misturada, mais do que qualquer outra se aproxima de deus, que resplandece nas carcaças em costelas onde é fácil pressentir as incipientes asas de algum anjo".
Esta espécie de desassossego que Luís Miguel Nava nos provoca, um verdadeiro arrepio perante a brutalidade das metáforas e o excesso que nelas deflagra, é um atributo inalienável da grande poesia, apelando, não a uma serenidade, por parte do leitor, mas a uma verdadeira suspensão perante o que se entende ser (ou não se entende) a função da verdadeira poesia. É uma obra inquietante e em que a incidência do olhar se faz verticalmente e sem tréguas. Atirávamos pedras ["Sem outro intuito", Vulcão.] NOTAS 2 Luís Miguel Nava, Poesia Completa, Editora D. Quixote, Lisboa, 2002, Rebentação, "Vitrines", p. 143. 3 Cf. Gastão Cruz, A Poesia Portuguesa Hoje, editora Relógio dÁgua, p.187: A construção do poema era, para Luís Miguel Nava, um trabalho obsessivo. Cada texto o ocupava durante dias ou semanas, em sucessivas versões (...)". Essa disciplina era reforçada com a extrema condensação dos poemas em prosa. 4 Cf. poema "Céu Árido", p. 168: "A fala quer-se árida, de uma aridez idêntica à da roupa que nos cobre o corpo ou à do céu, de que me esforço, sempre que dele falo, por deixar à mostra um dos agrafos mais profundos." 5 Ideia que é observada justamente por Gastão Cruz no posfácio à obra completa do poeta. 6 Cf. Relâmpago, nº 3, pp. 16, 17, 10/98. |
Maria João Cantinho (Portugal, 1963). Escritora e jornalista. Autora de A Garça (2001) e Abrirás a noite com um sulco (2002). Escreve com freqüência na imprensa portuguesa, em publicações como Hablar/Falar de Poesia e a elegante revista Storm, dirigida por Helena Vasconcelos, que teve a gentileza de nos ceder o presente texto para publicação na Agulha. Contato: mjcantinho@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Luis Caballero (Colômbia). |