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revista de cultura # 26 - fortaleza, são paulo - julho de 2002 |
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That's the way the moon wanes (fragmentos de uma leitura dramática) William Burroughs & Floriano Martins ___ 1 CONFERENCISTA - O que se passa em sua mente? Nada comparável a isso. As idéias
distintas que podemos ter acerca do mesmo símbolo. Duas ou mais noções da origem de um
mesmo objeto. Descartes havia chamado a atenção para as idéias do sol que podemos ter
em nossa mente, ou seja, as idéias acidentais e as idéias conceituais, criadas a partir
de algumas noções que trazemos inatas em nós. (Descobri que quando estou preparando uma
página de meu álbum de recortes, quase invariavelmente sonho à noite com alguma coisa
relacionada a essa justaposição de palavra e imagem. Na verdade, o sonho não passa de
uma certa justaposição de palavra e imagem. Em outras palavras, tenho me interessado
precisamente pela movimentação de palavra e imagem em linhas de associação muito,
muito complexas. Faço uma porção de exercícios naquilo que chamo de viagem no tempo,
tomando coordenadas, tal como o que fotografei no trem, o que eu estava pensando naquele
momento, o que estava lendo e o que escrevi. Tudo isso para ver o quanto eu consigo me
lançar de volta, completamente, naquele determinado ponto do tempo.) Segundo a
astronomia, não existe matéria nova no universo, estando todas as formas constituídas
dos mesmos elementos já conhecidos por todos nós. O que vale para classificar as
estrelas talvez possa ser igualmente útil para entender a mente humana. (Os álbuns de
recortes e a viagem no tempo são exercícios para expandir a consciência, para me
ensinar a pensar em blocos de associação mais do que em palavras. Recentemente passei um
tempo estudando sistemas hieroglíficos, o egípcio e o maia. Todo um bloco de
associações
bum!
assim! As palavras - pelo menos do jeito que as usamos -
podem ser obstáculos ao que chamo de experiência incorpórea. Já é tempo de pensarmos
em deixar o corpo para trás.) Se retorno a distantes ambientações de minha memória,
percebo formas idênticas à que concebo hoje, vibrando em um mesmo ritmo, o que
certamente me permite especular sobre as formas que um dia conceberei como aparentemente
novas. (O que quero fazer é aprender a ver mais o que está lá fora, a olhar para fora,
atingir tanto quanto possível uma completa percepção do que nos cerca. A maioria da
pessoas não vê o que está acontecendo à sua volta. Esta é a minha principal mensagem
para os escritores: pelo amor de Deus, mantenham seus olhos abertos. Percebam o que está
acontecendo à sua volta.) Segundo o psiquiatra Anthony Storr, a criação artística
alcança um estágio além do pessoal, porque depende de um processo de ordenação que é
principalmente inconsciente e, portanto, não desejado deliberadamente pelo artista. O
fato da criação artística ser um produto do cérebro, isto não significa que deva ser
voluntária. O cérebro opera de uma maneira misteriosa que não está sob o controle
voluntário. Às vezes devemos deixá-lo em paz para que funcione ao máximo. (Se Nova
Express é um cut-up de muitos escritores? Joyce está lá. Shakespeare,
Rimbaud, alguns escritores de quem as pessoas não ouviram falar, alguém chamado Jack
Stern. Há Kerouac. Não sei, quando você começa a fazer essas dobraduras (fold-in)
e recortes (cut-up), você perde a conta. Genet, claro, é alguém que
admiro muito. Mas o que ele está fazendo é prosa clássica francesa. Ele não é um
inovador verbal. Também Kafka, Eliot; e um dos meus favoritos é Joseph Conrad. E Richard
Hughes. Quem mais? Espere um minuto, vou checar os meus livros de coordenadas para ver se
há alguém que esqueci.) Haveria então uma lei da causalidade, o que fundamentaria a
noção de unidade orgânica do universo. O recorte de um cérebro ou de uma estrela não
se distinguiria pela substância de que é feito, mas sim pelo movimento que
proporcionaria a tudo que estivesse à sua volta. (Esse não é o modo como as coisas
ocorrem. Sinto que a construção aristotélica é uma das grandes algemas da
civilização ocidental. Os cut-ups são um movimento em direção à derrubada
disso.) Segundo nos diz Fredo Arias, os arquétipos que o poeta concebe durante seus
sonhos ou estados de possessão provêm de seu próprio inconsciente, e tornam-se
conscientes ao perceber, escrever ou recordá-los. (As pessoas me dizem, "Ah, é tudo
muito bom, mas você o conseguiu por cut-up". Digo que isso não tem nada a
ver, como eu consegui. O que é qualquer texto senão um cut-up? Alguém tem que
programar a máquina, alguém tem que fazer o cut-up? Lembre-se de que primeiro fiz
uma seleção. De centenas de sentenças possíveis que poderia ter usado, escolhi uma.)
Como arrancar de cada coisa o julgamento que lhe afirma um sentido único, uma espécie de
dimensão funcional? A suspensão do juízo seria uma maneira pertinente de ver uma coisa
sem perceber outra, ou seja, de igualar visão e percepção. No entanto, o homem optou
por sobrecarregar cada coisa de um sem números de sentidos, uma espécie de acumulação
obsessiva de sentidos. O que pode ser visto como um novo desafio para a imaginação:
restaurar o sentido original de cada coisa, soterrado sob demãos e demãos de idéias
acidentais e conceituais.
ATOR 3 - Em tudo o que tenho ouvido, há momentos em que percebo a presença de
Burroughs. Mas em outros
CONFERENCISTA - Não se trata apenas de uma mudança deliberada de estilo.
Estamos tendo sempre que rastear todos os casos em que se perdeu o contato com o autor.
Mas quem é de fato o autor? Com que profusão sangra sobre um texto o espírito do autor?
Com que intermitência? Eu lhes digo, rapazes, já ouvi muito papo furado, mas ninguém
pode se aproximar de um autor iludido pelo conhecimento de sua obra? Diante da abundância
da vida, não se pode mais considerar as noções de roubo e autoria. Em certa ocasião
nos disse John Cage: "muitas coisas, onde quer que se esteja, o que quer que se
faça, acontecem ao mesmo tempo. Elas estão no ar. Pertencem a todos nós." E em
outra oportunidade: "nossa poesia agora é a consciência de que não possuímos
nada". Então alguém indagaria: o que teria Burroughs com Cage, tão distantes,
segundo se pensa. Mas que ligação possuía ou queria possuir Burroughs com os beatniks?
Acaso seu desconstrucionismo não o identificaria mais com o poeta e compositor John Cage?
Ou seria um absurdo ver em ambos uma confluência? O próprio Burroughs chegou a
considerar a experimentação musical de Cage a mais radical utilização do cut-up
dentro daquela linguagem. Em outro momento disse não haver afinidade estética entre sua
obra e os integrantes da Beat Generation. Mesmo que The soft machine seja, no dizer
de Burroughs, uma expansão de suas experiências sul-americanas, com prolongamentos
surrealistas. Montado e remontado obsessivamente, este romance deixava claro que Burroughs
não se interessava pelo espontaneísmo isolado que cultivava Kerouac. O autor de On
the road rejeitava o uso da técnica, considerando apenas a emoção. Defendia que a
única coisa que ele e sua arte tinham a oferecer era a verdadeira história daquilo que
viu, e como viu. Kerouac não achava que Burroughs houvesse produzido algo de atraente,
exceto por The naked lunch, embora este livro o colocasse na condição de o maior
escritor satírico desde Jonathan Swift. Para ele, Burroughs abusava da fragmentação.
Dizia que o cut-up não passava de um velho truque Dadá, um tipo de colagem
literária. (Apesar disso, ele consegue bons resultados. Gosto dele quando é elegante
e lógico, e por isso não gosto do cut-up, que tenta nos ensinar que a mente é
fragmentada.) Sim, e também considerava Junkie um clássico. Segundo ele,
melhor do que Hemingway. Junkie não era bem um livro, dizia Burroughs, que via
como insatisfatórios os resultados de sua escrita. A Burroughs interessava, tanto quanto
a Cage, a introdução de elementos ao acaso, desde que ensaiados à exaustão. Pensavam
igual no que diz respeito à necessidade de se sugerir um certo desmazelo. É o que se
verifica nos escritos de Cage ou na música de mister Frank Zappa, por exemplo. Um
desmazelo elegante e lógico, se me permitem. E não haveria também um desmazelo elegante
e lógico nos improvisos inseridos nas partituras de Duke Ellington. Uma mescla de ritmos
periódico e aperiódico, desde que observado que este pode incluir aquele e nunca o
contrário. Era o que defendia Cage, ressaltando que o que importa não é desligar o
relógio, mas sim eliminar a forma como usamos. Não há, portanto, cerebralismo excessivo
em Cage em relação a Burroughs. Todos os espaços preenchidos com sua arte são
conseqüência de um método semelhante. Anotações sobre ritmos, proporções, sonhos,
simetrias, percepções. Corte, montagem, edição rigorosa dos elementos constitutivos.
Arte combinatória. A virulência poética de Zappa tem a mesma origem, basta ver como
combina música erudita, jazz, fragmentos do teatro do absurdo. Segundo Zappa, a arte
afirma-se na citação, na referência, na maneira de abordar realidades preexistentes. Em
todos eles, verifica-se uma mescla eficaz de invenção e provocação.
ATOR 3 - E os beats?
CONFERENCISTA - (Não me associo com eles. Trata-se de uma simples
justaposição, mais do que de uma verdadeira conjunção de estilos literários ou de
objetivos gerais. Kerouac, Ginsberg e Corso são três bons amigos meus, há muitos anos,
porém não fazemos a mesma literatura nem compartilhamos os mesmos pontos de vista. Eu
diria que a importância literária do movimento beatnik não é talvez tão
determinante como sua importância sociológica, que certamente mudou o mundo e o povoou
de beatniks. Derrubou todo tipo de barreiras sociais e converteu-se em um fenômeno
mundial de terrível importância.)
ATOR 2 - Ouçam as batidas de meu coração.
CONFERENCISTA - Evidente que Burroughs não queria que sua obra fosse
confundida com uma estética beat ou surrealista. Sentia a necessidade de
individualizá-la, destacando-a entre a de seus pares. Também não participava do
idealismo messiânico de Allen Ginsberg, ao qual opunha um corrosivo niilismo. De qualquer
maneira, não se mostrava interessado nessa polêmica entre escritores. Ao contrário,
recriminava que Breton tivesse dedicado parte de sua vida às cartas de insulto a outros
escritores, considerando perda de tempo as discussões literárias, polêmicas, manifestos
etc. O mesmo em relação ao que Kerouac havia chamado de abuso da fragmentação.
Burroughs estava consciente de seus riscos e acreditava manter controle absoluto da
situação. Recorria ao exemplo do Finnegans Wake, de Joyce, quando queria abordar
a armadilha em que pode cair a literatura experimental quando se converte em puramente
experimental. Tal observação é válida sobretudo para aqueles que pensam que toda a
obra de Burroughs, a partir de The naked lunch, se encontra definida unicamente
pelo cut-up, ou seja, que tenha recorrido tão-somente a essa técnica. Burroughs
soube mesclar a costura aleatória de imagens à narrativa linear convencional, aplicando
vários métodos e técnicas, em um processo experimental consistente.
___ 2 CONFERENCISTA - Os negócios do sexo são de grande atração em todo o
mundo. Os negócios do sexo. Os negócios das drogas. Há uma ideologia insidiosa
desvirtuando o desejo, valorizando as ilusões. Uma grande loja de distúrbios. Este é o
alcance político que nos une a todos, a verdadeira dimensão ontológica da existência
humana: o negócio das ilusões. Não há prestígio maior que o da extrema ausência de
valores humanistas. Não há autoritarismo ou repressão sexual como um fim em si. Não
mais. O acumulador de orgônios de Reich foi adaptado para amontoar desilusões. A energia
mais valiosa onde quer que pulse a besta do coração humano. Não há desregramento que
convença a máquina a parar de funcionar. Há um olho cínico em sua tez metálica que
pisca e revela que a desordem não representa mais nada. Os negócios estão indo bem e
compõem uma intrincada rede de relações. Atingem grupos de risco e convertem em
veleidade toda forma de misticismo. Não há amor sublime, mas sim desilusão. Os
negócios atraem clientes como uma fonte de libertinagem. Os negócios ampliam o círculo
de amizades tecidas às voltas com novas oportunidades. Avôs de alguns clientes ainda
comentam sobre as leis ideais que foram exterminadas. Há um prêmio especial para aqueles
que confessarem desilusão diante das declarações de parentes. Não há nisto o sentido
de delação. É muito natural que uma regra nova elimine uma anterior. Os negócios dos
valores intrínsecos, pequena loja de peças de reposição. Um dissabor gasto pode ser
rapidamente restaurado. Uma crise nervosa interrompida pode ser rebobinada sem maior
custo. Há empórios que recebem o relato em troca de um pequeno estojo de devassidão.
Há campanhas eletrônicas que dão a cada desilusão um destino literário e
transmissões diárias de amores impossíveis convertidos em sublimes momentos de
resignação pública. Sob um controle tão excêntrico do desejo, não há naturalmente
mais vida íntima. São recomendadas ações punitivas contra aqueles que se recusem a
divulgar os novos métodos de circulação das desilusões. Os negócios de títulos e
cerimônias. Uma pedra Beat, negociada no mercado paralelo, deve valer, com sorte,
dois brasões cobertos de azinhavre de uma linhagem mística. Tais idéias de contato
direto há muito caíram em desuso. Em raros colecionadores encontramos anotações pouco
legíveis de uma tradição anarquista. Os negócios tomaram conta de tudo. A memória
tornou-se um bem improvável. Urna de lagartos. Um comentário irônico. A desilusão não
prevê o deboche. Há um compromisso velado com a seriedade de sua falta de propósito.
Daí que os negócios prevejam hostilidade veemente e imediata a toda forma de rejeição
frontal ao Grande Dissabor, patrono de todos os negócios. Os negócios da glorificação
conduzem a um estado plenamente aceitável de controvérsia. Pequenas gotas de estímulo
administradas em concentrada posologia. Os anúncios de rejeição, as notas de suicídio,
núcleos de oração, trios elétricos, discretas campanhas publicitárias em defesa da
influência implícita, as respeitáveis manifestações de um espontaneísmo induzido. A
orgia rimada e metrificada. Não estaria aí o estágio mais elevado da criação? Talvez
Burroughs tenha pensado, em algum momento de sua vida, que todo este cenário um dia
retornasse às páginas de uma fábula pouco lembrada pelos filhos dos filhos dos filhos.
Não creio. O velho Bill teimava contra seu tempo, mas antes teimava contra si mesmo. Não
importava se por regressão ou expansão, seu diálogo obsessivamente buscado era com o
enunciado à entrada de uma zona dada como neutra. A placa dizia: há um monte de safados
lá fora. A zona ainda hoje é conhecida como comunidade literária. É bastante visitada.
Em seus pardieiros moram gordos zeladores. Muitos deles parceiros discretos nos negócios
de caixa, senhores no submundo das desilusões. Artistas. São conhecidos assim. Azeitam
as máquinas do paradoxo progressivo. São extensões invisíveis dos estimulantes sexuais
e outras formas minúsculas de emoção intensa. Houve um tempo em que Burroughs achava
que a realidade era uma ilusão criada por insetos monstruosos que dominavam o mundo,
controlando as mentes a partir de uma dimensão paralela. Reagiu achando que na
eliminação do tema haveria uma chance da narração não conduzir ao umbigo sem saída
do tormento que a manipulava.
ATOR 1 - As visões e todas as verdades não podem mais ser considerados como
fatos eternos e objetivos, mas como projeções plásticas do emissor e de sua linguagem.
Por isso, ninguém mais pode continuar se preocupando apaixonadamente com efeitos, por
mais aparentemente reais que sejam, sabendo que por dentro todas as visões e verdades
são, ao final das contas, vazias. Assim, o passo seguinte é o exame da causa desses
efeitos, o veículo das visões, o produtor da verdade, ou seja: palavras. A própria
linguagem é a matéria-prima. Assim, o próximo passo é: como escrever poesia sobre
poesia, empregando um método radical que elimine o próprio tema.
CONFERENCISTA - Boa chance. Talvez ainda válida. Os objetivos foram convertidos
em nuvens de esgotamento. Toda forma de abismo foi declarada inconsciente. A criatividade
é uma percepção diante do vazio. Um estalo diante do nada. Não uma interpretação de
fatos externos. Os negócios amaciaram tudo. Em uma mesma prateleira encontramos visões,
estimulantes sexuais, manuais de argumentos inverossímeis sobre a nulidade do ser,
saquinhos fantásticos e kit de reflexão sobre a percepção comum. Não há como não
sentir-se bloqueado. No entanto, os negócios do bloqueio faturam milhões. Não são uma
ameaça. São a naturalidade. Os negócios deste e de outro mundo. Os negócios da
personagem que mergulha na alteridade e dela retorna pioneiro sem uma sombra de si. Suas
alucinações são alheias. Seus regozijos, orgasmos, coceiras, embolias. Um merda capado
de si mesmo. Este é o modo de conhecer o homem toupeira do homem. O modo de aturar as
merdas decorrentes de creditar na arte toda a forma de salvação do homem. Uns bostas se
aproveitam disso. É um desgaste decorrente da expulsão do homem do centro de si mesmo.
Cuba não tem nada com isso. A CIA não tem nada com isso. O IRA não tem nada com isso. O
serviço secreto dos negócios da desilusão é, de fato, uma instituição. Porém não
se encontram seus membros filiados aos quadros moralistas de nenhuma dessas casas de
tolerância. Os governos já não existem. À porta da velha noção de pluralismo
encontramos o aviso de "não perturbe". Não há expansão de consciência em
praças de alimentação em shoppings. Todas as regras de identidade são forçadas. O
homem impele a si mesmo ao hediondo crime de existência comum. Não há mais escândalo
em seduzir rapazes ou comprar governos. Os negócios da dúvida são a única certeza
posta ao alcance dos mortais, em taxas de financiamento de ocasião. Não há o que ser
respeitado ou cumprido. Não há decreto. Não, não há decreto. Há um cinismo encorpado
que nos leva a crer que prosternamos diante de uma realidade incontornável. Não fizemos
nada, nem faremos. Passeatas, denúncias, shows de protestos. Um exorcismo patético. Nos
livramos de nós mesmos, sem que interfiramos na rotina específica do hospedeiro cretino
que nos prepara para os negócios latentes da perda de sensibilidade. Estamos caindo em
anotações. Burroughs tinha alguma razão. Nada é tão específico quanto a perda de
caráter. Estamos nos enganando. Não somos mais nada. Estudantes, carteiros, drogados,
prostitutas. Não somos mais nada. Não há manifestações pacifistas. Os jornais estão
tomados de violência. Os negócios da violência. Um labirinto sob patrocínio. Uma festa
sob patrocínio. Não há mais a fala real que Kerouac perseguia. A linguagem perdeu o
som. O homem perdeu a respiração. Já não cai sequer em si. Burroughs fala em uma
comprida colher feita de jornal, receptáculo para se aquecer a noção fraudada da
existência. Idealizar queda é o mesmo que idealizar ascensão. Ritos do passado são
apenas métodos revistos. Ninguém lançará um clamor de protesto sem patrocínio. Todo e
qualquer vício obedece a formas básicas de manutenção. Não importa falar em frio ou
qualquer salão de restrições. O prazo expira em um peido. Um barato termodinâmico,
pum. Pronto. Lá se foi a existência. Não somos o negócio. Nem seu efeito. Mas somos
levados a crer que o trazemos tão grudado como o farfalhar das tripas. Foda-se então a
velha ordem do saca-rolha. Já temos o demônio sentado no sofá. Somos agora o negócio
famélico e audaz. A transa do bueiro. Uma rolding de aspergentes que garantem
nível zero de percepção diante do metabolismo anômalo da realidade. Um líquido que
não indaga. Uma velha carta dando sinal da queda de um império, chegada com grande
atraso. É como aumentar a dose de ilusão. Olhem bem. Olhem bem. A palavra é um espirro.
O vírus é um espírito. O que sai fácil não entra como se em férias. Nenhuma
gravação modificará a espontaneidade do que falo. Porém a espontaneidade perdeu todo o
crédito. |
Dois trechos do espetáculo A montagem, cuja leitura dramática foi levada a palco em 11 de agosto de 1999, na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, como parte do ciclo de palestras e leituras dramáticas Os limites da literatura: autores rebeldes, excêntricos, marginais, malditos, projeto da Secretaria Municipal da Cultura. A montagem é uma collage de textos (ficção, ensaio, entrevista) de William Burroughs e Floriano Martins. Da leitura dramática participaram Paschoal da Conceição, Graça Berman, Claudio Willer e Floriano Martins. Contato: floriano@secrel.com.br. Página ilustrada com obras do artista Mário Botas (Portugal). |