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revista de cultura # 27 - fortaleza, são paulo - agosto de 2002 |
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Martin Amis: o homem que sabia demais Helena Vasconcelos Martin Amis esteve em
Lisboa para promover o lançamento do livro de contos "Água Pesada". Veio
acompanhado da mulher e das suas duas filhas, uma com três anos e outra com dezanove
meses e mostrou que é um pai preocupado e um marido atento. Amis é um sedutor nato, um
desses homens que, apesar de falar tranquilamente, sem se dar ares de vedeta e de não
parecer fazer qualquer esforço para ser atraente, "enche uma sala" com o
encanto da sua inteligência, a solidez e autoridade de uma cultura que não é feita de
lugares comuns nem de banalidades. Conversa com desenvoltura e espírito, exibe uma
candura irresistível e o seu discurso é intenso e eloquente. Fala das mulheres, da sua
obra, da família, da sua vida. Martin Amis é um homem polémico, com uma obra que
provoca amores e ódios com a mesma intensidade, mas que não deixa ninguém indiferente.
Os seus amigos falam com entusiasmo do seu sentido de camaradagem e da forma como
demonstra preocupação pelos seus problemas. Foi sempre um apoiante corajoso e dedicado
de Salman Rushdie, ao longo destes anos de fatwa, acompanhou Ian McEwan durante o
seu divórcio e encorajou Redmond OHalon quando este foi vítima de um terrível
"writers block". É tão popular em Inglaterra que lhe chamam o
Mick Jagger da literatura, algo que ele classifica de ridículo ("Não percebo porque
é que não chamam ao Mick Jagger o Martin Amis do rock", diz com um sorriso
gélido.) Mas a comparação tem razão de ser. Martin é uma "estrela" com
direito a paparazzi e a manchetes, onde a sua vida íntima é dissecada até ao
mais ínfimo pormenor. Para além disso, possui um corpo cuja (boa) forma desmente os
cinquenta e dois anos, um olhar insinuante e penetrante, uma boca de lábios cheios e
sensuais e um sorriso discreto e atraente, ajudado pelos seus tão falados dentes
postiços os quais, em 1994, quase provocaram uma crise nacional, quando a escritora A.S.
Byatt escreveu, na imprensa, que Amis estava a inflacionar os preços dos direitos de
publicação só para poder pagar a dentadura nova e o divórcio. Mas tudo isso ficou para
trás (diz-se que Byatt lhe escreveu mais tarde uma carta a pedir desculpa) e Martin
parece tranquilo, descontraído e feliz. A sua vida dava um romance e foi isso exactamente
que o enfant terrible das letras inglesas tem feito ao longo da sua carreira
literária. Aproveitando a sua experiência e mantendo-se atento a tudo o que se passa à
sua volta, ele transcreve, nos seus romances, a vida frenética e neurótica dos últimos
trinta anos. É justamente considerado como o escritor mais importante da sua geração, o
ícone da decadência dos finais do século XX, a voz simultaneamente terna e mordaz que
espelha a angustia, a voracidade, a ganância e a "monstruosidade" de uma
sociedade sem moral, sem futuro e terrivelmente egocêntrica.
Martin Amis soube, desde sempre que seria famoso. Filho de um escritor, enteado de uma escritora (Elizabeth Jane Howard) e casado com outra (Isabel Fonseca), o seu mundo tem sido, naturalmente, o da chamada "realeza" literária. O pai, Kingsley Amis, é considerado um escritor essencial da literatura anglo-saxónica, senhor de uma ironia cortante e devastadora. Pai e filho partilham a glória de serem, cada um à sua maneira, uma espécie de consciência das suas respectivas épocas e ambos utilizam o humor como uma arma. Kingsley foi um dos "angry young men" dos anos cinquenta e sessenta; Martin é o arauto da decadência e desregramento dos anos oitenta e noventa. Nenhum deles mostra, nas respectivas obras, qualquer preocupação com o "politicamente correcto", uma atitude que tem provocado a ira de certas facções. As feministas têm atacado frequentemente Martin, catalogando-o como "um homem pequeno com um enorme talento que odeia as mulheres" e a escritora Kate Saunders acusou-o de misóginia, acrescentando, " Martin Amis é aceitável para os homens. Mas uma mulher com dois dedos de testa evita as suas descrições de roupa interior suada". Kingsley não teve melhor sorte. Em 1985, por exemplo, foi praticamente crucificado quando publicou "Stanley and the Women".
Martin viveu com Kingsley nos Estados Unidos, em Princeton, New Jersey. Esta estadia contribuiu para desenvolver nele o interesse pela literatura norte-americana e para o influenciar no que diz respeito à imagética dos filmes e da vida nas ruas das grandes cidades, como Nova Iorque. A sua relação com a América foi sempre profunda e, na sua obra, há personagens, linguagem e cenários, tipicamente americanos. (Em 1987 publicou "The Moronic Inferno", um conjunto de textos muito críticos sobre a América e a sua literatura.) Quanto ao romance "Night Train", (1997) é uma clara incursão no universo "negro" do romance policial americano com os seus detectives duros e carismáticos, à maneira de Dashiell Hammet e Raymond Chandler. Quando voltou a Inglaterra, Amis formou-se em Oxford e ganhou o Somerset Maugham Award com "The Rachel Papers" (1973). Fez crítica literária e foi jornalista "free-lancer". No Times Literary Supplement conheceu Mary Furness, que serviu de modelo para muitas das suas personagens femininas. Mary era uma jovem conhecida no meio boémio e intelectual por ser muito bonita, independente e extravagante. Uma vez, atirou um pesado cinzeiro à cabeça de Martin, pegou-lhe fogo a um manuscrito, costumava deitar-se no asfalto à frente do seu carro e chegou a correu nua pelas ruas da cidade. Mary foi uma das muitas mulheres sexy e inteligentes que constam da extensa lista das suas relações sentimentais que incluíram Tina Brown, Emma Soames, Julie Kavanagh, Claire Tomalin, Lucretia Stewart, Victoria Rothschild. Quando Martin conheceu Antonia Phillips, tudo mudou. Antonia pertencia a uma família culta e com dinheiro. O padrasto era o pintor Arshile Gorky e a mãe uma "literata boémia". Crescera na Europa, falava várias línguas e estudara filosofia e historia de arte. Contraíra matrimónio com o filósofo Gareth Evans, a quem fora diagnosticado um cancro e ficou viúva pouco tempo depois. Martin pediu-a em casamento e levou muito a sério o seu novo estado, principalmente depois de terem começado a ter filhos. Martin preocupava-se com o seu futuro e por isso escreveu uma colectânea de contos, "Einstens Monsters" (1987), aos quais juntou um ensaio no qual explicava a razão da sua obsessão com a ameaça nuclear, explorando o tema da guerra e deixando um aviso acerca dos perigos do apocalipse e das suas devastadoras consequências, (Em sua opinião, a Sida, seria um resultado de experiências nesse campo). Ao escrever este livro, fazia eco das preocupações de uma geração criada com o fantasma da guerra nuclear e com a realidade destrutiva de uma sociedade impiedosa. A senhora Thatcher arengava sobre a política de desprezo pelos mais fracos e valorizava o dinheiro e o poder. Amis mostrava-se pessimista e, com ironia cortante e um prazer perverso, explorava os aspectos mais negros e degradantes da sociedade.
Em 1989, Martin foi excluído da lista de finalistas do Booker Prize, na sequência de um protesto das feministas Maggie Gee e Helen McNeil e a sua vida familiar começou a dar sinais de desgaste. Estava a escrever "London Fields", cuja acção, que se passa em 1999 num cenário apocalíptico de crise nuclear, funcionava como o espelho de uma Inglaterra corrompida e destruída social e economicamente. Neste romance, o "herói", como acontece em "Night Train", é uma mulher, Nicola Six, muito atraente e poderosa que reduz todos os homens de todas as classes a "destroços humanos" e que vive com a ideia da morte do amor e do fim da humanidade. Para antecipar essa situação, ela procura alguém que a assassine, dando-se ao trabalho de encenar (e provocar) a sua morte. Embora a figura de Nicola seja um estereótipo, uma típica fantasia masculina, este é um livro cómico, como aliás são (quase) todos os romances de Amis, que consegue fazer rir o leitor nas situações mais trágicas e arrepiantes, à boa maneira de Dickens, Evelyn Waugh e do seu próprio pai. 1993 e 1994 foram anos decisivos. Martin parecia à beira de um ataque de nervos e tinha todos os sintomas de uma forte crise de meia idade. Deixou a mulher e iniciou uma ligação com Isabel Fonseca, uma escritora americana que vivera vários meses numa comunidade cigana na Albânia, e se preparava para publicar um livro, "Bury me Standing", sobre a sua experiência. Isabel, dez anos mais nova do que Antonia, era uma mulher sofisticada que pertencia à cena literária londrina e era amiga de Julian Barnes e de Salman Rushdie. Vivia perto dos Amis e frequentava os mesmos circuitos. Dizem as más línguas que costumava visitar Antonia e dar-lhe conselhos, confortando-a e apoiando-a na crise matrimonial, enquanto mantinha já a relação com Martin. Jovem, inteligente, atraente, morena e rica, Isabel era uma versão mais nova de Antonia. Também passara por Oxford e trabalhara como leitora para a editora Bloomsbury. As suas ligações sentimentais incluíam Harold Pinter, Bill Buford, Salman Rushdie e John Malkovich. Antonia disse mais tarde que não suspeitava de nada. O casal tinha continuado a dar-se socialmente com Isabel e chegaram a passar juntos um Natal, em Nova Iorque. A separação consumou-se na Primavera de 1993. Entretanto Martin negociou um avanço de 500.000 libras para um contrato de 800.000 libras pelo seu novo livro, "The Information". A sua agente (e amiga) de então, Pat Kavanagh, mulher do escritor Julian Barnes, conseguiu juntar "quase" essa soma mas Amis não se deu por satisfeito, mudou-se para a tutela do famoso agente americano Andrew Wylie, o "Chacal", que representava já Rushdie, Christopher Hitchens e a própria Isabel Fonseca e conseguiu o ambicionado contrato. Julian Barnes, que era o grande amigo de Amis e seu parceiro de ténis, escreveu-lhe uma carta a declarar que a amizade entre ambos estava definitivamente terminada. A cena literária londrina estremeceu, enquanto os amigos e inimigos de Amis entravam em conflito. Tipicamente, Amis vingou-se à sua maneira. "The Information", o livro que desencadeara toda a polémica, é uma história sobre a inveja, o despeito, as humilhações e as tristes figuras que dois escritores fazem, quando envenenados pelo ciúme. Amis disse que este era um romance sobre a "consciência da morte", o que se aplicava muito bem à sua própria crise de meia idade e retomava os seus temas preferidos: a rivalidade entre os homens, o glamour do dinheiro "sujo" e os riscos para o manter, a dificuldade em compreender as mulheres, a irreversibilidade do tempo e o terror metafísico.
Os contos que constituem o livro "Água Pesada" abrangem um período de tempo entre 1975 e 1997 e funcionam como uma "panorâmica" de toda a sua obra. Os temas mais caros a Martin Amis estão lá todos. Em "Coincidência das Artes", um pintor "profundamente branco" é assediado por um porteiro aspirante a escritor e "profundamente negro" que procura nele o encorajamento necessário para a sua carreira. O pintor lança-se numa aventura com uma empregada de mesa negra que é afinal, a mulher do suposto escritor. As situações rocambolescas fazem deste conto uma farsa hilariante e perversa. Em "A Morte de Denton", o personagem principal pensa na sua própria vida como uma "fuga da felicidade que tinha tido em criança" e lamenta-se por "as pessoas terem deixando de gostar dele e ele delas", preferindo, portanto, a morte. "Deixa-me contar as vezes" tem uma vertente grotescamente sadeana e é acerca das fantasias provocadas pelo sexo insatisfatório. "O Estado de Inglaterra" reflecte a existência medíocre das pessoas da classe média baixa que passam os domingos e feriados em centros comerciais e nos acontecimentos desportivos e que são o produto da mistura de raças e de escalões da sociedade, gente enfarpelada em roupas de mau gosto, com caspa nas golas dos casacos e sonhos de grandeza, que não vão além de um automóvel topo de gama e dinheiro fresco nos bolsos, seja qual for a sua proveniência. Amis é um autor que sabe combinar, com habilidade sarcástica, a ansiedade e a solidão, como ingredientes essenciais para a criação das suas histórias. Ele é um autor que consegue, como ninguém, por a nu todos os tiques, paranóias e frustrações que compõem o quotidiano, criando assim um espelho distorcido, mas real, do espírito do nosso tempo. |
Helena Vasconcelos (Portugal, 1949). Jornalista e crítica de arte, dirige Storm Magazine (http://storm-magazine.com), uma das mais substanciosas revistas de cultura que circulam na Internet. Contato: hvasconcelos@storm-magazine.com. Página ilustrada com obras do artista Francisco Rebolo (Brasil). |