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revista de cultura # 27 - fortaleza, são paulo - agosto de 2002 |
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Katatruz, de Alberto Beutenmüller Benedito Nunes A
enumeração caótica na poesia, como equivalente verbal do entrelaçamento e da mistura
no mundo moderno, segundo a conhecida tese de Spitzer, responderia ao acúmulo de tantas e
tão diversas coisas que nos cercam, pela saturação léxica e sintática. Pode-se
também admitir que a consciência, hoje grave e aguda, do contraste entre a natureza
dialogante da linguagem e seu uso instrumentalizado e decadente na produção de mitos
sociais e políticos, exerça um duplo efeito reflexivo sobre a sintaxe. Ou a poesia,
rompendo com a sintaxe, se afirma como um contra-discurso, oposto à "moda corrente
da fala" - e seria a solução programática estrita das correntes de vanguarda -, ou
se afirma insuflando na linguagem comum, sob a continuidade aparentemente arrítmica da
prosa, uma nova retórica, que valorize, ao lado da exploração interna das palavras, os
nexos sintáticos - e seria a solução mais abrangente, que evita a clausura das
programações poéticas, sem abdicar da contingência de por em prática um vanguardismo
estético e ético, sem o qual a poesia deixaria de assinalar a sua presença e cumprir a
sua função. Está nesse último caso a maioria dos poemas deste livro de Alberto
Beutenmüller, a começar pelo de abertura, Katatruz.
Mas o drama existencial que aqui se apresenta como um descante ou como um anticanto patético às maravilhas do mundo moderno, não é apenas subjetivo ou metafísico. A dificuldade de ser enreda a espécie humana. Transferindo o Eu lírico para a segunda pessoa do plural, é dela e por ela que o poeta fala, situado, como todos nós, numa espécie de encruzilhada apocalíptica, onde, entre a verdade e o medo, as coisas humanas, demasiado humanas - o amor e o sexo, o prazer, a beleza e Deus - tornaram-se estranhas e hostis ao próprio homem: " a cidade imensa/ está salpicada/ de maresia/ e/ nós tentamos ser/ o que não houve/ e/ nós tentamos ouvir/ a ausência/ e/ nós esquecemos de ser nós". A matéria confessional do poema sintetiza, pois, uma situação histórica crítica; e o drama subjetivo encarna, ao patético ao grotesco, o destino comum. Daí a largueza do discurso, capaz de oferecer-nos, numa peça de longo fôlego, ao mesmo tempo elegíaca e satírica, a prosopopéia da época de niilismo: a prosa sem epopéia do "último homem" (Nietzsche) que, travestido de super-homem, adora os instrumentos de sua anulação emudecedora. " a máquina mata/ o homem mata/ maquina a máquina/ maquina o homem/ e/ a verdade é/ katatruz kata".
Vale-se o poeta de dois veios principais nesse e em outros poemas de seu livro: um, surrealista, que o leva tanto ao verso carregado de imagens visionárias, aparentadas as de Murilo Mendes, como, utilizando processos, que o concretismo veiculou, à exposição objetual dos elementos imagísticos da palavra; outro, coloquial, no estilo corrente, que se quis prosaico, de Álvaro de Campos escrevendo sob a influência do verso descritivo, abundante em repetições, do mestre Alberto Caeiro. Acrescentem-se a tais veios concorrentes, a paronomásia, muitas vezes em proveito do humor verbal a que já nos referimos, os trocadilhos, as rimas internas, e teremos uma idéia prévia da abundância dos recursos que sustentam, desde Espadamormarmorte, terceiro livro de Beutenmüller, publicado em 1969, na rede discursiva de que participam, o grau geralmente enfático da linguagem. A ironia, o sarcasmo e o senso parodístico do autor, salientes nas peça de menor extensão, mas não de menor poesia, opõem saudável contrapeso ao circuito enfático da prosa de seu verso (ou de seu verso-prosa), que nos coloca no limite da expressão poética de nosso tempo. É necessário assinalar, ainda, o quanto esse limite tem muito que ver com a ética da linguagem e com a posição do poeta numa época de crise, temas sobre os quais bastante refletiu o poeta e crítico Mario Faustino, cujo sentimento de confiança, de fé na poesia, impregna a obra de Beutenmüller.
Acabou-se o tempo da linguagem triunfante. A tradição moderna, que cresceu à sombra da era industrial, despede-se de suas galas passadas. Para salvar-se da mistificação e da desumanização, a poesia fez voto de pobreza, e pratica a ascese da linguagem. E somente quem a desnuda, somente quem a conhece como "inanité sonore", que mais profundamente silencia quanto mais alto fala, é capaz de integrá-la a um novo discurso que nos mantenha em diálogo. Nós somos um diálogo, escreveu Hölderlin. Talvez seja esta a única certeza, ao mesmo tempo ética e estética, do poeta Beutenmüller, que pisa, conosco, "um chão pegajoso/ de religiões mortas ". |
Benedito Nunes (Pará, 1929). Autor de O Mundo de Clarice Lispector (1966), Oswald Canibal (1978) e O Crivo de Papel (1999. Alberto Beutenmüller publicou Katatruz em 1973. O texto que aqui reproduzimos foi escrito a título de prólogo desta edição. Foto de AB: José Carlos Brasil. Contato: fredmuller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Francisco Rebolo (Brasil). |