Francisco Rebolo Francisco Rebolo

revista de cultura # 27 - fortaleza, são paulo - agosto de 2002

Francisco Rebolo

Editorial
A arca antes ou depois do dilúvio?

Há momentos em que o esforço enorme desprendido por alguns para recuperar certos sinais dissipados de uma cultura parece invalidar-se pelo pragmatismo aviltante com que se reveste o pouco caso em relação ao humano. No mês passado, em uma cidade brasileira, a Ordem dos Advogados do Brasil teve que intervir em uma situação quando menos cômica: o prefeito da cidade achou por bem construir uma praça no espaço até então inutilmente ocupado por uma biblioteca. Deve ter-se indagado pragmaticamente: de que serve uma biblioteca? Trocar praças por bibliotecas não pareceu a ninguém um mau negócio. O dilema teve início quando a secretária de educação instruiu um professor da rede pública a classificar o acervo a ser despejado, despejo este que se deu em forma de queimada, verdadeira consagração final de obras julgadas como ultrapassadas.

Em um filme em cartaz no Brasil no mesmo mês, Spy Game, a secretária de um diretor da CIA, considerando excessiva a paranóia de seu chefe, cala-se diante de uma simples pergunta dele: quando Noé construiu a arca, antes ou depois do dilúvio? No Brasil um certo atavismo revela-se em uma máxima: o pobre só fecha a porta depois que é roubado. Esquecemos que é sempre a porta a ser roubada, a entrada, a chave, ou seja, todo acervo cultural não é senão uma chave, uma entrada, uma perspectiva de cultura. Nada se encerra em si. Quando se toca fogo nos livros de José de Alencar, a exemplo do que ocorreu no incidente acima referido, o que se consome - e se esvai já quase em definitivo - é o sinal de importância da obra de um dos grandes nomes do romance brasileiro.

Então começamos a pensar sobre a relação existente entre construção e derrocada de uma cultura. Dificilmente o professor que considerou ultrapassada a obra de José de Alencar o teria na mesma condição de um Jorge Amado. Por uma questão de época? Não, simplesmente pela razão de que Amado tornou-se o orgulho de sua terra, que soube protegê-lo como um valioso patrimônio cultural, o que não houve com Alencar. Essa relação quando menos curiosa entre cultura e auto-estima de um povo tem muito a ver com o avassalamento verificado no Brasil. Como nossa arca foi construída após o dilúvio, é comum nos perdermos também na importância de certas comemorações.

Autores brasileiros queimados por uma idéia errônea do que seja uma obra ultrapassada é algo que se aproxima muito da falta de percepção de novos autores, os vivos, os que estamos com obra em curso e que vemos apenas um imenso umbigo no espelho. Alguns podem ficar felizes com a concorrência reduzida, cada vez que sepultamos um outro. Mas não estamos senão nos desfazendo de nós mesmos. A cultura brasileira é uma menina boba que ainda não aprendeu a usar o elástico da calcinha como peça de sedução. Como tem as coxas roliças, despertará atenção sempre, e será currada em cada esquina. Mesmo que grite, nenhum brasileiro a socorrerá.

As melhores intenções indagam sobre idoneidade de indicações para cargos públicos, ressaltando as áreas de educação e cultura. Agora mesmo, estamos em véspera de uma mudança de governo. Todos os candidatos à Presidência, uma vez mais, não percebem senão o usual de uma plataforma de campanha: cultura relacionada à produção de eventos na área de entretenimento. Apresentar projetos a assessorias viciadas em marketing e laudos estatísticos, eqüivale às plantas de construção de uma arca muito antes do dilúvio. Contudo, sem a presença visionária de um Noé não teremos sequer, no futuro, obras a serem consideradas ultrapassadas, ainda que indevidamente.

Os editores

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Francisco Rebolo

Sumário

1 carlos m. luis y la trascendencia de los cánones (entrevista). floriano martins
2 casimiro de brito: nómada e trovador. maria joão cantinho
3
de marcel proust a kazuko okakura: los poemas-objeto y las tertulias imaginarias de la pintora catalana carme riera. carlota caulfield
4 desmontajes sobre aldo menéndez. carlos m. luis
5 katatruz, de alberto beutenmüller. benedito nunes
6 la obra de eugenio montejo: partitura para conjurar la inocencia de la palabra. maría del rosario chacón ortega
7 los mensajes de la calle: san pablo y la vida ajena. alfredo fressia
8 martin amis: o homem que sabia demais. helena vasconcelos
9 merodear la imagen (depoimento). carlos ardohain
10
o ser suspenso: sobre antónio ramos rosa e maria do rosário pedreira. rui magalhães
11 pavese, stevens, rilke: un tríptico. benjamin valdivia
12 surrealismo no brasil - rebelião e imagens poéticas. claudio willer

artista convidado francisco rebolo (óleos) texto de lisbeth rebollo gonçalves
livros da agulha: beatriz helena ramos amaral, carlos nejar, eucanaã ferraz, fabrício carpinejar, maria helena castro azevedo, maria josé justino, mario marques
cartas da agulha
galeria de revistas

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Francisco Rebolo

Expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

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benjamin valdivia (méxico)
contador borges (brasil)
helena vasconcelos (portugal)
maria esther maciel (brasil)
maria joão cantinho (portugal)

mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
soares feitosa (brasil)

víctor sosa (méxico)

correspondentes
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(peru)
bernardo reyes
(chile)
carlos m. luis
(uruguai)
carlos véjar
(méxico)
eduardo mosches
(méxico)
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(equador)
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(guatemala)
harold alvarado tenorio
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(argentina)
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(porto rico)
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