revista de cultura # 27 - fortaleza, são paulo - agosto de 2002

Livros da Agulha

Beatriz Helena Ramos AmaralBeatriz Helena Ramos Amaral. Cássia Eller. Canção na voz do fogo. Escrituras Editora. São Paulo. 2002. 176 págs. Contato: imprensa@escrituras.com.br.
Este livro focaliza a trajetória estética de Cássia Eller, as várias fases de sua carreira, iluminando seu percurso musical e abordando as várias influências por ela recebidas desde a infância, e o modo como essas influências foram trabalhadas e transformadas, gerando o estilo original e inconfundível de uma das mais talentosas e versáteis intérpretes da Música Popular Brasileira de todos os tempos. Partindo do pressuposto de que o projeto de todo artista é um projeto poético, o livro faz referência às várias etapas do desenvolvimento e do amadurecimento da cantora e enfatiza os processos de seleção de repertório, concluindo que, ao interpretar obras de tão diferentes estilos musicais, Cássia Eller vivia procedimentos de mimetismo, convertendo-se ela própria em cada uma das canções que entoava.
Beatriz Helena Ramos Amaral nasceu em São Paulo, onde se formou em Direito (USP) em 1983 e em Música (FASM) em 1985, especializando-se em violão erudito. Poeta, publicou seis livros, entre eles: Encadeamentos (1988), Primeira lua (1990) e Planagem (1998). Pertence à diretoria da UBE (União Brasileira de Escritores), desde 1996. Tem publicado artigos e resenhas críticas na área de literatura.

Carlos NejarCarlos Nejar. O livro do peregrino. Editora Objetiva. Rio de Janeiro. 2002. 162 pgs. Contato: www.objetiva.com.br.
Este novo romance de Carlos Nejar é sobre o início dos tempos, o caminhar sem destino. Afinal, o que importa é estar caminhando, o meio e o aprendizado de durar. A peregrinação e os que dela participam – sejam seres da natureza, sejam humanos. Na prosa deste poeta da condição humana – que já recebeu elogios de Clarice Lispector, Antônio Houaiss, Antônio Carlos Secchin, Marco Lucchesi, entre outros – tudo transcende e se supera na linguagem. Seus personagens trazem o Dom da transmutação – como o último cavalo que se torna homem. Há também os emblemáticos: a mulher Cordélia, a profundidade do rio Tonho, a grandeza do Paompa. O livro do peregrino é um romance que inova, trabalhando sobre os estados da alma. Com ousadia, juntando elementos do que é perene e universal, Nejar constrói uma fábula moderna, inesquecível.
Membro da Academia Brasileira de Letras, onde foi secretário-geral e presidente, o gaúcho Carlos Nejar, poeta e ficcionista, é considerado um dos 37 escritores da América Latina mais importantes do século XX – ao lado de Octavio Paz, Jorge Luis Borges e César Vallejo. Conquistou prêmios destacados como o da Associação Paulista de Críticos de Arte – com Silbion, melhor livro de poesia de 1999 – e o prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional – com Riopampa, o melhor romance de 2000, segundo júri composto por Carlos Heitor Cony, Autran Dourado e Ildásio Tavares.

Eucanaã FerrazEucanaã Ferraz. Desassombro. Editora 7 Letras. Rio de Janeiro. 2002. 116 pgs. Contato: editora@7letras.com.br.
diz o português Gastão Cruz, que assina as orelhas deste Desassombro, que "o ofício seguro de Eucanaã Ferraz, num virtuosismo de registros que vai, com aparente facilidade, do silêncio ao grito, da fábula à alegoria, da breve reflexão ao relato sincopado, do 'exercício da ternura exata/ e comum' ao arrepio metafísico, ilustra bem a vitalidade da poesia brasileira posterior a João Cabral". O poeta Eucanaã Ferraz (Rio de Janeiro, 1961) é professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e já publicou Livro primeiro (1990) e Martelo (1997).

Fabrício CarpinejarFabrício Carpinejar. Biografia de uma árvore. Escrituras Editora. São Paulo, 2002. 104 págs. Contato: imprensa@escrituras.com.br.
Biografia de uma árvore é poesia incomum no panorama da literatura brasileira. Em seu quarto livro, o reconhecido escritor gaúcho Fabrício Carpinejar completa um ciclo autoral iniciado com As Solas do Sol (1998), resgatando o personagem de sua estréia, Avalor (sem valor).
Fabrício Carpinejar é jornalista e escritor, mestre em Literatura Brasileira/UFRGS. Nasceu em Caxias do Sul, aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros Terceira Sede (Escrituras, 2001), Um Terno de Pássaros ao Sul (2ª edição, Escrituras, 2000) e As Solas do Sol (Bertrand Brasil, 1998).
Um Terno de Pássaros ao Sul é objeto de referência nos The Book of the Year 2001 da Encyclopaedia Britannica. Recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura 2001, categoria poesia, da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre (RS). Obteve ainda o 3º lugar no Prêmio Literário Internacional Maestrale – San Marco 2001, o Marengo d'Oro (5ª Edição), em Gênova, na Itália. Foi considerado também o melhor livro de poesia da 46ª Feira do Livro de Porto Alegre (RS) com o "Prêmio Destaque Literário – Júri Oficial".
O poeta estreou na literatura com As Solas do Sol (1998), obra vencedora do Prêmio Fernando Pessoa da União Brasileira de Escritores, categoria Revelação e Estréia, e finalista do Prêmio Açorianos de Literatura/99. Além disso, Fabrício tornou-se finalista do Prêmio Nacional da Cidade de Belo Horizonte (MG), em 2000.

Maria Helena Castro AzevedoMaria Helena Castro Azevedo. Um senhor modernista. Biografia de Graça Aranha. Ed. da Academia Brasileira de Letras. Rio de Janeiro. 2002. 512 pgs. Contato: abl2@montreal.com.br.
logo no prólogo desta obra essencial, recorda Alberto Venâncio Filho: "Mais de sessenta anos após a morte de Graça Aranha, só agora aparece um estudo biográfico sério, examinando exaustivamente a sua vida e a sua obra. No livro de Maria Helena Castro Azevedo há a destacar dois tópicos principais que valorizam o esforço feito e melhor destacam a figura do biografado. O uso extensivo das correspondências, comum nas biografias, mas a que a autora deu cunho especial, ao introduzi-las no próprio texto do trabalho, remetendo-se a elas para cada aspecto principal. O outro fato digno de nota é a utilização das falas dos romances para explicar melhor a vida e a personalidade do biografado."
A historiadora Maria Helena Castro Azevedo nasceu no Rio de Janeiro. Atualmente é professora de História do Ensino Médio, lecionando na Fundação Osório e no Colégio Sousa Aguiar, considerando-se empenhada na construção, no Brasil, de uma escola pública inteligente e justa.

Maria José JustinoMaria José Justino. O banquete canibal. A modernidade em Tarsila do Amaral. Editora UFPR. Curitiba. 2002. 188 pgs. Contato: mariaj@netpar.com.br.
Nesse trabalho, Maria José Justino apresenta a artista Tarsila do Amaral, afirmando-a como a linguagem original no interior da quase unanimidade acadêmica reinante no Brasil do início do século XX. Movida pelo desejo de ser de seu tempo e de construir uma linguagem autenticamente brasileira, a artista encontra no imaginário popular sua inspiração e conteúdo e na vanguarda européia, a sintaxe cubista e o clima surrealista. Dessa síntese resulta uma linguagem inédita, que levou os concretistas a considerá-la a primeira artista construtiva no Brasil. Tarsila reelabora as heranças, agregando-lhes novos signos: a máquina, a eletricidade, a velocidade coabitam sem constrangimento com o caboclo, as festas populares, os bichos da fazenda, os mitos. Essa elaboração do elemento moderno junto ao antigo é totalmente nova na iconografia brasileira dos anos vinte.
Maria José Justino é doutora em Estética e Ciências das Artes pela Universidade de Paris. Foi Coordenadora de Cultura do Estado do Paraná, tendo publicado um importante estudo sobre a obra de Estela Sandrini, O sensível devaneio da racionalidade. Atualmente é professora da História da Arte na EMBAP e se dedica à crítica de arte.

Mario MarquesMario Marques. Guinga. Os mais belos acordes do subúrbio. Gryphus/Editora Forense. Rio de Janeiro. 2002. 158 pgs. Contato: gryphus@gryphus.com.br.
Mario Marques (Rio de Janeiro, 1969), jornalista do Segundo Caderno, Jornal O Globo, nos convida a entrar na intimidade de um criador – Guinga. E o retrato do artista em movimento que surge após a leitura é apaixonante. Nascido no subúrbio carioca, Guinga ainda se divide entre a música e o consultório de odontologia, onde clinica duas vezes por semana. É adorado pelos músicos e pouco conhecido do público em geral. Mas para quem já foi capturado pela arte de Guinga, musicalmente ele vem sendo freqüentemente descrito como um gênio. Reinventor de diversas tradições, transita sem se prender por choro, valsa, baião, samba, fox, tango, frevo, blues, toada, rumba, jazz e o diabo a quatro. Muitas vezes transgride, embaralha estilos, tirando daí sua assinatura, sua identidade. Algo que se imediato o torna uma referência para a música brasileira na virada do milênio, como alguém que vem provando a permanência desses mesmos gêneros que subverte. Não faltam dados biográficos e psicológicos de Guinga nesse livro, mas ele não deve ser entendido como u ma simples biografia. Mesmo porque o personagem, aos 51 anos, continua muito vivo, em plena atividade. O que temos aqui é uma panorâmica de um trabalho em progresso, de um dos gênios da Música Popular Brasileira.

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