revista de cultura # 27 - fortaleza, são paulo - agosto de 2002

francisco rebolo (brasil) artista convidado

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Rebolo: a exposição do centenário

Lisbeth Rebollo Gonçalves

Francisco ReboloDesde 1973 não acontece em São Paulo uma retrospectiva de grande porte da obra de Rebolo. De lá para cá, toda uma geração ainda não teve a possibilidade de ver um conjunto significativo da obra deste artista plástico reunida numa grande exposição. A comemoração do centenário apresenta-se, desta forma, como o momento ideal para colocar em cena a memória deste artista e sua contribuição à história da arte brasileira do século vinte.

Francisco Rebolo Gonsales inicia sua trajetória artística em 1934, época em que uma nova geração emerge no meio cultural brasileiro. É uma geração de artistas que não procede da classe social mais privilegiada, mas sim de famílias de trabalhadores que chegam a São Paulo como imigrantes; são, em geral, seus descendentes diretos.

Rebolo é um dos poucos, nessa geração, que descende de espanhóis, enquanto a maioria é de origem italiana. Quase à mesma época, surgem no cenário artístico, também, artistas japoneses ou descendentes. A presença do imigrante marca fortemente o momento artístico das décadas de 1930 e 1940.

A nova base humana que se manifesta nas artes plásticas começa a aglutinar-se em grupos e mostras coletivas de arte moderna, abertas ao grande público. Como Rebolo, tais artistas participam, muitas vezes, de sua organização, ao lado de críticos e poetas. Ressentem-se da falta de um espaço para a arte moderna na cidade de São Paulo e no País.

Rebolo começa sua carreira como pintor, no início dos anos 1930, quando abandona a atividade de jogador de futebol, ao mesmo tempo em que trabalha como pintor-decorador de residências.

Francisco ReboloEm 1933, instala, no edifício Santa Helena, na Praça da Sé, um ateliê que é, ao mesmo tempo, uma sala de trabalho para atender sua clientela de pintura em residências. É nesta sala que se aglutina o chamado grupo Santa Helena, a partir de 1935. No ateliê, o grupo realiza sessões coletivas de trabalho para pintar e para desenhar modelo vivo. Saiam juntos, também, para pintar nos subúrbios e pequenas cidades vizinhas de São Paulo.

Logo que se constitui e começa a marcar presença em exposições coletivas, o Grupo Santa Helena chama a atenção dos principais críticos atuantes na época, como Mário de Andrade e Sérgio Milliet.

Rebolo está presente em todos os importantes eventos ligados à história da arte moderna. Integra, por exemplo, o Salão de Maio, os Salões da Família Artística Paulista e do Sindicato dos Artistas Plásticos; pertence ao grupo de artistas que defende a criação de um Museu de Arte Moderna em São Paulo e, mais tarde, a Bienal, entre outros feitos que são relatados, mais adiante, na cronologia de sua vida artística. Um ponto alto de sua carreira é quando recebe, no Salão de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o "Prêmio de Viagem ao Exterior", em 1954.

O artista mantém, ao longo de seu percurso de pintor, a pesquisa em torno da paisagem, da natureza-morta e da figura humana, temas que são marcantes nos anos trinta e quarenta na arte brasileira. Mas vai assimilar e desenvolver novas e diversas pesquisas de linguagem plástica, criando sua poética peculiar. Várias fases podem ser identificadas em sua produção artística.

Francisco ReboloA obra de Rebolo é apresentada ao público em inúmeras mostras individuais e coletivas, ao longo de sua vida. Em 1973, o Museu de Arte Moderna de São Paulo realiza a primeira retrospectiva de seu trabalho, época em que se realizam também exposições em Brasília e no Rio de Janeiro. Os eventos de 1973 põem em destaque os seus quarenta de pintura, mas o artista viverá mais sete anos, até 10 de julho de 1980, trabalhando até o seu último dia de vida.

Em 1985, cinco anos após seu falecimento, o Museu Lasar Segall expõe cerca de 80 trabalhos de sua produção e, em 1986, foi lançado um livro que, igualmente, põe em destaque seu percurso artístico e sua obra (edição MWM/IFK). Sua obra vem participando de mostras coletivas voltadas para a história da arte moderna no Brasil e está presente nos acervos dos principais museus de arte do País.

 

Francisco Rebolo (auto-retrato)___ A retrospectiva de 2002

A exposição retrospectiva preparada para comemoração do Centenário de Rebolo, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, exibe um corpus representativo da produção artística de Rebolo, colocando em destaque as várias fases que se definiram na sua trajetória de quase meio século dedicado à pintura. São obras que integram coleções públicas e particulares, oferecendo ao público visitante uma rara oportunidade de apreciação em conjunto.

A curadoria identifica as seguintes fases na obra de Rebolo:

- De 1932 até cerca de 1947: período das paisagens feitas ao ar-livre, em locais dos arredores de São Paulo da época, como Tremembé, Cambuci, Sumaré ou cidades próximas como Socorro, Itanhaém, Mogi das Cruzes, São Vicente; época também de produção de naturezas-mortas, de trabalhos realizados a partir de modelo vivo, composições com figuras, executadas em ateliê; de retratos e auto-retratos.

- De 1947 até cerca de 1960: paisagens realizadas via reconstrução imaginária, privilegiando, como em outras composições, os elementos formais. Época da viagem de quase dois anos à Europa, com o Prêmio recebido do Salão Nacional de Arte Moderna (1954).

- Decênio 1960 e início dos anos 1970 (cerca de 1971): período de pesquisa da matéria. A partir da xilogravura, a que adiciona o colorido, o artista pesquisa o efeito resultante, transportando-o para a tela. Em determinado período, deixa o pincel e usa a espátula, desenvolvendo técnica peculiar.

- Década de 1970 (o artista morre em julho de 1980): marca-se pelo retorno a uma estruturação formal da composição, em detrimento do elemento textural antes pesquisado. Retorna ao uso do pincel e de cores luminosas.

Francisco Rebolo (auto-retrato)

O circuito construído para o visitante, ao tempo em que oferece uma aproximação em dinâmica cronológica, põe em destaque as temáticas que o artista desenvolveu em sua produção, evidenciando o componente lírico que é traço essencial de sua obra.

Lisbeth Rebollo Gonçalves. Professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo. Preside a ABCA - Associação Brasileira de Críticos de Arte. Contato: lrebollo@usp.br. LRG é também curadora da retrospectiva Rebolo - 100 anos (MAM. Museu de Arte Moderna de São Paulo), de 23 de agosto a 06 de outubro de 2002. Informações a respeito da exposição, com Décio Di Giorgi: decio.giorgi@conteudonet.com. Página ilustrada com obras do artista Francisco Rebolo (Brasil).

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