Guillermo Roux Guillermo Roux

revista de cultura # 28 - fortaleza, são paulo - setembro de 2002

Guillermo Roux

Editorial
A diferença entre o círculo e a bola será mesmo o peso?

Ao nos depararmos com a reprodução ampliada de um desenho de Lúcio Costa intitulado "Memória descritiva do Plano Piloto", que se limita a linhas indicando os dois eixos centrais que conformam o traçado radical de Brasília, situado em uma mesma exposição onde se pode ver uma escultura de Franz Weissmann e uma poltrona de Marcel Breuer, é possível vir à mente um questionamento em torno da dissonância brutal entre as formas ali apresentadas como arte.

Esse aparente conflito já de muito se pode encontrar em diversos espaços devotados à exposição dessas não de todo fortuitas relações entre arte e indústria, arte e propaganda, arte e mercado etc. Talvez se possa até dizer que uma certa sociologia da arte está a confundir-se com a mesma e a ocupar-lhe o lugar. Além disso, a despeito da conhecida máxima de Walter Benjamin, de que é preciso "politizar a arte", o que se mostra como contemporaneidade em muito estabelece mais uma dissociação com a realidade do que o contrário, ou seja, evidencia-se mais uma esquizofrenia do que propriamente uma crítica dessa mesma realidade.

Outra curiosa apropriação equívoca de idéia remete ao que disse Octavio Paz acerca da pureza: "aquilo que fica depois de todas as somas e restos". Um torpe silogismo confunde pureza com inexpressividade ou vazio existencial, é o que poderia claramente concluir alguém que estivesse a visitar exposições individuais ou coletivas do que se convencionou chamar de arte pós-moderna. Mesmo entendendo que esse vazio é puro no sentido da sinceridade, ainda assim caberia provocar-lhe a impureza, pois não se pode conceber uma arte que não diga nada.

Sempre se pode dizer do insurreto que ele não busca senão uma condição canônica? Essa circularidade viciada por vezes pode apressar ou equivocar o entendimento de um ou outro aspecto. É comum hoje em dia muitos dos pretensos insurretos já se sentirem canônicos por antecipação. Respaldados por um cartel que soma as várias formas possíveis de conveniência, esses moços afiam um inquestionável talento para a fraude, a um só tempo ética e estética. Quem põe a alma a bailar diante de tais deuses de feitio tão enganoso? E como acreditar nas tábuas apregoadas por esses escribas?

Vivemos em um país onde ainda não se compreendeu, no todo ou mesmo em parte, a importância da obra de Francisco Mignone ou Flávio de Carvalho, Jorge de Lima ou Hermeto Paschoal, Antonio Bandeira ou Roberto Piva (desnecessário multiplicar exemplos), o que facilita que se tome o curso de manipulação da história a desmemoriar-se na obsessão do novo a qualquer preço. Aos poucos vamos compondo uma espécie de genealogia disparatada, família de divinos oportunistas que por vezes se atritam entre si, a julgar pela recente algazarra silenciosa que provocou entre os intelectuais brasileiros o ingresso de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras.

Os espaços públicos não possuem o caráter de reciprocidade que lhes justificariam a existência. Erguem-se como altares a sacralizar conveniências ligadas ao mercado ou ao escárnio diplomático. Com isto se criou um novo perfil de artista, o falsário obsceno disposto a tudo. Por aí surgem os bastardos da vanguarda. E toda a arte (poesia, cinema, música, escultura…) se vê delimitada por um novo temperamento. Talvez este seja o ponto mais conflituoso na vida de quem busca uma relação com seu tempo mediada pela arte. Não poder mais confiar no artista. Ele não representar mais um referencial para nada. Identificar-se ao político, por exemplo.

É isso o que pretendemos da arte? Até podemos rir diante da demência de um verso, a arritmia de uma canção, a desfiguração abstraída ou abstração apenas desfiguradora, os caprichos desses pequenos deuses, sim, esses moços querem tudo… Mas há que observar quem está se animando mais que o devido com o desgaste ou inutilidade da inquietude de tais bastardos, seus caprichos e relaxos. Há que observar por onde a arte se degenera. E apontar isto sempre. Já não parece por demais óbvia a inexistência de cânones na criação artística?

Os editores

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Guillermo Roux

Sumário

1 ana häsler y la magia del canto (entrevista). rodolfo häsler
2 antonio cícero: a difícil arte do paradoxo (entrevista). maria joão cantinho
3
bachelard, platón & russell: un tríptico benjamin valdivia
4 conversando con luis fayad. harold alvarado tenorio
5 deseo y soledad en cuatro novelas de fernando cruz kronfly. eduardo garcía aguilar
6 ecce femina: la veladura del tul (sobre la literatura uruguaya hecha por mujeres) mariella nigro
7 emilio moura: abandono póstumo. fabrício carpinejar
8 entre sombras e sombras: as chamas do desvelamento no giordano bruno de montaldo. mirian de carvalho
9 erwin panofsky e a questão da perspectiva. jorge lucio de campos
10
federico garcía lorca, poeta e personagem. claudio willer
11 fúrias do oráculo: a obra de josé alcides pinto. floriano martins
12 picasso y miró: dos caras de la modernidad. carlos jiménez

artista convidado guillermo roux (óleos) texto de jorge glusberg
livros da agulha: alphonsus de guimaraens, antonio cícero, bernardo pinto de almeida, luís miguel nava, nelly novaes coelho, salvador novo, wilson martins
cartas da agulha
galeria de revistas

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Guillermo Roux

Expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

conselho editorial
alfonso peña (costa rica)
alfredo fressia (brasil)
benjamin valdivia (méxico)
contador borges (brasil)
helena vasconcelos (portugal)
maria esther maciel (brasil)
maria joão cantinho (portugal)

mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
soares feitosa (brasil)

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
bernardo reyes
(chile)
carlos m. luis
(uruguai)
carlos véjar
(méxico)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
josé luis vega
(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
nelson canet
(cuba)
sonia murillo-martín (estados unidos)

artista plástico convidado (óleos)
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