Livros da Agulha
1 Alphonsus de
Guimaraens. Correspondência de AG (org. Alexei Bueno). Academia Brasileira de
Letras. Rio de Janeiro. 2002. 94 pgs.
Trata-se de edição histórica onde se reúne, por uma primeira vez, toda a
correspondência, ativa e passiva, de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), um dos poetas
mais fortemente identificados com o Simbolismo no Brasil. o livro recolhe seu diálogo com
parentes e amigos, sobretudo outros escritores contemporâneos, a exemplo de Jacques
d'Avray, Belmiro Braga e Saturnino de Meireles - este último editor da revista Rosa-Cruz.
O livro foi organizado pelo poeta Alexei Bueno (Rio de Janeiro, 1963), que antes já havia
se dedicado à reunião da obra de autores como Augusto dos Anjos, Mário de Sá-Carneiro
e Cruz e Sousa.
2 Antonio Cícero. A cidade e os livros. Ed.
Record. Rio de Janeiro. 2002. 78 pgs. Contato: http://www.record.com.br.
Em A cidade e os livros, Cícero indaga logo no primeiro verso um "por onde
começar?" que culmina, ao final do livro, com uma idéia de entrega ou abandono ou
doação, sintetizada pelo verbo "largar", a exemplo do "largar tudo"
já defendido por Rimbaud, Almada Negreiros, Breton. Este poema de abertura chama-se
justamente "Prólogo", e remete ao movimento perene da criação, onde ser e
tempo sempre retornam a si mesmo, surgem e ressurgem de sua própria circularidade, onde a
entrega ao outro confunde-se com um mergulho em si mesmo.
De um ponto ao outro do livro, Cícero sugere ao leitor um intenso convívio entre ser e
deixar-se ser. Não à toa na capa encontramos um raro Paul Klee, também ele um
"matemático amoroso", entrelaçando arte e vida. Claro, essa relação de
entrega está longe de se confundir com uma sujeição ou maneirismo de qualquer monta.
Há poucos deslizes neste livro, talvez propiciados por excesso de entrega, mas nunca por
incursão na displicente linguagem que herdamos da poesia marginal e sucedâneos. O
próprio Cícero já se declarou pouco afeito a essa geração. [F.M.]
3 Bernardo Pinto de Almeida. As imagens e as
coisas. Campo das Letras Editores. Porto, Portugal. 2002. 270 pgs. Contato: campo.letras@mail.telepac.pt.
A respeito deste livro escreveu a crítica Helena Vasconcelos, diretora da revista Storm
Magazine, de Portugal: "Quando se trata de poetas, como se interrogarão eles, em
relação à arte? Muito novo, ainda, Bernardo Pinto de Almeida começou por escrever
versos que talvez tenham sido a chave para a sua contemplação e análise do objecto de
arte. Professor de História e Teorias da Arte na Faculdade de Belas-Artes da Universidade
do Porto foi, durante anos, um dos mais prolíferos, atentos e originais críticos de
arte. (São sobejamente conhecidos os seus trabalhos dedicados ao movimento surrealista,
às obras de Henrique Pousão, de Ângelo de Sousa, de Fernando Lanhas e a sua
imprescindível História da Pintura Portuguesa do Século XX, recentemente
re-editada pela Lello Editores). Neste vasto panorama rigoroso, dirigido e especializado, As
Imagens e as Coisas é um livro que surge como uma obra muito especial. É uma
"caixa" que, tal como a imagem que aparece na capa - um pormenor de uma
representação de Santa Luzia atribuída a Grão Vasco, em que uma mão segura um volume
de onde sobressaem dois olhos meditativos - surge como um objecto que contém em si
próprio toda a arqueologia da mente do autor. Não é por acaso que um dos textos,
dedicado a Joseph Cornell, o artista que fazia caixas, se inscreve na primeira parte do
livro, logo a seguir aos apontamentos sobre Duchamp e Giacometti. [
] Pinto de
Almeida disse um dia que gostaria que este livro fosse considerado um romance. É-o, de
certa maneira, uma vez que conta uma história, a de uma evolução mental, física,
estrutural do autor. Octavio Paz, que escreveu um poema sobre Joseph Cornell, traduzido
por Elizabeth Bishop, (monumentos a cada instante/recusa de cada instante passado,
usado/jaulas para a eternidade) disse que os corpos são hieroglifos sensíveis
e é neste contexto que, preferencialmente, As Imagens e as Coisas deve ser
apreciado. Ler um livro sobre arte compulsivamente, sem parar, por puro prazer é tão
raro como agarrar num bom romance policial e largá-lo antes de saber quem é o assassino.
As Imagens e as Coisas constitui-se como um labirinto de textos que nos levam
certeira e alegremente para longe do minotauro das ideias feitas e dos métodos
canónicos.Bernardo Pinto de Almeida é um homem, um escritor, um poeta que, como tal,
sabe olhar. Nesta obra partilha generosamente com o leitor esse acto hedonista."
4 Luís Miguel Nava. Poesia completa 1979-1994.
Publicações Dom Quixote. Lisboa. 2002. 290 pgs.
"Estreando-se em 1979, com o livro de poesia Películas (Moraes), que foi
prêmio de Revelação da A. P. E., Luís Miguel Nava escreveu posteriormente A
Inércia da Deserção (& etc., 1981), Como Alguém Disse (Contexto,
1982), Rebentação (& etc., 1984), Poemas (reedição conjunta de
livros anteriores, Limiar, 1987), O Céu sob as Entranhas (Limiar, 1989) e Vulcão
(Quetzal, 1994). Foi, ainda, autor de três obras de ensaio e organizou uma Antologia de
Poesia Portuguesa - 1960/1990.
Sete anos volvidos após a sua morte, a D. Quixote presta-lhe justiça, compilando uma
obra que marcou o panorama poético português, nas décadas de 80 e 90. Aliando uma forte
expressividade, que lhe advém da intensidade criatividade metafórica, a uma tendência
narrativa da qual resultam poemas em prosa, o autor oscila entre o plano do concreto -
comparando o corpo e os órgãos humanos a órgãos funcionais, utilitários - e o plano
do abstracto, revelando a sua poesia uma concentração elevadíssima, abrindo-se a uma
leitura que suscita contradição e que é, também por isso, inesgotável." [Trecho
de artigo assinado por Maria João Cantinho, cfe. Agulha # 25]
5 Nelly Novaes Coelho. Dicionário Crítico de
Escritoras Brasileiras. Escrituras Editora. São Paulo. 2002. 752 pgs. Contato: imprensa@escrituras.com.br.
Este livro é um importante registro histórico-literário brasileiro de nossas autoras
que, certamente, permanecerá como obra de referência por muitas décadas. Em sua
pesquisa Nelly traça a trajetória de mais de 1400 escritoras em três séculos de
literatura brasileira, dentre elas, nossa primeira romancista, Tereza Margarida da Silva e
Orta, passando pelas pioneiras do século XIX e chegando aos nossos dias, incluindo desde
as consagradas como Adélia Prado, Henriqueta Lisboa, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles,
Clarice Lispector, Lia Luft, Cecília Meireles, Raquel de Queirós, Raquel Naveira, Helena
Armond e outras. Até as neófitas como Claudia Monteiro de Castro, Lélia Romero, Claudia
Roquette-Pinto, Patrícia Melo e muitas outras em quase 1000 páginas com muita história
e curiosidades de nossas escritoras.
Fruto de quase vinte anos de pesquisa a autora parte de nossa primeira escritora no
século XVIII, nascida em São Paulo,em 1711, Tereza Margarida da Silva e Orta, cujo
romance, Aventuras de Diófanes, foi dedicado à Princesa Dona Maria Francisca
(futura Rainha D. Maria I). A primeira romancista brasileira, era filha de um dos homens
mais ricos de Portugal controla-dor do ouro que saía das Minas Gerais e ia para a
Europa. Era irmã de Matias Ayres, intelectual do período do Marquês de Pombal, do qual
ela foi secretária. [N.E.]
6 Salvador Novo. Sonetos eróticos (trad. Glauco
Mattoso). Fundação Memorial da América Latina. São Paulo. 2002. 56 pgs. Contato: http://www.memorial.org.br.
Segundo o tradutor Glauco Mattoso, o mexicano Salvador Novo (1904-1974) "integra a
corrente que, simultânea ao modernismo brasileiro, revitalizou a poesia hispano-americana
sob o rótulo de ultraísmo. No México seu círculo ficou conhecido como os contemporâneos
(em torno da revista homônima): Xavier Bodel, Xavier Villaurrutia, Bernardo Ortiz de
Montellano, Gilberto Owen, Jorge Cuesta, José Gorostiza, além do extemporâneo Carlos
Pellicer". Trata-se, contudo, de uma perigosa redução do âmbito alcançado por
essa riquíssima geração, que em momento alguma pode ser percebida apenas como vinculada
ao ultraísmo. O próprio Salvador Novo, ao lado de Gilberto Owen, teve parcialmente sua
obra vinculada ao Surrealismo. Além do que havia um verdadeiro entrechoque de ismos
definindo esse perído da história das literaturas hispano-americanas. Importa, no
entanto, que se esteja finalmente ventilando, no Brasil, um pouco da poesia de Salvador
Novo. Deste mesmo período, a Fundação Memorial da América Latina tem em mãos os
originais de uma tradução de Xavier Villaurrutia, dos mais importantes poetas mexicanos,
realizadas por Jorge Pieiro, cuja publicação deverá vir a lume em breve. [F.M.]
7 Wilson Martins. A idéia modernista.
Academia Brasileira de Letras/Topbooks. Rio de Janeiro. 2002. 348 pgs. Contato: topbooks@topbooks.com.br.
Este livro focaliza um período que talvez seja o mais importante de quantos compreende
nossa história literária. A seu estudo consagrou Wilson Martins o melhor de seu
tirocínio de professor de literatura e crítico militante, realizando a proeza de
traça,k em obra de limitada extensão, um roteiro verdadeiramente modelar no que respeita
ao critério crítico e seletivo da informação.
Fiel ao princípio de que "não há história sem crítica", cuidou o autor de
fixar neste ensaio menos o panorama histórico - empresa para cuja consecução seriam
precisos vários e alentados volumes - do que um roteiro crítico da "idéia
modernista", através dos fatos, autores e livros relevantes que lhe assinalam a
trajetória no tempo e no espaço.
Pelo rigor do seu espírito de síntese e balanço crítico, A idéia modernista se
constitui em leitura indispensável a quantos, estudantes de Letras ou não, se interessem
em conhecer um dos períodos mais ricos da literatura brasileira. [N.E.]
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