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revista de cultura # 28 - fortaleza, são paulo - setembro de 2002 |
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Emílio Moura: abandono póstumo Fabrício Carpinejar Enquanto o centenário de nascimento de Carlos Drummond de Andrade
recebe a visibilidade merecida de grande poeta brasileiro do século XX, um outro mineiro,
Emílio Moura (1902-1977), completa cem anos de forma apagada, sem receber visitas em sua
lápide fria ou comemoração nacional com reedições de sua obra (a melhor seleta
disponível ainda é a de Fábio Lucas, de 1991). Seu aniversário em 14 de agosto está
coberto de heras e musgo, trançado no abandono. O curioso é que Drummond certamente não
deixaria seu amigo sozinho em plena festa, porque foi o que mais incentivou e dedicou
poemas a Moura, definindo-o como "um manso, mas longe de ser conformista", com
"ar de cegonha tímida" e dono de um "silêncio quase completo".
O retraimento biográfico pode até ter colaborado para o ocaso póstumo, de um legado "ainda não bastante admirado", na expressão de Otto Maria Carpeaux. Mas a principal causa é o tratamento de choque que a poesia mística brasileira recebeu a partir dos anos 60, secundando trajetórias como a de Cecília Meireles, Dante Milano, Carlos Pena Filho e Jorge de Lima. Na época, falar com a sociedade tornou-se mais importante do que falar com Deus, especialmente para uma crítica literária emergente de feição realista-marxista.
Quantas vezes te destruí em mim para te criar de novo? Não existe salvação em sua crença. Tendo o medo como "bússola", demonstra receio em descrever a beleza, o mesmo que mergulhar na mudez. Arca com uma nostalgia inclusive do que não aconteceu: A vida que não tive O pessimismo acentua o desfalque, as quedas sucessivas devoram qualquer possibilidade de emancipação do sujeito. Em contínua contabilidade e inquietação, alimenta uma musicalidade sigilosa, quase sussurrada, seguindo a uniformidade de procura em tom sentencioso e monocórdio, bem diferente da dicção protéica de Drummond (um Fernando Pessoa da poesia brasileira, que não materializou heterônimos por detalhe). Se Drummond é o poeta do mundo, Moura é o poeta do entremundos. Agora, que te encontrei, é como se eu já te houvesse perdido.
Viver não dói. O que dói Emílio Moura tem como marcas a melancolia e transcendência, calcado na perspectiva da primeira pessoa. Acredita veicular verdades, investindo nos paradoxos como sinal de uma vida acima das aparências. A realidade é um espaço de negociação entre a perenidade e a precariedade, um limbo de afirmação do nome. O que o singulariza é a serenidade, o equilíbrio formal e temático. Não adotou a posição de excluído e maldito como forma de reivindicar interesse. Alheio a disfarces, escapa da humildade da santidade e da arrogância da loucura, duas formas dominantes do discurso religioso. Não depende dos resultados sociais e da celebração marginal, reproduz o balbucio de um monólogo, disposto a se sacrificar pelas dúvidas. Que o ato de viver é simples diálogo
Da luz que apaga os limites A poesia em trânsito vai alicerçada na profecia. Mas é uma profecia que não se concretizou, elaborando a vivência como uma vidência fracassada. A trajetória ascensional de Emílio Moura está condicionada ao desencanto com a própria literatura. Podem exilar a poesia: exilada, ainda será mais límpida. |
Fabrício Carpinejar é jornalista e poeta, autor de Biografia de uma árvore (2002), Terceira Sede (2001), Um Terno de Pássaros ao Sul (2000) e As Solas do Sol (1998). Contato: carpinejar@zaz.com.br. Página ilustrada com obras do artista Guillermo Roux (Argentina). |