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revista de cultura # 29 - fortaleza, são paulo - outubro de 2002 |
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Augusto de Campos: o velho de novo Rodrigo Petrônio Na
geléia geral brasileira, alguém tem que servir de medula. Se eu fosse um cabotino, um
ingênuo ou um professor universitário medíocre, celebraria a reedição da obra Viva
Vaia do senhor Augusto de Campos traçando um histórico da Poesia Concreta e
reiterando a sua importância para a arte do século XX. Falaria do método ideogramático
de composição de Fenollosa que o autor em questão bebeu via Ezra Pound, e faria uma
dissertação definindo sucintamente o conceito de ícone de Peirce e o de função
poética de Jakobson. Depois frisaria como estes conceitos serviram para dar à arte
concreta a base semiótica e filosófica da imanência absoluta da linguagem, e assim se
moldaram como uma luva àquela velha reflexão de Mallarmé sobre o livro e a página em
branco como suportes da poesia.
Claro que não poderia deixar de pagar as devidas genuflexões às idéias de Marshall McLuhan, e demonstrar como os meios de comunicação de massa e as novas tecnologias promoveram uma ruptura com o espaço homogêneo e linear daquele tipo de percepção própria à cultura letrada, e inspiraram nosso autor a criar uma poética que aliasse o verbal, o vocal e o visual. Também não deixaria de carregar algumas pedras em defesa do uso desses mesmos mass media para a criação daquilo que o senhor Décio Pignatari chamou de contracomunicação, que iria minar a circulação dos bens materiais e simbólicos na sociedade de consumo. Reservaria uns parágrafos à ruptura dos gêneros ocorrida na América Latina. Em outros, revelaria ao leitor como o senhor Augusto de Campos se apropriou da antropofagia de Oswald de Andrade e, à luz de seus textos teóricos, como Crise da Filosofia Messiânica, vislumbrou na síntese entre o atavismo de nossa herança tribal e as novas tecnologias uma estrada que nos levaria direto ao estágio utópico e coletivista do bárbaro humanizado pela técnica. A próxima parada desse processo seria, naturalmente, um futuro matriarcal que iria fornecer modelos de convivência mestiça a um mundo cada vez mais frio e desgastado pelo cálculo, ou seja, um futuro em que o Brasil seria uma cultura de exportação porque dono de uma poesia de exportação. Quando o leitor sensato começasse a arquear a sobrancelha e a pensar consigo mesmo como é possível fazer tanta coisa assim, em um passe de mágica, e tirar tantos coelhos de uma só cartola, trataria logo de lhe mostrar que há uma fórmula muito fácil para isso: basta transformar o tabu em totem. Revelaria ao leitor que a nossa concepção de grande arte é na verdade uma invenção européia e etnocêntrica. Citando Lezama Lima (pobre Lezama Lima), diria que negá-la é uma atitude corajosa e anticolonizadora, e a melhor forma de fazê-lo é a partir de uma desconstrução dessa instituição chamada Literatura, tão codificada e desgastada pelo tempo, deslocando seus meios, suportes e valores. É bom lembrar que esses itens têm que ter aquele tempero indispensável de carnavalização e de relativismo antropológico, e é sempre prudente citar Derrida, esse teórico exemplar que fez o mundo entender que tudo é uma construção da linguagem, e que a sua avó, leitor, morta em um campo de concentração, não passa de uma fábula. Para encerrar a minha explanação de intelectual subserviente, desses que se encontram aos montes em terras brasílicas, de costas curvas e orelhas compridas (Nietzsche já disse que boa parte dos nossos problemas filosóficos nasce de uma mera questão de postura), poderia ver na valorização da tecnologia uma reivindicação social e desenvolvimentista. Acharia que a busca pelo novo é uma necessidade atemporal que serve para todas as épocas e, mais do que isso, que é algo indispensável à aferição de valor de obras de qualquer época. Ressaltaria a sutileza de espírito que o senhor Augusto de Campos demonstra ao encontrar, seja de maneira deliberada ou em decorrência de simples desinformação e limitação intelectual, procedimentos de vanguarda em Rilke e no trovador medieval Arnaut Daniel, e assim se assemelha àqueles bons jesuítas que se esforçavam para demonstrar aos índios os cristãos que eles já eram em potencial, e que sem o saber traziam a palavra do Salvador adormecida sob suas tangas. Enfim, como corolário da minha análise, naquele tom pernóstico que reconhecemos pelo hálito, aliaria algumas palavras tais como invenção, radicalidade, subversão, linguagem e experimentalismo àquele conjunto de adjetivos ocos que bonificam a boa alma que as manipula, deixando-a pairar livre das contingências, como alguém bom em si, em uma quarta dimensão destacada dos julgamentos desses pobres mortais que, como todos os mortais, atrelados à decomposição irrefreável da matéria e cheios de pessimismo, só podem ser mesmo um grupo de conservadores, já que a compreensão de mundo dessas pessoas parece não ir além dessa dualidade rudimentar. Ainda que fizesse tudo isso não adiantaria. A poesia do senhor Augusto de Campos é ruim sob todo e qualquer ponto de vista. Não vou me deter aqui tentando provar o quanto há de falacioso e inconsistente em toda essa parafernália conceitual. Talvez a questão seja bem mais simples, e muitas pessoas a perceberiam se não tivessem sido também elas abduzidas e encantadas pelo canto estéril das sereias da Idéia e trocado a vida pelos sistemas, esses castelos de cartas marcadas e jogos de dados viciados que caem sempre do mesmo lado. O fato é que, folheando a reedição de Viva Vaia, é impossível não sentirmos aquele cheiro peculiar de mofo que caracteriza as obras coroadas pelas superstições de seu tempo, e nem mesmo o trabalho de maquiagem gráfica competente da editora Ateliê serviu para camuflar o aspecto mais primário de seus poemas, quando muito deu conta do que há neles de constrangedor. E aqui já não é uma questão de divergência ideológica, uma crítica à emancipação da poesia ligada a novos suportes nem uma lamentação romântica anacrônica, mas um problema da fatura mesma dos poemas, que nos leva a crer com bastante razão que talvez não se trate de biscoitos tão finos assim e estejam muito mais para o populista do que para o popular.
Partindo da crença de que a arte está morta e se baseando nas premissas de uma antipoesia, o senhor Augusto de Campos operou um apagamento da fronteira existente entre cultura e arte, figuração e transfiguração, e levou a poesia àquele território obscuro, de ar rarefeito, no qual os espécimes inteligentes não sobrevivem e onde um poema e um enlatado de designer mais arrojado se distinguem por uma simples questão de lacre e timbre, ou seja, das burocracias mental e circunstancial que envolvem a obra e são alheias ao seu artesanato o que é o oposto simétrico de tudo o que ele próprio defende. Maiakóvski deve ter feito poemas para cartazes publicitários da Revolução que não entraram para sua obra. O senhor Augusto de Campos, sob o pretexto de levar adiante uma revolução permanente, ansioso por ter a estatura de Maiakóvski e ciente da impossibilidade natural da concretização desse feito, pegou o atalho mais cômodo: fez sua a poesia de circunstância do poeta russo e forneceu a ela uma base ontológica. Com isso conseguiu abocanhar o posto de autor que pôs fim ao ciclo histórico do verso no Ocidente sem ter ele próprio escrito um único verso de relevância. Basta analisar a sua produção pregressa com espírito e rabo livre. Curioso, não? Indício inquestionável do casamento entre inteligência empresarial e obstinação poética, isso também demonstra que o dilema cultural do Brasil, como muitas raposas balem por aí, é realmente um caso odontológico ou de polícia. Além disso, é a primeira vez na história da arte em que o trocadilho ganha um estatuto metafísico, e somos obrigados a inferir que por trás da inversão absoluta e global do sentido se esconde em última instância um teólogo. Ou, como é sempre mais corriqueiro, simplesmente um padre.
Mas isso também diz respeito a um problema grave do nosso tempo. Cada vez mais vivemos em um mundo povoado de objetos, e cada vez mais nos afastamos do núcleo da nossa consciência em troca de grupos, de agregados impessoais e das estruturas vazias fornecidas pelas grandes teorias e pelas instituições (e aqui as universidades também têm sua parcela de culpa), e evitamos o indivíduo concreto, porque ele, no fundo de si mesmo, pode muito bem ter desejos e crenças contraproducentes. A politização da arte e do pensamento transformou e continua transformando seus frutos em instrumentos que revelem ou ilustrem algo que está fora deles, impedindo aquela contemplação amorosa e desinteressada do mundo que é o princípio mesmo da cognição. Assim, é muito mais fácil dizer que a linguagem virou uma mercadoria e que é preciso tomá-la em sua materialidade para livrá-la da sua condição alienada, do que fazer com que ela seja um atestado dramático da minha consciência tomada em si mesma. No primeiro caso, faço uma arqueologia da história da literatura: crio uma nova técnica impessoal que se encaixe na evolução equívoca do grande Espírito do pequeníssimo e irrisório Hegel, e faço com que a história universal da poesia conflua para o meu umbigo; no segundo, vou às origens mesmo do mistério da vida e faço da poesia uma representação da minha condição concreta e conflituosa dentro da História. No mais, essa defesa incondicional e enfadonha da tal materialidade da linguagem desviou nossos olhos do que isso gera de nocivo: a desmaterialização do pensamento. Fetichismo à parte, por mais que se queira negar o caráter panfletário dos poemas-objetos contidos em Viva Vaia, é impossível ignorar que eles são servos bastante fiéis de uma plataforma poética interessada que não mudou muito em todo esse tempo, e que se baseiam naqueles tristes croquis à JK e lembram bastante aquelas cadeiras tipo Mies van der Rohe que encontramos nos antiquários. Ou, se mudou, não acrescentou nada de significativo a seu conjunto original, o que demonstra que esse tal capitalismo é muito mais cruel do que se imagina e muito mais duro de se roer do que os ossos do pobre bispo Sardinha, Deus o tenha, pois deglute todos aqueles que se apropriem dos seus meios. E quando o senhor Augusto de Campos deu a sua famosa declaração, segundo a qual o novo não tem data, e publicou o poema Tudo Está Dito, no qual sugere o beco sem saída a que o fim da História chegou pelas suas mãos, ele de quebra parece ter assinado o seu próprio atestado de óbito artístico. Porque se tudo o que reivindico em matéria de arte é a novidade, e digo que a sátira tomista, escravagista e anti-semita de Gregório de Matos é nova, digo duas coisas possíveis: ou que meu pressuposto não vale nada ou que meu tempo, afora a poesia, não vale nada, o que contradiz e colide até com aqueles princípios básicos de engajamento na linguagem que Sartre ressaltou em Mallarmé para defendê-lo de alguns marxistas burros. Afirmo uma condição sine qua non para que uma forma seja nova e atual e ao mesmo tempo nego o meu tempo no que ele tem de mais óbvio. Digo que há evolução das formas e falo em formas desgastadas, mas resgato do passado o que pode ser vivo hoje o que demonstra singelamente que não há evolução e que as formas não são mutuamente exclusivas e excludentes. Se tudo foi dito e mudado, o óbvio que ulula é não há mais nada a mudar e a dizer. Sendo assim, a vanguarda da poesia e da transformação social morre comigo e em mim, o que invalida tudo o que eu havia dito e redito à exaustão e fecha qualquer possibilidade de diálogo em um heroísmo autista.
São esses raciocínios circulares a beirar a obtusidade, com uma carga semântica muito forte, que comprometem a literatura crítica desse autor e, em conseqüência, sua poesia, tendo em vista a relação de simbiose entre o poeta e o crítico. Mas a despeito de tudo que foi dito, coloquemos as devidas luas nos is: o senhor Augusto de Campos é um ótimo tradutor, e nisso mesmo reside sua arte; quem quiser detratar sua reputação nessa área estará pisando em ovos de verdade. Como crítico é fraco, falacioso, arbitrário e sofístico. Sua poesia, se ancorando em pressupostos teóricos, padece dos mesmos males, e deveria ser vista como uma curiosidade que ajuda a esclarecer e complementar o restante da obra, como ocorre com alguns caligramas do impecável Apollinaire, caso ele existisse. Há exceções entre os poemas. Mas se a obra em questão é o máximo que o poeta pôde nos dar em mais de trinta anos de atividade, sob o pretexto de um rigor e de uma ética que mais se assemelham a uma natureza pouco generosa, capaz de forjar uma engenhoca hábil que transforma a ausência em sobra, e isso já é o suficiente para alçá-lo à condição de poeta maior, significa simplesmente que hoje o debate artístico em alguns nichos do país só prescinde das clavas em virtude de interdições jurídicas. Deveria ter sido mais rigoroso ainda, e não ter publicado nada. Acompanhando o trabalho do senhor Augusto de Campos, somos levados a uma alternância constante de admiração, desprezo e frustração. Admiração pela escolha dos autores a serem traduzidos, e pelo grau alto que esse trabalho atinge, desprezo por suas teorias sobre arte e por seus juízos críticos que não são capazes do mínimo de alteridade para com esses autores, todos eles submetidos a um uso político e devidamente encaixotados dentro de um projeto e deformados a serviço de um conjunto de idéias que são a sua capa e ornamento autopromocional, e poderiam ser jogados no lixo sem qualquer dano à essência mesma das obras, e frustração pela qualidade da poesia que nasce dessas condições de pensamento. Poderíamos fazer uma mea culpa e, como se diz em bom jargão, tapar o sol com a peneira. Mas chega uma hora em que todas as bibliotecas se fecham e estamos a sós com o que há de mais irredutível em nós mesmos, e vemos que esse palácio de papel armado a tantas pirotecnias vacila sobre um abismo de conceitos sem qualquer realidade que não seja continuar preenchendo o vácuo que a tão almejada poesia pura e geométrica gera ao negar o movimento dos corpos e da vida. Ou devoramos ou somos devorados. A ambigüidade dessas crenças também criou uma condição estranha no que diz respeito à recepção dessa poesia. Pode-se dizer que seus teores ideológico e estético encontram acolhida naquela parcela frívola da classe média que, não tendo coragem de promover o enfrentamento político, quer gozar de seu prestígio, e não tendo inteligência suficiente para ler uma grande poesia, quer para si ao menos o benefício social que o seu invólucro e simulacro proporcionam. Talvez por isso ela tenha tido tanta penetração na música popular de extração tropicalista, cuja erudição escolar, quando bem arranjada por algumas dissonâncias mal feitas, dá a áurea de modernidade que atrai tanto aquele público que quer conhecer Sousândrade e ter contato com a música das esferas de Stockhausen sem os inconvenientes do dispêndio de tempo e energia intelectual que a leitura e a educação do ouvido demandam. Foi assim que fizeram a ponte entre a vanguarda e a cultura de massas, mas essa é uma outra história, que pode ser narrada com a parcimônia necessária em outra ocasião por algum cabotino ou professor domesticado pelo hábito. O sectarismo literário vai assim se perpetuando, já que, nascida sob a égide de um grupo, essa poesia ainda mantém as características básicas que compõem todos os grupos, a burocracia e os protocolos de todas as instituições, e no centro de suas propostas e de seu paideuma há mais uma questão de pertencimento e de defesa de posturas do que de debate de idéias. Do outro lado, ou seja, do lado de fora dessa Torre de Marfim, não há nada de novo sob o sol: o fosso que separa a camada ignorante da população das mais recentes conquistas do espírito continua o mesmo, e a contracomunicação saiu pela culatra, ou melhor, pela cloaca. Pois ponderados todos esses anos, o belo livro de Augusto de Campos e sua arte de recusas podem no máximo servir de adereço à ante-sala de alguma decoradora de esquerda ou de catálogo a alguma agência de publicidade progressista. Não era isso que ele queria? |
Rodrigo Petronio é poeta e ensaísta, autor de História Natural e Transversal do Tempo. Uma versão reduzida deste ensaio foi publicada no jornal Rascunho # 28 (agosto de 2002), e aqui agradecemos à atenção do editor, Rogério Pereira, que gentilmente autorizou a reprodução. Contato: pseudopetronio@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Juan Bernal Ponce (Costa Rica). |