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revista de cultura # 29 - fortaleza, são paulo - outubro de 2002 |
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Editorial Por exemplo, quando vizinhos se encontram no elevador do prédio residencial, e dizem, por não terem mais nada para dizer, querendo mostrar sociabilidade: - Como chove... Mas será que não vai parar nunca de chover? - Mas que calor, que coisa... - Que frio, hein! - Será que hoje vai chover ou fazer um dia bonito? E por aí afora. Pois bem: desta vez, em uma aparente banalização do nosso repertório, vamos falar sobre o tempo no editorial de Agulha. Comentar como foi que um de seus editores sentiu calor, muito calor, ao, retornando de Fortaleza, chegar a São Paulo, e constatar que nessa capital estava mais quente do que na localidade do Nordeste brasileiro, com seu perpétuo verão. Mal acreditou, achou que não tinha ouvido direito, quando anunciaram, na hora da aterrissagem, que a temperatura local, em pleno mês de outubro, início de primavera do Hemisfério Sul, era de 34 graus Celsius. E isso, duas semanas depois de termômetros terem atingido o pólo oposto, chegando a 10 graus. São Paulo é uma cidade igualmente mal equipada para o frio e para o calor. Gigantesca, seu excesso de prédios e falta de áreas verdes a torna desconfortável acima de 30 ou abaixo de 15 graus. Com os termômetros de rua chegando a marcar 37 graus ao longo dos dez dias seguintes, transformou-se em um inferno. O estresse foi tomando conta de seus habitantes. Dava para perceber o ar de espanto e exaustão dos passantes na rua e dos motoristas pegos nos infindáveis congestionamentos de trânsito, alguns respirando com dificuldade um ar imóvel, seco, mais poluído, carregado de partículas, impregnado de ozônio e outros gazes nocivos. A população se perguntava até onde isso iria, quanto duraria e quando terminaria, se é que chegaria ao fim a inesperada onda de calor fora de época. Segundo o noticiário, estavam sendo ultrapassados todos os registros de temperatura nessa época do ano, chegando-se a uns seis ou sete graus acima da sua média histórica. Os parágrafos precedentes poderiam ser o início de uma narrativa de ficção científica. Aliás, um perfeito chavão da ficção científica, com o enredo do clima a alterar-se, tornando o planeta inóspito, inabitável, inviável. Seu epílogo é a extinção da espécie, exceto por alguns poucos que conseguem salvar-se, escapando em uma nave espacial, ou então achando grutas, passagens para um subsolo mais ameno. Os sobreviventes, nessa história inventada agora, mas que já escrita tantas vezes, desde a antigüidade, desde a parábola do dilúvio universal e da Arca de Noé, acabam recriando a sociedade humana, reiniciando a história, começando tudo de novo. Agora, a ficção científica começa a confundir-se com a realidade. Profecias milenaristas e apocalípticas realizam-se, pois esta onda de calor no sudoeste brasileiro não é um acidente, reflexo daquilo que os fenômenos meteorológicos têm de aleatório, da sua margem de imprevisibilidade. Trata-se, desta vez, de uma conseqüência do aquecimento global, do assim-chamado «efeito estufa», do acúmulo irreversível de gás carbônico e outros poluentes na atmosfera. Entre alterações climáticas, recrudescimento do terrorismo, evidências de desorganização social, crescimento do militarismo, crises na economia, o início do século XXI parece ser mesmo a época da realização das piores profecias milenaristas. A salvação da humanidade não é o tema central, explícito, de Agulha. Esta não é uma publicação especificamente ambientalista ou pacifista. Mas tampouco é alheia ao destino da espécie. Às vezes, são publicados textos tratando diretamente da questão, como é o caso, nesta edição, dos poemas de Allen Ginsberg. No entanto, tudo o que é apresentado aqui tem uma dimensão crítica, pois remete, direta ou indiretamente, à realidade em que vivemos, cujos acertos e desacertos são, em última (ou primeira) instância uma questão cultural. Os editores |
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Sumário 1 a poética da gravura: o trabalho da mão sonhadora. mirian de carvalho2 allen ginsberg e a volta dos apocalipses da década de 50. claudio willer 3 augusto de campos: o velho de novo. rodrigo petrônio 4 crônica de uma viagem pelo trópico com baudelaire: o cisne negro de maringá (bilíngüe). alfredo fressia 5 edouard manet: pensar con los colores. carlos vásquez-zawadzki 6 el surrealismo en la mesa: diálogos con susana wald y ludwig zeller (entrevista). floriano martins 7 herberto helder: estes são outros híbridos. maria estela guedes 8 ignacio iturria: la elaboración de la memoria. miguel angel muñoz 9 indicios para una resistencia cultural. rodolfo alonso 10 los lenguajes poéticos de antoni albalat. laura lópez-fernández 11 maría meleck vivanco y los poetas surrealistas argentinos (entrevista). raúl henao 12 modernidade e alegoria em walter benjamin. maria joão cantinho artista
convidado juan bernal ponce (óleos) texto de carlos guillermo
montero |
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Expediente editores projeto gráfico & logomarca jornalista responsável conselho editorial correspondentes artista plástico convidado (óleos)
apoio cultural banco de imagens os artigos assinados não refletem necessariamente
o pensamento da revista escreva para a agulha |
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