![]() |
revista de cultura # 29 - fortaleza, são paulo - outubro de 2002 |
|
Crônica de uma viagem pelo trópico com Baudelaire: o cisne negro de Maringá Alfredo Fressia Fui a
Maringá para falar de Baudelaire. Maringá está a caminho do coração da América do
Sul e, para mim, esta viagem era para adentrar o continente, direto. Como a cidade de São
Paulo, Maringá também está sobre o Trópico de Capricórnio. Acompanhando o Trópico, e
depois de muitas horas, o Estado de São Paulo termina, o mapa é enganoso, e a gente
está no Norte do Paraná, muito longe da capital, Curitiba, porém bem mais perto do Mato
Grosso. Continuando o caminho sobre o Trópico, vão surgir o extremo norte do Paraguai,
as fronteiras da Argentina com a Bolívia e até o deserto de Atacama no Chile. Mas eu
fiquei em Maringá, para falar de Baudelaire.
Meu tema, resumindo, era o fracasso da crítica a partir de um soneto de As Flores do Mal, aquele "À une passante". Ia fazer um levantamento crítico do poema como documento daquela Paris que mudava sob o Segundo Império, a novidade do anonimato nas ruas. O enigma da transeunte desse poema incluía a leitura psicanalítica e eu me aventurava no sado-masoquismo baudelairiano, o da "da dor que fascina e o prazer que mata". As citações de Michel Foucault, tão exatas, não podiam faltar, nem Walter Benjamin, nem o mistério implícito no poema que, no fundo (e em parte da forma), era o tema da minha conferência. Maringá tem 294.380 habitantes. Como ela é a capital de uma região, e está cercada de cidades-dormitórios, todo o aglomerado urbano conta com meio milhão de habitantes. Por isso sua universidade, a UEM, essa "Universidade Estadual de Maringá" é grande e um dos orgulhos locais. A cidade tem razões para ser orgulhosa de si mesma. Um de seus orgulhos é a natureza, tão integrada ao mapa urbano que, às vezes, a gente duvida se está realmente em uma "cidade". Vêem-se poucas ruas, e muitas avenidas largas, com árvores gigantescas, no meio delas e ao lado, palmeiras imperiais, jacarandás, ipês, essas árvores que ao invés de folhas verdes estão coberta de flores. Há aquelas de flores lilases e as amarelas. E além disso, há vários parques em pleno centro da cidade. Os quatis e os macaquinhos saem dos parques e lhes é dado o direito de passear entre as árvores das calçadas, pelos jardins e quintais das casas vizinhas. O calor é abrasador durante o dia, durante a noite ameniza um pouco, talvez porque a cidade está a 554 metros de altura, e da cama de hotel onde eu estava hospedado, descobri que os pássaros que eu via chegar, de manhã, do leste, de Mato Grosso, eram os mesmos que retornavam ao fim do dia, voando num desenho perfeito, sob um céu atordoado de todas as variações do rosa, do vermelho e do violeta chegando perto do negro. Os maringaenses são falantes, gostam de conversar, "prosear", dizem eles. Não "prosear" com as pessoas seria quase uma ofensa, ou coisa de um forasteiro irremediável. Eles gostam de contar que Maringá quase não tem passado. A cidade foi fundada em 10 de maio de 1947. Era uma selva virgem e, primeiramente, os ingleses, da "Paraná Plantations Company", a partir dos anos 20, desbravaram florestas, e em seguida, a tarefa foi continuada pela "Companhia Melhoramentos do Norte do Paraná", a partir de 1939. Aquela terra vermelha como o fogo ("podzólico roxo", disseram-me) era boa para o cultivo do café. Falam com orgulho dos "pioneiros", que vieram de São Paulo e de Minas Gerais. Vinham para trabalhar. Hoje fazem monumentos e memoriais para eles. A atriz Sônia Braga, Dona Flor, talvez seja a maringaense mais famosa, mas falam pouco dela. Vê-se que preferem a história dos pioneiros. Gostam de terem sido imigrantes pobres, "retirantes", e, com muito esforço, terem se tornado a Cidade Canção, ou a Cidade Verde. O verde se explica evidentemente. Mas o epíteto Canção obriga-os a interromper a "prosa" para cantar a canção "Maringá" tristíssima que deu seu nome à cidade. Conta a história de outra imigrante, esta mítica, que se chamava Maria do Ingá, vinda da Paraíba devido à uma seca, já transformada em "Maringá": "Foi numa leva/ Que a cabocla Maringá/ Ficou sendo a retirante/ Que mais dava o que falar". O autor da letra é Joubert de Carvalho, compositor conhecido na época e a canção seria de 1935. Nessa altura os mitos se bifurcam em versões diferentes. Alguns dizem que um "pioneiro" viúvo cantava tristemente essa canção para ninar seu filho numa rede. Mas todos concordam que desde a época dos ingleses, cada córrego, cada clareira que encontravam, sem sabem que nome lhes dar, os peões inventavam um nome, quase sempre em guarani, ou os batizavam com o nome de alguma mulher ou de outra coisa preciosa: marcas de cigarro (o caso do córrego do "Fulgor"). Em todo caso, a região que seria Maringá, levou o nome mais belo.
A história de fidelidade, num cisne, não me surpreendeu tanto quanto a beleza desse animal, mítica e comovedoramente real. Eu estava em Maringá para falar de um soneto das Flores do Mal nas Jornadas de Estudos Franceses da UEM. Então, de onde vinha esse cisne negro que não era de Rubén Darío? De Baudelaire, era claro. Me vinha de Baudelaire. "O Cisne" ("Le Cygne") de Baudelaire é trágico, e o poema talvez seja um dos mais desolados dos "Tableaux Parisiens", os Quadros Parisienses, e mesmo de todo o conjunto das Flores. É dedicado "A Victor Hugo", o poeta na época exilado na ilha inglesa de Guernesey. Eu fui a Maringá para falar de uma transeunte e quem passava na minha frente era o cisne. Fui a uma cidade cujo único passado é a natureza, sem tempo, e me aparecia esse antigo cisne negro, que em Baudelaire é branco e sujo ("Baignait nerveusement ses ailes dans la poudre", procurava a água e se banhava no pó), perdido, aquele, em uma cidade em obras e que "muda" ("Paris change!"), e o cisne mártir da modernidade me aparecia agora viúvo e negro, em um lago do coração da América do Sul. É verdade, o Poeta o anunciava desde a segunda estrofe: "la forme dune ville/ Change plus vite, hélas! que le coeur dun mortel". A prova de que a forma de uma cidade muda mais rápido que o coração de um mortal era a própria Maringá, sua existência, as fotos que se vêem nos Memoriais da cidade e o relato das "prosas" maringaenses. Da selva virgem pode surgir uma cidade. No poema, o Poeta "pensa". Pensa e proseia. "Je pense", repete, e vai enumerando os desamparados do passado, os que o perderam irremediavelmente. A lista final é vasta. Passam Andrômaca, já viúva ("Andromaque, je pense à vous!"), o cisne, em busca de seu lago, que o poeta viu uma manhã (como eu, pobre de mim!), a negra tísica que busca as palmeiras africanas "Derrière la muraille immense du brouillard", atrás dessa muralha de névoa urbana (e esta estrofe sempre me comovera: não se lê Baudelaire na América do Sul do mesmo modo que em Paris). Passam também pelo pensamento os perdedores daquilo que não se poderá encontrar nunca mais ("A quiconque a perdu ce qui ne se retrouve/ Jamais, jamais!), passam marinheiros esquecidos em um ilha, os presos, os vencidos. E se ouve, e estremece, a Recordação, na "floresta" da alma, escrito com essa maiúscula tão definitiva, ao som de trombeta: "Un vieux Souvenir sonne à plein souffle du cor!) O cisne negro de Maringá chegava, viúvo e fiel. Em Baudelaire era "Comme les exilés, ridicule et sublime", ridículo e sublime como um exilado. Mas eu o reencontrava na América do Sul, na terra mestiça para onde também imigraram Maria do Ingá e milhares, milhões de homens, tantos que os exilados deixaram de ser ridículos. Meu cisne era sublime, certamente, porque, viúvo e junto à Recordação, voltava redimido do exílio para inaugurar um mundo novo. De noite fui prosear sobre a transeunte do Segundo Império diante de um auditório de jovens entusiastas que estudam Baudelaire no coração do Continente. Não mencionei "O Cisne". Em Maringá, não era necessário.
(español) Fui a Maringá a hablar de Baudelaire. Maringá lleva al corazón de América del Sur y, para mí, el viaje era tierra adentro, directo. Como la ciudad de San Pablo, la de Maringá también se encuentra exactamente sobre el Trópico de Capricornio. Siguiendo el Trópico, y después de muchas horas, se termina el Estado de San Pablo, de mapa engañoso, y uno se encuentra en el Norte de Paraná, pero muy lejos de la capital, Curitiba, más bien tocando casi Mato Grosso. Después vienen el extremo norte del Paraguay, las fronteras de Argentina y Bolivia, y hasta el desierto de Atacama en Chile. Pero yo me quedé en Maringá, para hablar de Baudelaire. Mi tema, resumidamente, era el fracaso de la crítica a partir de un soneto de Las Flores del Mal, el llamado "À une passante". Hacía un relevamiento crítico del poema como documento de aquella París que cambiaba bajo el Segundo Imperio, la novedad del anonimato en la calles. El enigma de la transeúnte de ese poema incluía la lectura psicoanalítica, y me aventuraba en el sadomasoquismo baudelaireano, el del "dolor que fascina y el placer que mata". Las citas de Michel Foucault, tan exactas, no podían faltar, ni Walter Benjamin, ni el misterio implícito en el poema que, en el fondo (y en parte de la forma), era el tema de mi ponencia Maringá tiene 294.380 habitantes. Como constituye una comarca, y está cercada de pueblitos dormitorio, la región cuenta con medio millón de habitantes. Por eso su Universidad, la UEM, esa "Universidade Estadual de Maringá" es grande y uno de los orgullos locales. La ciudad tiene motivos para estar orgullosa de sí. Uno de ellos es la naturaleza, tan integrada al mapa urbano que a veces uno duda si está realmente en una "ciudad". Se ven pocas calles, y muchas avenidas anchas, con árboles gigantescos, en el medio y a cada lado, palmeras imperiales, jacarandás, "ipês", esos árboles que en lugar de hojas verdes están cubiertos de flores. Existen los lila y los amarillos. Y además hay varios parques en pleno centro. Los coatíes y los monitos salen de los parques y se les respeta el derecho de pasear entre los árboles de las veredas y por los jardines de las casas vecinas. El calor abrasador de día, cede un poco de noche, tal vez porque la ciudad está a 554 metros de altura, y descubrí que los pájaros que, desde la cama del hotel, de mañana, veía venir del este, de Mato Grosso, eran los mismos que volvían al fin del día, en perfecta formación, bajo un cielo mareado por todas las variaciones del rosado, el rojo, el violeta casi negro. Los maringaenses son conversadores, les gusta charlar, "prosear", dicen. No prosear con la gente sería casi una ofensa, o cosa de un forastero irremediable. Y les gusta contar que Maringá no tiene casi pasado. Fue fundada el 10 de mayo de 1947. Que era selva virgen y, primero, los ingleses, los de la "Paraná Plantations Company", desde los años 20, abrieron la floresta, y que después continuó la tarea la "Compañía Melhoramentos do Norte do Paraná", a partir de 1939. Aquella tierra roja como el fuego ("podzólico rojo", me prosearon) era buena para el cultivo del café. Hablan con orgullo de los "pioneros", que vinieron de San Pablo y de Minas Gerais. Llegaban para trabajar. Hoy les hacen monumentos y memoriales. La actriz Sonia Braga, "Doña Flor", podrá ser la maringaense más famosa, pero la nombran poco. Se ve enseguida que prefieren las historias de los pioneros. Les gusta haber sido inmigrantes pobres, "retirantes", y, con mucho esfuerzo, haberse vuelto la Ciudad Canción, o la Ciudad Jardín.
Nadie estaba "proseándome" cuando vi al cisne negro en el lago de un parque central. Más bien fui yo el que busqué con quién compartir el impacto de tanta elegancia, la belleza, de cortar la respiración, ese cisne infinito. Para prosear sólo había un guardia, señor ya entrado en años (63, me dijo después, porque también me contó su vida, prosa va, prosa viene, como corresponde). El cisne era viudo. Después de la muerte de la "cisna" le habían puesto otras cisnas, también negras y bellas (las vi en otra parte del lago) y él las rechazó. La "prosa" incluía partes moralizantes, porque, decía el señor, los hombres olvidamos a quienes amamos, pero "él", ese cisne que cuida hace años, no. Lo decía con la admiración implícita por su amigo cisne. La historia de fidelidad, en un cisne, no me sorprendió tanto como la belleza de ese animal, mítica y conmovedoramente real. Yo estaba en Maringá para hablar de un soneto de las Flores del Mal en las Jornadas de Estudios Franceses de la UEM. Entonces ¿de dónde venía ese cisne negro que no era de Darío? De Baudelaire, estaba claro. Me venía desde Baudelaire. "El Cisne" ("Le Cygne") de Baudelaire es trágico, y el poema tal vez sea uno de los más desolados de los "Tableaux Parisiens", acaso de todas las Flores. Está dedicado "A Victor Hugo", el poeta entonces exiliado en la isla inglesa de Guernesey. Yo fui a Maringá para hablar de una transeúnte y quien pasaba frente a mí era el cisne. Fui a una ciudad cuyo único pasado es la naturaleza, sin tiempo, y me aparecía ese antiguo cisne negro, que en Baudelaire es blanco y sucio ("Baignait nerveusement ses ailes dans la poudre", buscaba el agua y se bañaba en polvo), perdido, ese, en una ciudad en obras y que "cambia" ("Paris change!"), y el cisne mártir de la modernidad me aparecía ahora, viudo y negro, en un lago del corazón de América del Sur. Es cierto, el Poeta lo anunciaba desde la segunda estrofa: "la forme dune ville/ Change plus vite, hélas! que le coeur dun mortel". La prueba de que la forma de una ciudad cambia más rápido que el corazón de un mortal era Maringá misma, su existencia, las fotos que muestran en los Memoriales de la ciudad y los relatos de las "prosas" maringaenses. De la selva virgen puede surgir una ciudad. En el poema, el Poeta "piensa". Piensa y prosea. "Je pense", repite, y va nombrando a los desamparados de pasado, los que lo han perdido irremediablemente. La lista final es vasta. Pasan Andrómaca, ya viuda ("Andromaque, je pense à vous!"), el cisne, en busca de su lago, que el poeta vio una mañana (como yo, pobre de mí), la negra tísica que busca las palmeras africanas "Derrière la muraille immense du brouillard", tras esa muralla de niebla urbana (y siempre me había conmovido esa estrofa: no se lee a Baudelaire en América del Sur del mismo modo que en París). Pasan también por el pensamiento los perdedores de lo que ya nunca se volverá a hallar ("À quiconque a perdu ce qui ne se retrouve/ Jamais, jamais!"), pasan marineros olvidados en una isla, los presos, los vencidos. Y se oye, y estremece, el Recuerdo, en la "floresta" del alma, escrito con esa mayúscula tan definitiva, tras el sonido del cuerno: "Un vieux Souvenir sonne à plein souffle du cor!". El cisne negro de Maringá llegaba, viudo y fiel. En Baudelaire era "Comme les exilés, ridicule et sublime", ridículo y sublime como un exiliado. Pero yo lo reencontraba en América del Sur, en la tierra mestiza adonde también inmigraron María do Ingá y miles, millones de hombres, tantos que los exiliados dejaron de ser ridículos. Mi cisne era sublime, ciertamente, porque, viudo y junto al Recuerdo, volvía redimido del exilio para inaugurar un mundo nuevo. De noche fui a prosear sobre la transeúnte del Segundo Imperio frente a un auditorio de jóvenes entusiastas que estudian a Baudelaire en el corazón del Continente. Y no mencioné "El Cisne". En Maringá, no era necesario. |
Alfredo Fressia (Montevidéu, 1948). Poeta e ensaísta. Autor de livros como Chejov, sobre su narrativa y teatro (1974), El futuro (1998) e Veloz eternidad (1999). Contato: alfress@originet.com.br. Página ilustrada com obras do artista Juan Bernal Ponce (Costa Rica). |