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revista de cultura # 29 - fortaleza, são paulo - outubro de 2002 |
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Herberto Helder: estes são outros híbridos Maria Estela Guedes Composto e
impresso nas oficinas gráficas do Jornal do Fundão, em 1976 saía o primeiro dos
apenas dois números da Nova - Magazine de poesia e desenho, editada por Herberto
Helder, com organização dele, de António Sena e António Palolo.
Os dois últimos são conhecidos sobretudo nas artes plásticas, Herberto Helder ocorre à mente sobretudo como poeta. Porém os três são artistas híbridos, e esta revista de duração tão curta é exemplo de uma actividade que não se compadece com géneros, fronteiras entre artes, discursos, linguagens, nem com sistemas de ideias fechados. Já o modo como é apresentada a revista, com uma citação de Marilyn Monroe - A melhor maneira de contemplar a natureza é de cima de uma bicicleta - corta bruscamente com retóricas da convenção erudita para entrar na terra de ninguém em termos de palavra autorizada, o que é forma ainda de hibridar modos de estar na cultura. A apresentação, sem título nem assinatura - sem auto-referência nem autoridade - pertence evidentemente a Herberto Helder e passa à velocidade do helicóptero sobre uma natureza que em aparência se pretende expulsar da obra de arte - e que lá não está, não está, nem nunca esteve, excepto no suporte : pigmentos, papel, e talvez nos fios do ciberespaço. Mais uma vez se debate a velha questão aristotélica de ser ou não a arte imitação da natureza - o que não deixa de ser uma novidade, como a iberização dos conteúdos da revista, que pretendia congregar artistas de línguas portuguesa e castelhana, na Ibéria, em África e na América. Projecto internacional, híbrido, em suma. Quanto aos textos, é claro que transbordam do limitador subtítulo da revista - "Magazine de poesia e desenho". Além da poesia há prosa, além do desenho aparecem outras técnicas. Em arte, pouco há ainda para inventar, menos ainda para chocar, a não ser usando as novas tecnologias, porque hibridação de artes, de géneros, de prosa e verso, de verso e colagem, de colagem e pintura, etc., são recursos conhecidos. Porém há um tempo em que o conhecido reaparece numa golfada de expectativas e interrogações e então o velho torna-se novo, como no vaivém da moda. Nem este artigo traz novidade, o tema dos híbridos em Herberto Helder já o tratei, em título bem expressivo, que é um verso dele - Cândidos animais transmudando-se (O Escritor, Revista da Associação Portuguesa de Escritores # 9) - a alquimia é um dos grandes motores do poeta. Porém em 1997, data da sua publicação, os híbridos ainda não estavam tão na moda como hoje, em Agosto de 2002. Assim, o que estou a dizer é novíssimo para a filosofia e crítica da contemporaneidade, é o que discutem neste momento Bruno Latour, José Augusto Mourão e outros cérebros inclinados para a teoria. O quê, exactamente, sai hoje de um ovo como o pinto original, o primeiro de todos na ordem dos Galliformes? - o híbrido, pois com certeza. "Hoje só há híbridos", descobre o pensamento mais actualizado, não sem algum pavor pelo clone, que não é um híbrido, ou pela fusão de valores, que, em termos de hibridação em sentido estrito, o mais que poderia dar era uma gama infinita de modos entre Bem e Mal, com exclusão temporária dos extremos.
Se em 1976 Herberto Helder liderava uma revista nova, assim chamada para não restarem dúvidas sobre os seus caracteres, hoje, vinte e tal anos volvidos, mais nova é e toda a obra de Herberto Helder ganha sabor a renovada novidade, como é próprio do filho pródigo que regressa sem nunca ter saído de casa. As novas gerações de híbridos costumam ignorar que já os seus mais remotos antepassados o eram - o novo está no jovem olhar que anda à descoberta, não nos objectos da arte, cujos caracteres se fixam para a eternidade, logo que dados à luz. A obra em processo é justamente um processo de suspender essa cristalização, mantendo-a longo tempo no gerundivo acto de ir sendo feita. Toda a obra de Herberto Helder é híbrida, e isso até nos títulos se patenteia - "Poemacto", um neologismo que casa duas distintas palavras, visa a fusão entre o verbo e o acto; o discurso pretende-se performativo: a poesia é performance, acção. Imaginar é criar, e esta actuação não é exclusiva do Criador e nem sequer do artista - vai longe agora a hibridação ao atribuir às coisas a faculdade de pensar: Sei que os campos imaginam as suas / próprias rosas. Outros modos de obter frutos do casamento de contrários - e a frase evocou, mais uma vez, o tema alquímico - é a metáfora herbertiana, cujo mecanismo transporta para o cosmos os caracteres biológicos do homem, da planta e do animal e para estes o que é próprio do cosmos - as estrelas, os planetas e as suas rotações, os buracos negros, a luz e a noite. Ou seja, hibrida-se o orgânico com o inorgânico, o alto com o baixo, o que se situa no registo dos contrários. Em toda a poesia de Herberto Helder se colhem exemplos disso, ao acaso transcrevo de "O corpo o luxo a obra": Por dentro da terra
Tudo hoje são híbridos, comenta a filosofia em Agosto de 2002 - misturam-se géneros, creouliza-se, não se distingue a prosa do verso... É certo. Tudo hoje são híbridos. Mas note-se que eles existem desde Homero, desde a Bíblia, desde que o homem começou a desenhar nas cavernas, a contar o que via no céu e a levar consigo a criação no curso dos seus movimentos migratórios. Dizia eu então, a começar, que Herberto Helder ocorre à mente como poeta. Não ocorre dizer: Herberto Helder, o novelista, o contista, o tradutor de poemas mágicos e religiosos, o ensaísta... Não, não ocorre. Não porque lhe não pertençam as narrativas de "Apresentação do rosto", os contos de "Os passos em volta" ou os ensaios de "Photomaton & vox". Tudo lhe pertence. Porém, os géneros estão hibridados, e o que os hibridou foi o talento do poeta. Por comodidade, reduz-se a pluralidade a um só tipo.Eis o começo de um ensaio, em "Photomaton & vox", sobre um poeta : "Eu era muito jovem, supunha que se esbracejava na luz e que me endereçara aos diálogos cósmicos. Encontrei então Edmundo de Bettencourt". É isto discurso clássico de ensaísta? Claro que não, é discurso híbrido, filho de crítica literária e poesia. Repare-se em como é híbrido o próprio título, e mesmo macarrónico, ao aliar ao inesperado latim esse "photomaton" que também não deixa de ser um clássico, um clássico do metropolitano, v.g., e uma inovadora forma de humor.
Pelo meio do que é novo apesar de há longe conhecido - fusão de géneros, versilibrismo, prosa de natureza lírica -, há em HH gestos híbridos de absoluta originalidade, e um deles, apesar de praticado por todos os poetas, é o discurso metafórico. Escusado descrever o que só em transcrição se apreende e funciona como impressões digitais. Reconhecemos um texto de HH embora não saibamos explicar o que há nele de tão pessoal que torna imediata a identificação. São os mistérios e os segredos da arte, aquilo que a distingue da ciência, que tudo explica ou pretende explicar. Na poesia há uma reserva, um fundo de cisterna em que bebem luas - pronto, é isto, o que não é imitação da natureza. Chamemos-lhe beleza irradiante, esplendor da linguagem - são fugas ao problema que encerram bem o parágrafo. Para o fim deixei o gesto híbrido mais original da poesia toda de HH, mas não da "Poesia Toda", pois só é acessível na primeira edição de "Cobra", e só aos eleitos que receberam um exemplar das mãos do poeta - a hibridação do manuscrito com o texto tipografado, como pode ver na reprodução ao lado. Não, o autor não está a corrigir gralhas, não está sequer a corrigir, sim a usar uma técnica própria das artes plásticas, que consiste em fazer de objectos em série obras únicas. O que lê ao lado, a abertura de "Cobra", funciona assim como inédito. Já leu outros fragmentos desse poema em "Imagens da Paixão com palavras de Herberto Helder". Uma centena ou mais de exemplares foram manuscritos pelo autor, e não é só o manuscrito que torna obra única cada um desses exemplares - o que está escrito não é igual em todos. O lugar-comum é um percalço inevitável - ignorando quem me lê, terei de informar: Herberto Helder é não apenas um dos mais importantes poetas portugueses contemporâneos, ele é também um grande poeta, tout court, sem fronteiras de tempo nem lugar. |
Maria Estela Guedes (Lamego, 1947). Tem colaborado em quase todos os mais importantes jornais portugueses, na rádio e na televisão. Em 1987 foi levado à cena um espectáculo multimédia da sua autoria, O lagarto âmbar, na Fundação Calouste Gulbenkian. Entre os seus livros, encontram-se: Herberto Helder, poeta Obscuro (1979), Crime no Museu de Philosophia Natural (1984) e À Sombra de Orpheu (1990). Dirige o site cultural TriploV (www.triplov.com). Contato: estelaguedes@netcabo.pt. página ilustrada com obras do artista Juan Bernal Ponce (Costa Rica). |