revista de cultura # 2/3 - fortaleza, são paulo - setembro de 2000

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Tereza Amoêdo: sob todos os aspectos, um espetáculo para Artaud

Elaine Pauvolid

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Tereza AmoêdoA peça de um ato e de apenas uma artriz-diretora foi montada a partir de texto produzido por Luiz Horácio Rodrigues, dramaturgo, jornalista e escritor. Não há sequer uma palavra em toda apresentação, apenas um grito, apenas música de Alex Saba, apenas luz, apenas Tereza Amoêdo encarnando dor em estado bruto.

Citemos Antonin Artaud em Teatro e seu duplo (tradução de Teixeira Coelho, editora Max Limonad, 1987): "O fato de existirem chaves profundas no pensamento e da ação segundo as quais todo espetáculo é lido é coisa que não diz respeito ao espectador em geral, que não se interessa por isso. Mas de todo modo é preciso que estas chaves ‘estejam aí’, e isso nos diz respeito".

As chaves apontadas por Antonin Artaud estão presentes na peça em questão. O ser encarnado pela atriz, o ser humano, prossegue sempre massacrado. Através do massacre da personagem vemos nosso massacre como espécie. Isto só é possível pelas tais chaves escondidas na peça. Não as vemos e nos afetam profundamente. O tema é a opressão sofrida pelo ser humano, em última instância, caracterizada pela dor.

Tereza AmoêdoEncarnando o ritual de catarse, apresenta a crueldade por sua outra via, produzindo efeito libertário. De alguma forma, doendo impulsionados pela ilusão produzida pela obra artística, deixamos nossa dor noutro lugar, libertamo-nos do existente por trás dela, seu alimento.

Esta era a função do teatro grego e é esta a função do teatro de Bali a que Artaud refere-se com freqüência no livro referencial. Citemo-lo: " não se devolverá ao teatro os poderes específicos de ação antes de sua linguagem [do teatro] lhe ser devolvida", esta linguagem requisitada, Tereza Amoêdo atualiza.

O espetáculo representa também um recorte de humanidade no cenário da arte contemporânea onde todos parecem super-heróis. Onde precisa-se vencer a dor, mostrar-se em combate, dando o exemplo em uma espécie de pedagogia da existência. Tereza não é heroína, sua personagem padece, luta e é vencida pelo caos moderno, cuja filosofia não se diferencia da grande regra da natureza animal, a lei do mais forte. No caso da apresentação, a personagem perde, é tragada, engolida, não sem lutar, não sem berrar.

Quanto ao aspecto técnico, Tereza demonstra apuro. Não realiza movimentos jamais feitos, nem tampouco seu corpo representa algo sobre-humano - itens a gerar pontos, rotineiramente, a favor de peças contendo expressão corporal como linguagem. No entanto, alguns momentos valem por toda uma peça conduzida pelos maiores coreógrafos e diretores vivos. São o reflexo das tais chaves mencionadas acima. 

Tereza AmoêdoTereza dirige a si mesma com assistência de Luiz Horácio Rodrigues, comunicando-se inteiramente com a platéia e consigo mesma. Não há uma palavra em toda cena, apenas um grito, apenas música e luz - iluminação de Luísa Friese.

Lembre-se que este tipo de teatro não costuma atrair, atualmente, grandes multidões como antes acontecia na Grécia. Talvez porque o público ainda não conheça seu efeito instantâneo de catarse, talvez nem mesmo conheça a catarse e então temos que citar Antonin Artaud quando em seu primeiro manifesto do Teatro da Crueldade, acerca do público, fala que antes de falar deste tópico "é preciso que o teatro exista". Se ele pudesse assistir à peça de Tereza, diria que já existe.

Elaine Pauvolid. Poeta. Contato: pauvolid@olimpo.com.br.

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