![]() |
revista de cultura # 2/3 - fortaleza, são paulo - setembro de 2000 |
|
Isaiah Berlin: um homem de sorte José Mário Pereira
Nos últimos anos, Berlin confessava que "não lia
mais nada". Sua vida, dizia, resumia-se a "ir a funerais".
Solteiro até os 40, dado à hipocondria, sempre se recusou a escrever
"memórias". Desse ponto de vista a biografia de Ignatieff é
providencial, pois se fez a partir do convívio com o pensador - e na
intimidade dos seus próximos. Berlin, no entanto, impôs uma condição
para depor: não ler o livro. Quem imagina monótona a vida de um
professor de Oxford vai ficar surpreso com o biografado. Filho único de
judeus russos - o pai era empresário do ramo de madeiras - Berlin foi um
temperamento moldado, em parte, pela cultura inglesa. Em sua geração,
foi único no domínio do que melhor produziu a cultura da Europa
Ocidental. Nascido a 6 de junho de 1909, ele viveu em Riga, na Letônia,
até os sete anos, quando explodiu a Revolução Russa de Fevereiro.
Partiu então com a família para a Inglaterra, instalando-se numa casa de
três andares. Tinha governanta e era mimado pela mãe, de quem, de certa
forma, foi dependente até a morte dela. O exílio não lhe pesou: soube
se adaptar, integrando-se ao mundo de fala inglesa. O clima da Oxford dos anos 20 e 30, em que o
homossexualismo era encarado como arma de protesto contra o
convencionalismo burguês, aspecto bem descrito em Our Age (1990),
a autobiografia do amigo Noel Annan; o período que passou em Washington
trabalhando na Embaixada Britânica; os contatos políticos e as figuras
do mundo acadêmico que conheceu e se tornaram poderosas na gestão
Kennedy; o início da Guerra Fria, tudo é minuciosamente narrado por
Ignatieff, um admirador do biografado, apenas cauteloso demais em algumas
passagens, o que dá ao livro o caráter de biografia oficial. Um dos
pontos altos da narrativa é o capítulo sobre a primeira visita à União
Soviética em 1945, onde conheceu, já na primeira noite, o cineasta
Sergei Eisenstein, e a seguir Boris Pasternak, o futuro Prêmio Nobel, e
Anna Akhamatova, a poetisa que se afeiçoou a ele, numa relação
verdadeiramente amorosa, retratando-o em um poema como o "hóspede do
futuro". A história do primeiro encontro - que marcou a vida de
Berlin - é uma das mais comoventes desta biografia. Na época ele ainda não publicara quase nada, e se sentia
pouco à vontade dando aulas; as que deu, muitas foram proferidas em seu
quarto do All Souls, de pijama, na cama. Também detestava escrever, e
tudo que publicou foi ditado. Se não tivesse aparecido o editor Harry
Hardy é quase certo que, ainda hoje, seus ensaios estivessem soterrados
em coleções de revistas especializadas. Ignatieff relata a progressiva
inserção de Isaiah Berlin na problemática situação judaica mundial,
como colaborador e amigo de Chaim Weizmann ("um irresistível sedutor
político"), que, ao assumir a presidência do Estado de Israel, lhe
ofereceu o Ministério das Relações Exteriores. Ele recusou: não
desejava deixar a Inglaterra. Mas quem leu Personal Impressions
(1980) não esquece o comovente depoimento sobre o grande líder judeu. As disputas entre Weizmann e Ben Gurion, que Isaiah Berlin
acompanhou no calor da hora, estão bem contadas aqui. O judeu Berlin
sempre foi favorável a uma política de entendimento e negociação com
os árabes, e pouco antes de morrer ditou um documento neste sentido. Uma
vez chegou mesmo a vazar para a imprensa uma informação oficial que
protelaria a decisão sobre o destino dos judeus na Palestina. O discurso
de Weizmann no Congresso sionista na Basiléia, em 1946, por exemplo,
continha um parágrafo redigido por ele: "O terrorismo insulta a
nossa história; zomba dos ideais pelos quais deve erguer-se uma sociedade
judia; contamina nossa bandeira; compromete nosso apelo à consciência
liberal do mundo". Contrário ao terrorismo, recusou-se a estender a
mão para Menachem Begin, por causa do envolvimento dele na explosão do
Hotel Rei Davi, em Jerusalém. O judaísmo, para Berlin, deveria ser
encarado de forma humana, pacífica, sem autoritarismo - razão pela qual
admirava Einstein.
Berlin jamais acreditou que se tornaria um grande filósofo.
Depois de conviver com J. L. Austin, Stuart Hampshire e outros expoentes
da filosofia analítica inglesa, e de ter uma conferência criticada de
viva voz por Wittgenstein, acabou encaminhando-se para a história das idéias,
disciplina quase inexistente na Inglaterra de então, e à qual deu ressonância
nunca vista. Teórico do nacionalismo, adversário do determinismo,
entusiasta de Herder, Benjamin Constant e Giambattista Vico - que leu por
indicação de R. G. Collingwood (1889-1943) - Berlin ficou famoso pela
distinção entre liberdade positiva e liberdade negativa e por estudos
sobre autores tão díspares quanto Mostesquieu, Maquiavel, Hamann, Joseph
de Maistre, John Stuart Mill, Sorel e Tolstoi. No final da vida revelou-se
um grande benfeitor de Oxford levantando fundos para a construção do
Wolfson College. Suas amizades do tempo de Washington - neste caso com
McGeorge Bundy, presidente da Fundação Ford - foram providenciais.
Berlin conheceu Winston Churchill e sobre ele escreveu,
conquistando a admiração do estadista inglês. Ignatieff conta da confusão
criada quando Clementine, a mulher de Churchill, aconselhou-o a receber
Irving Berlin, em fevereiro de 1944, para agradecer ao compositor seus
esforços em meio à guerra. O político concordou entusiasmado, julgando
que convidava Isaiah, de quem conhecia os brilhantes relatórios enviados
de Washington. Com isso o almoço virou uma comédia de erros: Churchill
bombardeava o compositor americano com delicadas questões políticas que
para ele não faziam sentido, e o convidado era obrigado a responder de
forma vaga, por não compreender a intenção das perguntas. O secretário
de Churchill acabou chutando sua canela por baixo da mesa, na tentativa de
fazê-lo mudar o rumo da conversa, e ao final do encontro o autor de White
Christmas saiu de lá intrigado, com a sensação de não ter agradado. No
dia seguinte, quando a imprensa foi informada do que ocorrera, Isaiah
tornou-se conhecido em todo o mundo. Embora gostasse de se depreciar, Berlin foi um homem de
sorte. Sentia-se "intoleravelmente feio", mas ganhou elogios até
de Greta Garbo: "O senhor tem belos olhos", disse-lhe a atriz.
Era fascinado pela vida em sociedade, adorava festas, e nelas fez muitas
amizades, aprendendo a domar também a timidez. Conviveu com Virgínia
Woolf, Albert Einstein, Edmund Wilson, Anthony Blunt, George Kennan,
Alexandre Kojève, Jean Cocteau, Picasso, Alfred Brendel, Murray Perahia,
John e Jacqueline Kennedy. Na correspondência de Virginia há referências
a ele. Uma delas diz: "Catedrático muito inteligente, inteligente
demais, como Maynard [Keynes] na juventude - um judeu violento". No
clube favorito, o Athenaeum, em Pall Mall, recebeu na década de 80 José
Guilherme Merquior e Celso Lafer. Estava, neste dia, especialmente ferino
e brilhante. Ao primeiro escreveu depois, em 21.11.89: "Nunca soube
muito bem como me situar politicamente. Sempre me senti na extrema
esquerda da Direita e na extrema direita da Esquerda; em conseqüência,
tenho sido alvo de flechas de ambos os lados, e me sinto uma espécie de São
Sebastião, inteiramente por minha culpa".
Muito se tem publicado sobre Berlin. Para uma visão crítica, vale a pena ler "The pluralism of Isaiah Berlin", de Perry Anderson, em A Zone of Engagement (Verso, 1992). Perry aponta, de sua parte, algumas generalizações, o uso impróprio de uma famosa frase de Kant, o fato de só raramente referir-se à obra de Weber; e reconhece que "o tema que Berlin realmente fez seu, e de modo magnífico, é o pluralismo". John Gray estudou-o em Berlin (1995), caracterizando o seu liberalismo como "agonista", além de detalhar os pontos de contato e diferença com outras visões do liberalismo, em especial as de Joseph Raz (The Morality of Freedom, 1986) e John Rawls (A Theory of Justice, 1972). Para uma análise da presença de Berlin nas teorizações de Rawls, recomenda-se o seu recém-lançado Collected Papers (Harvard University Press, 656 págs., 1999). Resta, finalmente, informar que desde a morte do pensador, em 8 de novembro de 1997, já se publicaram dois livros seus: The Roots of Romanticism, em março deste ano, pela Chatto and Windus, e The First and the Last, em outubro último, pela Granta Books, que reúne a primeira história que escreveu, aos 12 anos, inspirado num assassinato em São Petersburgo, e o último ensaio, um esboço de sua evolução intelectual. No momento o editor e testamenteiro literário Harry Hardy organiza para publicação a rica e volumosa correspondência de Isaiah Berlin. O público leitor não perde por esperar. |
José Mário Pereira. Editor e ensaísta. Contato: topbooks@unikey.com.br. Foto de IB por Jane Bown (Camera Press). Página ilustrada com obras do artista Cruzeiro Seixas (Portugal). |