![]() |
revista de cultura # 2/3 - fortaleza, são paulo - setembro de 2000 |
|
O doutor inglês e o paciente argentino ou o médico e o monstro Julio Bressane
Foi por meio de uma lenda, a lenda de "Billy
the Kid", que cheguei até ele. Sua versão inovadora, breve, da
lenda do assassino desinteressado Bill Harrigan, fascina-me. Este conto
está em seu livro História Universal da Infâmia. Procurei Jorge
Luiz Borges para comprar os direitos autorais de uma lenda… Borges disse-me, imediatamente, que não poderia
vender os direitos autorais deste conto, pois, este texto, não lhe
pertencia, não era seu! Ele teria, segundo me disse, apenas copiado umas
linhas, de algumas páginas, de certos livros… E me indicou 2 ou 3
livros como suas fontes. Um dos livros eu tinha, The Gangs of New York,
de Herbert Asbury. Foi delicioso ouvir tudo isso através de sua voz
hesitante, pontuada por "quiças", curiosa, muito delicada.
Depois, em outro momento, porém, disse-me, para falar com o dono da
editora Emecé, que era quem tratava deste assunto e seu editor. Mas, ao
mesmo tempo, me desencorajava a fazer isto, não era justo etc… Este mote (compra dos direitos autorais da lenda de
Billy the Kid) nos levou a longas e muitas conversas… telefônicas.
Longas, sim, o que resultou, certa vez, em uma delicada ironia sua:
"Você, disse-me, com o dinheiro gasto nesses telefonemas teria
comprado minhas obras completas…"
E a conversa continuou…
Até que, em uma tarde, tarde triste, na rua Timóteo
da Costa, nome de um pintor, ouvi, pelo telefone, daquela voz, que sempre
trouxe força e vida, para não mais lhe telefonar: "estou muito
doente… gracias" e desligou. Dias, dias depois, liguei, ainda, uma última vez,
para 312 28 01, que era o número do telefone da calle Maipu 994, 6º
piso. E, atendeu, a governanta, Fani. "Por favor, o senhor Borges está?"
perguntei eu. "Não…", respondeu, lacônica e firme, a
governanta. Terrível palavra é um non, dizia o padre
Antônio Vieira. Este "não" perturbou-me…
Este "não", foi, para mim, naquele
momento, como o percebi, um "nunca mais". "Never
more", "nunca mais", "jamais plus", e, assim,
nessa forma, chegou-me à cabeça, repetidas vezes, o sinal aziago…
Passada uma semana, talvez menos, li, nos jornais, a
notícia de sua morte… Rompeu-se a voz, foi-se o fio fortuito da fortuna,
ficou uma lembrança, que, em vão, procuro reter… Gostaria de desprender da memória e trazer para
aqui o próprio "senhor Borges". "Senhor Borges",
disse minha filha Tande, ainda menina, ao atender o telefone, chamando de
Buenos Aires, aquela voz inconfundível… Uma curiosidade biográfica, para encerrar esta
minha saudade borgiana: conheci em Buenos Aires, com minha mulher Rosa
Dias, a um farmacêutico, dono de uma velha farmácia, na esquina da calle
Maipu. O sujeito, tinha conhecido muito a Jorge Luiz Borges. Conheceu também
sua mãe, D. Leonor. Da impressão que ele tinha de Borges nunca me
esqueci. Dizia: "Imagine um homem que só se alimenta de arroz e
leite. É um homem muito infeliz…"
Infeliz, talvez, mas paciente.
Escreve Borges: "…fui criado em um ambiente
onde não se falar francês era ser praticamente analfabeto. Depois veio o
inglês, passamos do francês para o inglês e do inglês para a ignorância…"
Borges, monstro do livro, tinha a paixão do livro
e, o que é mais e mais raro, sabia ler. Conhecia os rigores desta arte, a
temerária, arte de ler. Ler, cujo preceito primeiro é reler, abriga em
sua arte o método, único, de acesso, de contemplação, ao que J.
Kristeva, anos atrás, chamou "matriz geradora de
significantes". O texto, visto como uma superfície, onde vem à
tona, surge, cifrado, rigorosamente, em letra, apenas, alguns sinais,
vagos, de seu significado. Sendo, pois, o entendimento de um texto sempre
interino e, todo tempo, enigmático, esparso, mutável.
"Os grandes leitores são cisnes ainda mais
negros que os grandes autores", escreve Borges em um prefácio. O
escritor, experimentou, em toda sua obra, uma forma, um procedimento, que
foi o de recortar frases, parágrafos inteiros, de diferentes autores,
incrustá-los, mesclá-los, com perícia de relojoeiro, à sua escritura,
e fazê-los viver, parecer viver, fora do assédio do tempo. O escritor
provoca, com este processo, um colapso no tempo e uma despersonalização.
Esse formalismo, sugiro, faz parte de sua arte de ler. Entender o instante
fatal, quando, em uma dobra, o ler, escreve. Escrevendo, o ler, escrito… A minha percepção é de que a perspectiva
diferenciadora do Signo Borges vem de sua arte da leitura, seu jogo do
imaginário, sua intuição, sua duração e sua memória deste Signo que
é a literatura inglesa. Isto parece evidente e já foi muito notado. Uma
língua é angular, uma visão de mundo. Borges, escritor americano de língua
espanhola, intensifica, tonifica, amplia sua força, sua penetração
mental, com um ponto de vista: o da perspectiva formal da língua inglesa.
Fernando Pessoa, penso ser, o escritor, em língua portuguesa com este
ponto de vista formal de uma língua e literatura forte, como a inglesa. O querido e saudoso Emir Rodriguez Monegal, em seu
detalhado livro Borges, uma biografia literária, repara, em
observação pessoal e íntima, que Borges, vivendo em uma cidade ocupada,
ocupada pelo peronismo, muitas vezes o convidava para caminhar.
Caminhavam, conversando, nas noites suburbanas, pelas ruas tristes e
poeirentas do bairro judeu de Buenos Aires e Borges, para desaparecer da sórdida
realidade feita pelos peronistas, "ramificava-se em labirintos da
literatura inglesa que tanto amava. Então, Stevenson, Kipling, Chesterton
e James apareciam em sua mente, povoavam as ruas solitárias com suas
invenções, renascidas nas palavras de Borges. 'Não lhe parece?',
perguntava sem cessar, com impecável cortesia…", recorda,
discreto, elegante, Monegal.
Aby Warburg em sua demonstrativa reflexão de Dürer
e Botticelli, aponta esta atitude de buscar fora de seus contemporâneos,
fora da espessa indiferença contemporânea, o signo modelar.
Ocorre-me e socorre-me uma passagem de Edgar Wind:
"Em literatura, um caminhante sensível que é
Remy de Gourmont, saudado por Eliot no Sacred Wood como 'a consciência
crítica de uma geração', desafia a comodidade do hábito procurando um
eterno recurso na separação. Ouçamos a Remy de Gourmont: 'Eu passei
toda minha vida a fazer dissociações, dissociações de idéias,
dissociações de sentimentos, e se minha obra alguma coisa vale é pela
perseverança desse método.'"
Obviamente existem inúmeras citações e influências,
no texto de Jorge Luiz Borges, de autores ingleses (De Quincey: "a
ninguém devo tantas horas de felicidade pessoal.") e americanos
(Emerson, muito, entre outros). Se acrescentássemos algumas centenas de
nomes de autores de língua inglesa, ainda assim, fariam falta, para
esgotar as alusões e referências presentes na obra borgiana. Quero, contudo, nas asas do autor de Dissociations
e Le Chemin de velours, Remy de Gourmont, indicar, distinguir,
dissociar, um autor, um único autor, um autor forte, Sir Thomas Browne,
dos maiores estilistas da língua inglesa, suas fulgurações,
infiltradas, no texto borgiano. A obra de Browne tem uma presença difusa, porém,
constante, na obra de Borges. O autor do Urn Burial (Urnas
Sepulcrais), Religio Medici (Religião de um médico) e Pseudodoxia
Epidemica (dos Erros Vulgares) tem em Borges, como bem observa
Daniel Waissbein, em seu conciso e culto ensaio "Borges: parodista de
Browne", um receptor fora de seu jardim… A primeira tradução de Browne para o espanhol foi
feita por Borges e Bioy Casares em l944. Browne sabia o espanhol, e este
fato tem importância afetiva em Borges. Robin Robbins, em suas notas ao
texto de Browne, Pseudodoxia Epidemica, identifica a obra de
autores espanhóis e portugueses que influenciaram em sua composição. Escreve Borges:" Em uma época de fanatismo e
guerra civil Browne representou este tipo insólito: o homem tolerante. Em
sua obra capital, Urnas sepulcrais, o assunto é apenas um pretexto
para sábios e dilatados parágrafos musicais onde o que se diz é
bastante menos importante do o que se sugere." Algumas das referências citadas a seguir,
retiradas, abastecidas, robustecidas, pelo texto de D. Waissbein, mostram,
quando menos, a pervivência inusitada da preocupação browniana de
Borges.
BROWNE-BORGES: ARTE ALUSIVA Inquisiciones (1925), eco deliberado
da Pseudodoxia Epidemica, obra conhecida como Enquisiciones
sobre erros vulgares (Enquires into common and vulgar errors).
Diz, aí, Borges, estar "voceando glorias de su pluma". Vozes saídas
da pena de Browne! Discusión (1930). Em "La
supersticiosa ética del lector", tradução e citação de uma frase
do Urn Burial: "esta falacia en perduracion".
Historia de la
eternidad (1936). O
ensaio "El tiempo circular": "Em 1643, Thomas Browne
declarou em uma das notas de seu livro A Religião de um médico:
Ano de Platão-Plato´s year - é o curso de séculos depois do qual todas
as coisas recuperam seu estado anterior, e Platão, em sua escola, de
novo, explicará esta doutrina. Este é o primeiro modo de conceber o
eterno retorno, o argumento é astrológico", conclui Borges. Ficciones (1944). "Tlon; Uqbar;
orbis tertius": "Não faço caso, eu sigo revisando, nos dias
sossegados do hotel em Adrogué, uma indecisa tradução quevediana (que não
tenciono publicar) do Urn Burial de Browne."
Otras Inquisiciones
(1952). Ainda eco do título inglês da Pseudodoxia Epidemica.
Borges, aí, se refere 3 vezes a Browne: 1) o ensaio "A criação e P.H.Gosse":
"The man without navel yet lives in me, um homem sem umbigo, perdura
em mim, curiosamente escreve Sir Thomas Browne (Religio Medici,
1642), para significar que foi concebido em pecado, por descender de Adão."
Na Pseudodoxia Epidemica, Browne insiste no
assunto, a propósito do erro comum de muitos pintores clássicos que
pintam Adão e Eva com umbigo, como foi o caso de Dürer. 2) O outro ensaio é "Pascal", onde diz
Borges que a metáfora de Pascal para definir o espaço (uma esfera
infinita onde o centro esta em todas as partes e a circunferência em
nenhuma) foi empregada por quem o precedeu, e por Thomas Browne, na Religião
de um médico, para definir a divindade." 3) O ensaio "Do culto aos livros": ali está
a citação de A religião de um médico: "Sir Thomas Browne,
em 1642, confirmou: 'Dois são os livros em que aprendemos a teologia: a
sagrada escritura e aquele universal e público manuscrito que esta
patente a todos. Quem nunca os viu no primeiro, o descobrirão no segundo.
Todas as coisas são artificiais, porque a Natureza é a arte de
Deus.'"
Recordar Montaigne quando diz "portanto,
leitor, sou eu próprio a matéria de meu livro", como nota Andre
Gide, "o êxito dos Ensaios seria inexplicável sem a
extraordinária personalidade do autor. Que novidade trazia ao mundo? O
conhecimento de si mesmo. Qualquer outro conhecimento lhe parece
incerto."
O Manual de Zoologia Fantástica
(1954) e O Livro dos Seres Imaginários (1967). Como foi notado, são
inspirações e respirações do Pseudodoxia Epidemica. Para encerrar esta distinção da mancha Browne no
tecido borgiano, tecido movediço de finos fios heterodoxos, uma última
curiosidade, um dixe borgiano: o personagem central do conto
"O Imortal", que abre o El Aleph, o velho investigador de
antigüidades, Joseph Cartaphilus, de Esmirna, vem em linha, em onda,
diretamente da Pseudodoxia Epidemica, onde Browne informa que
Joseph Cartaphilus é o nome do Judeu Errante. Cartaphilus vem de uma voz,
é uma voz. Voz do outro mundo, voz do além… Escreve Sir Thomas Browne na Pseudodoxia
Epidemica, Livro 7, Cap. 17: "A história do Judeu Errante é muito
estranha, e dificilmente se dará crédito, embora haja uma notícia
completa da mesma, pela pena de Mateo Paris, que a tomou de uma informação
de um bispo armênio que veio a este reino há uns quatrocentos anos e que
tinha como hábito receber em sua casa a este viajante. Primeiro tinha se
chamado Cartaphilus, que foi guardião da sala do Juízo, onde foi
condenado a permanecer até o regresso do Salvador. Foi depois batizado
por Ananias com o nome de José…"
Escreve Jorge Luiz Borges no seu conto "O
Imortal": "Em Londres, no começo de junho de 1929, o
investigador de antigüidades Joseph Cartaphilus, de Esmirna, oferece à
princesa de Lucinge os seis volumes em quarto menor (1715-1720) da Ilíada
de Pope. A princesa adquiriu-os; ao recebê-los, trocou algumas palavras
com ele. Era, diz-nos, um homem muito magro e terroso, de olhos apagados,
barba cinzenta e traços singularmente vagos. Desempenhava com fluidez e
ignorância diversas línguas, em poucos minutos passava do francês e do
inglês a uma conjugação enigmática de espanhol de Salônica e português
de Macau. Em outubro a princesa ouviu de um passageiro do "Zeus"
que Cartaphilus havia morrido no mar, ao regressar a Esmirna, e que o
enterraram na ilha de Ios."
O enigma e a etimologia:
Carta em grego quer dizer papel. Em latim se diz do
escrito que se envia a outro como cumprimento, notícia, pedido. É também
o cartão pintado ou marcado para jogo. Philo em grego quer dizer tribo, espécie.
"O povo do livro" era uma antiga metáfora
para judeu. Esta presença de Browne na obra de Borges foi
indicada, pela primeira vez, em um breve artigo, único, de 1971,
intitulado "Notes on Sir Thomas Browne and Jorge Luiz Borges",
de David Newton De Molina, publicado na revista canadense Antigonish
Review ll.
Newton De Molina, sem dar exemplos, afirma que os
enigmas de Borges, seus paradoxos eterno-temporais, suas ironias sobre
heresias e heresiarcas, suas adaptações de idéias herméticas a uma
chave universal, tudo isso tem paralelo em forma e conteúdo, na obra de
Thomas Browne.
Conclui, talvez sem a paciência precisa, dizendo
que tanto em Browne como em Borges o que os salva e nos salva é o estilo,
sendo que este também tem muito em comum entre ambos. Um médico inglês escreveu, em Londres, no século 17. Quatrocentos anos após, neste pânico século 20, um argentino paciente, nas tardes tranqüilas de Adrogué, leu-o e traduziu-o. Depois, em Buenos Aires, durante anos, com paciência, reescreveu-o, para a eternidade… |
Julio Bressane. Cineasta. Página ilustrada com obras do artista Cruzeiro Seixas (Portugal). |